Andar em Santidade

       

             1. Andar em Santidade.

          Santidade é um tema que perpassa a Bíblia, de Gênesis a Apocalipse. A santidade começa na criação, onde Deus cria o homem à Sua imagem e semelhança (Gênesis 1:27). Em Gênesis 3, a serpente convence o homem de que o que Deus diz não é o melhor para nós, mas que nós mesmos podemos definir o que é melhor. Isso nos separou da comunhão perfeita com Deus e nos fez perder a santidade. Mas Deus chama Abraão e faz uma aliança com ele, separando-o para ser uma bênção para todas as nações (Gênesis 12:1-3), pois sua fé, obediência radical e seu caráter justo endossado por Deus, Abraão é lembrado como o pai daqueles que tem fé. 

          Em Êxodo 6, Deus separa o povo de Israel do Egito, demonstrando Sua santidade e poder. Moisés teve que transformar a cultura dos hebreus, que estiveram escravizados no Egito por 430 anos (Êxodo 12:40. Gálatas 3:17​), ele atribui todo o poder a Deus, retirando o poder dos deuses egípcios. No Monte Sinai, Deus dá os Dez Mandamentos, estabelecendo padrões de santidade para o Seu povo (Êxodo 20). O Tabernáculo é construído como uma realização do desejo de Deus para habitar no meio do seu povo redimido (Êxodo 25-31). 

          O livro de Levítico é dedicado à santidade, com leis e rituais para purificar o povo e o sacerdócio. “Sede santos, porque eu, o Senhor vosso Deus, sou santo” (Levítico 19:2). Deus continua a guiar e santificar Seu povo no deserto, ensinando-lhes a confiar n'Ele e obedecer Suas instruções para serem um povo santo (Números 15:40). Moisés repete a lei e chama Israel à fidelidade e santidade, enfatizando a importância da obediência para viver uma vida abençoada (Deuteronômio 28). 

          Josué e os juízes são exemplos de líderes chamados a guiar o povo em santidade (Josué 24:15). Os reis, especialmente Davi, são chamados a governar com justiça e santidade, embora muitos falhem (1 Reis 11). Os Salmos exaltam a santidade de Deus e a necessidade de viver em integridade (Salmo 24:3-4). Provérbios oferece sabedoria para uma vida justa e santa (Provérbios 9:10). Os profetas chamam Israel ao arrependimento e à santidade, denunciando o pecado e anunciando a santidade de Deus (Isaías 6:3, Jeremias 2:3, Ezequiel 36:23). Nos evangelhos Cristo é revelado como o Santo de Deus, que vem para cumprir a lei e nos reconciliar com o Pai. Ele nos chama a viver em santidade, seguindo Seu exemplo (Mateus 5:48, João 17:17-19). A igreja primitiva é chamada a viver em santidade pelo poder do Espírito Santo (Atos 1:8). As cartas de Paulo, Pedro, Tiago e João orientam os cristãos a serem santos em todas as áreas da vida (Romanos 12:1-2, 1 Pedro 1:15-16, Tiago 1:27, 1 João 3:3). O Apocalipse revela a consumação da história com a vitória final de Deus sobre o mal. A Nova Jerusalém desce do céu como um lugar santo onde Deus habitará eternamente com Seu povo (Apocalipse 21:1-3). A santidade será plenamente restaurada, e todos os redimidos viverão em perfeita comunhão com Deus. 

          Podemos perceber que a santidade é um fio condutor que une toda a Escritura com objetivo de Deus em revelar sua aliança e amor como o profeta nos revela em Oséias 11:4 “Atraí-os com cordas humanas, com laços de amor; e fui para eles como os que tiram o jugo de sobre suas queixadas, e me inclinei para lhes dar de comer.” Desde a criação até segunda vinda de Jesus, Deus está no processo de restaurar a santidade original da humanidade e da criação. Ele chama Seu povo a viver separado do pecado e dedicado a Ele, refletindo Sua santidade no mundo. Através de Jesus Cristo, a santidade é possível, e pelo Espírito Santo, somos capacitados a viver vidas santas, aguardando o dia em que a santidade será completamente restaurada². Observe a citação a seguir: "Deus tomou a descendência de Abraão, e por 2000 anos desenvolveu seu entendimento e cultura para alinhá-los com Sua verdade. Ele lhes deu a revelação de Sua natureza, que existe somente um Deus, e é um Deus zeloso, que não irá partilhar Sua glória com ídolos. Ele lhes revelou ser um Deus justo, santo e amoroso. Ele lhes deu uma visão profética da história. Aprenderam onde a história começou e para onde seguia e o que o Messias viria a fazer. Através da Torá, os primeiros cinco livros da bíblia dados a Moisés, ele moldou suas vidas diárias e os ensinou sobre santidade, como também sobre os dias santos, povo santo e lugares sagrados.         Ele lhes ensinou justiça e arrependimento. Dividiu seu mundo em puro e impuro para ensiná-los sobre a contaminação do pecado e o que realmente significa ser separado para Deus. Ele lhes apresentou a aliança e incutiu neles o ciclo de vida bíblico. […] Deus estabeleceu uma nova mentalidade na terra. Ele ensinou um povo a pensar de uma maneira que ninguém pensava na terra[…]" (³PIERCE, Chuck D.; HEIDLER, Robert; HEIDLER, Linda. Tempo de Avançar. Tradução: Nancy Arenas. Roanoke, TX: Lily of the Valleys Global Communication, 2016. p. 21-22.)

          Por fim, podemos observar que o desejo de Deus é restaurar a santidade e pureza, para que assim a comunhão com o ser humano seja restaurada. Cristo é a resposta para nossa busca pela santidade, pois é através da graça de Deus, que está em Cristo Jesus, a santidade é a ferramenta que transforma o nosso caráter, restaurando a nossa pureza para que possamos reaver o que foi perdido no Éden, como exploraremos nos próximos módulos. 

          2.1.1 O que é o pecado?

          A Origem do Pecado

       Embora não exista uma definição clara e definitiva na Bíblia sobre a origem do pecado, essa questão complexa envolve a consideração do caráter de Deus e do mundo criado por Ele. O apóstolo Paulo menciona o “mistério da iniquidade” (2 Tessalonicenses 2:7), indicando que o pecado tem aspectos que permanecem enigmáticos, tanto em sua origem quanto em sua manifestação final. Essa visão reforça a ideia de que o pecado é um mistério profundo e, ao mesmo tempo, uma realidade inegável na experiência humana. É crucial afirmar claramente que Deus não pecou e não deve ser culpado pelo pecado. (Williams, 2011, p. 193) O caráter de Deus é perfeito, e todos os Seus caminhos são retos. Deuteronômio 32:4 declara: “Ele é a Rocha, suas obras são perfeitas, e todos os seus caminhos são justos. Deus é fiel; não comete erros; justo e reto ele é.” Portanto, Deus é totalmente justo e íntegro, sem qualquer mancha de iniquidade ou injustiça. Segundo Grudem (1999, p. 405) “Foi o homem quem pecou, os anjos quem pecaram, e nos dois casos o fizeram por escolha intencional e voluntária.”

         Todavia observa-se dois momentos distintos na Bíblia em que o pecado teve origem: uma no reino angelical e outra na humanidade. O primeiro pecado registrado nas Escrituras ocorreu no reino espiritual, quando Satanás e seus anjos rebelaram-se contra Deus. 2 Pedro 2:4 afirma: “Pois Deus não poupou os anjos quando pecaram, mas os lançou no inferno, prendendo-os em abismos de trevas, a fim de serem reservados para o juízo”. Embora o momento exato da queda dos anjos não seja explicitamente mencionado, é evidente que ocorreu antes do pecado de Adão e Eva, visto que Satanás já estava em estado de rebelião quando tentou o primeiro casal (Apocalipse 12:9).

          O segundo pecado registrado nas escrituras foi através da desobediência de Adão e Eva no Jardim do Éden. Em Romanos 5:12, Paulo escreve: “Portanto, assim como por um só homem entrou o pecado no mundo, e pelo pecado a morte, assim também a morte passou a todos os homens, porque todos pecaram”. Este ato de desobediência não apenas trouxe o pecado ao mundo, mas também resultou na separação da humanidade de Deus e na introdução da morte física e espiritual (Romanos 6:23). Percebe-se que a responsabilidade pelo pecado recai inteiramente sobre os seres humanos, que, dotados de livre-arbítrio, escolheram desobedecer a Deus, desviando-se do padrão divino de santidade e perfeição⁴. Observe o que diz Williams: O pecado aponta inevitavelmente para o irracional e é a completa antítese da ordem e da sensatez. Não importa a minúcia da descrição ou análise, ele não cabe em nenhum esquema totalmente coerente. (…) a revelação na Escritura é esparsa em detalhes. Há alguma referência à origem (como discutiremos), mas o interesse do relato bíblico está muito mais na natureza e efeitos do pecado, o que Deus faz para vencer seu poder e como os fiéis devem lidar com ele. O pecado é um fato, aliás o fato sombrio da condição humana.” (⁵WILLIAMS, J. Rodman. Teologia Sistemática: Perspectiva Pentecostal. Editora Vida, 2011. p. 193.)

          Definições Bíblicas de Pecado

        No contexto bíblico, o pecado é frequentemente descrito usando diferentes termos hebraicos e gregos, cada um destacando aspectos distintos de sua natureza e consequências, no entanto iremos focar em duas palavras para definir pecado:

Hata (Hebraico) e Hamartia (Grego)

        A palavra hebraica “Hata” e seu equivalente grego “Harmatia” significam “errar o alvo”. Este termo transmite a ideia de que, ao não atingir o padrão divino, o ser humano inevitavelmente acerta um alvo errado. Esta palavra é usada para designar pecados morais, idolatria e pecados cerimoniais. Williams, destaca que “Hata” e “Harmatia” não apenas indicam um desvio moral, mas também uma corrupção inerente que afeta todo o ser humano, veja o que ele diz: (Williams, 1999, p. 235) “A falha em atingir o padrão divino é um reflexo da profunda corrupção moral presente na natureza humana”. Ele ressalta que a Bíblia usa esses termos para mostrar como o pecado perverte o propósito original do ser humano, levando-o a se desviar dos caminhos de Deus. Por exemplo, em Juízes 20:16, a precisão dos 700 homens escolhidos que “atiravam com a funda uma pedra num fio de cabelo e não erravam” serve como uma metáfora poderosa para o conceito de “errar o alvo”. Enquanto esses homens eram fisicamente incapazes de errar seus alvos, a condição espiritual humana é exatamente o oposto: estamos espiritualmente incapacitados de acertar o alvo da perfeição divina devido ao pecado. A precisão dos homens de Benjamim contrasta diretamente com a imprecisão moral e espiritual da humanidade⁶.

          A Lei do Antigo Testamento foi dada para que pudéssemos reconhecer nossos pecados e entender o quão longe estamos do padrão de excelência e santidade de Deus. Williams observa que  (Williams, 1999, p. 231) “a Lei de Deus é um reflexo de Sua própria natureza santa e perfeita”.

          Já no novo testamento “Hamartia” é a palavra grega mais comum usada para se referir ao pecado e é frequentemente usada em contextos relacionados ao perdão ou à salvação. Em Mateus 1:21, lemos: “Ela dará à luz um filho, e lhe porás o nome de Jesus, porque ele salvará o seu povo dos pecados deles”. João Batista, ao ver Jesus, exclama: “Eis o Cordeiro de Deus, que tira o pecado do mundo!” (João 1:29). Paulo usa essa palavra em Romanos 5:12 para descrever como o pecado entrou no mundo através de Adão Portanto, como por um homem entrou o pecado no mundo, e pelo pecado a morte, assim também a morte passou a todos os homens por isso que todos pecaram”.

         Stanley M. Horton comenta que “Hamartia” reflete a natureza abrangente do pecado, que não é apenas um ato isolado, mas uma condição contínua de afastamento de Deus. Horton afirma (Horton, 1994, p. 302) “Hamartia destaca a falha humana em viver de acordo com os padrões de Deus, resultando em uma necessidade constante de perdão e redenção”.

        Consequências do Pecado: O pecado traz consigo uma série de consequências devastadoras, tanto espirituais quanto físicas, que afetam profundamente a vida humana e o relacionamento com Deus.

        Separação de Deus: Esta é a pior consequência do pecado. Deus é absolutamente bom e não pode conviver com o pecado, que é mau. Isaías 59:2 declara: “Mas as vossas iniquidades fazem separação entre vós e o vosso Deus; e os vossos pecados encobrem o seu rosto de vós, para que não vos ouça”. O afastamento do amor de Deus leva a todas as outras consequências. Williams afirma que (Williams, 1999, p. 239) “a separação de Deus é a mais terrível consequência do pecado, pois nos priva da comunhão com o Criador”.

          Morte: A morte é uma consequência direta do pecado. Em Romanos 6:23, Paulo afirma: “Pois o salário do pecado é a morte, mas o dom gratuito de Deus é a vida eterna em Cristo Jesus, nosso Senhor”. Por causa do pecado, sofremos a morte física, pois somos imperfeitos, e o que é imperfeito não dura. A morte espiritual também ocorre, resultando na separação eterna de Deus.

         Insegurança e Perda de Sentido: Em Deus encontramos nossa verdadeira identidade e propósito. Sem Ele, a vida perde seu sentido. Jesus disse em João 10:10: “Eu vim para que tenham vida e a tenham em abundância”. A ausência de Deus resulta em uma existência marcada por insegurança e falta de direção.

       Escravidão ao Diabo: Tudo o que está longe de Deus pertence ao diabo. 1 João 3:8 afirma: “Aquele que pratica o pecado é do diabo, porque o diabo vem pecando desde o princípio”. Tornamo-nos escravos dele quando pecamos, ficando sob sua influência e domínio.

          Problemas com Outras Pessoas: O pecado frequentemente prejudica as pessoas ao nosso redor e destrói relacionamentos. Tiago 4:1-2 explica: “De onde vêm as guerras e contendas entre vocês? Não vêm das paixões que guerreiam dentro de vocês? Vocês cobiçam coisas, mas não as têm; matam e invejam, mas não conseguem obter o que desejam. Vocês vivem a lutar e a fazer guerras”. A natureza egoísta do pecado resulta em conflitos e divisões.

         O Pecado e a Salvação: Jesus Cristo morreu na cruz para pagar o preço dos nossos pecados (1 João 2:2). Quando reconhecemos nossos pecados, pedimos perdão e aceitamos Jesus como nosso Salvador, os nossos pecados são apagados. Isso não significa que nossas ações passadas não tenham consequências; continuamos sujeitos à morte física. No entanto, recebemos uma nova oportunidade, e com ela, uma nova natureza que se inclina para o bem, pois estamos unidos a Deus. Segundo a doutrina cristã, essa nova natureza nos capacita a viver de maneira diferente, alinhada com os princípios divinos.

        De acordo com Myer Pearlman (1937, p. 123), “o crente possui duas naturezas: a velha, com a qual nasceu, e a nova, a qual recebe quando aceita a Cristo”. Quem tem Jesus ainda peca, pois a velha natureza do pecado ainda está presente, lutando contra a nova natureza. No entanto, com a confissão e a ajuda de Deus, é possível vencer essa natureza. Não há mais a necessidade de viver preso no pecado, incapaz de escapar. O pecado inclui estados de depravação, culpa, incapacidade humana, condenação e, consequentemente, morte. Tiago 1:14-15 explica: “Cada um, porém, é tentado pelo próprio mau desejo, sendo por este arrastado e seduzido. Então esse desejo, tendo concebido, dá à luz o pecado; e o pecado, após ter se consumado, gera a morte”.

         No entanto, Deus, em Seu amor e misericórdia, resolveu o problema do pecado através de Jesus Cristo. Efésios 2:4 a 6 afirma: “Todavia, Deus, que é rico em misericórdia, pelo grande amor com que nos amou, deu-nos vida juntamente com Cristo, quando ainda estávamos mortos em transgressões – pela graça vocês são salvos”. Colossenses 2:13 e 14 reforça essa verdade: "Quando vocês estavam mortos em pecados e na incircuncisão da sua carne, Deus os vivificou juntamente com Cristo. Ele nos perdoou todas as transgressões, e cancelou a escrita de dívida, que consistia em ordenanças, e que nos era contrária. Ele a removeu, pregando-a na cruz".

          2.1.2 Sagrado X Secular

          A seguir abordaremos a origem do dualismo na teologia cristã, influenciado por ideias gnósticas e platônicas. Discute como essa divisão entre espírito e matéria afetou a sociedade e a igreja ao longo dos séculos. Destaca a visão de pensadores como Platão, Agostinho e Tomás de Aquino, e como a dicotomia sagrado/profano influenciou o pensamento cristão. Apresenta a visão dos reformadores em superar esse dualismo e promover uma visão unificada da vida para a glória de Deus. Por fim, critica distorções atuais na interpretação da santidade e da relação entre o sagrado e o secular.

          A Influência do Dualismo na Teologia Cristã e Sua Superação pelos Reformadores

       O dualismo na teologia cristã, influenciado por ideias gnósticas e platônicas, resultou em uma divisão entre espírito e matéria que afetou profundamente a sociedade e a igreja ao longo dos séculos. Esta divisão se cristalizou na visão de pensadores como Platão, Agostinho e Tomás de Aquino, e influenciou o pensamento cristão, criando uma dicotomia entre o sagrado e o secular. No entanto, os reformadores protestantes buscaram superar este dualismo, promovendo uma visão unificada da vida para a glória de Deus. Neste módulo iremos discutir a origem, a influência e as tentativas de superação dessa dicotomia, destacando as distorções contemporâneas na interpretação da santidade e da relação entre o sagrado e o secular.

           A Origem do Dualismo na Teologia Cristã

          A visão dualista do ser humano na teologia cristã, embora moderada, tem suas raízes no segundo século, quando as comunidades cristãs foram infiltradas por ideias gnósticas (Rosa, 2010, p.12). O gnosticismo, por sua vez, foi fortemente influenciado pelo dualismo antropológico platônico, que defendia a separação entre espírito e matéria e a imortalidade da alma. Este dualismo não se limitou à antropologia, mas também influenciou as dimensões políticas, sociais, econômicas, culturais e religiosas da sociedade.

          Segundo Alfonso García Rubio, este debate não se restringiu aos círculos acadêmicos, mas teve uma influência prática evidente na forma como a Igreja passou a priorizar a alma sobre o corpo, a fé cristã sobre as questões sociopolíticas, a vida celestial em detrimento da terrena, e o aspecto divino de Jesus em vez de seu lado humano. O pensamento de Platão, que defendia um dualismo metafísico, contribuiu significativamente para essa visão. Como R. N. Champlin explica: “Platão defendia um dualismo metafísico em sua doutrina dos universais (ideias), em contraste com os particulares, visto que o universal é o elemento eterno, imutável e infinito, enquanto que o particular é a sua contraparte terrena, material e finita” (Champlin, 2000, p. 17).

            A Influência do Dualismo na Igreja

          Ao longo dos séculos, o dualismo foi se fortalecendo de várias maneiras, influenciando não apenas a teologia, mas também a vida prática dos cristãos. A divisão entre o mundo tangível e o espírito afetou a visão da Igreja sobre a santidade e a relação entre o sagrado e o secular. A teologia resultante, fortemente influenciada pela filosofia helênica, tornou-se um híbrido de pensamento neotestamentário e neoplatônico.

         Tomás de Aquino, por exemplo, produziu uma estrutura dualística dividindo o conceito de natureza e graça. Ele afirmou que o homem está em um estado de natureza pura que precisa de uma adição de graça: “Além de nossas faculdades naturais, Deus dotara os seres humanos de um dom ou faculdade sobrenatural que os capacita a ter um relacionamento com Deus” (AQUINO, 2005, p. 45). Esta reflexão levou à percepção de que as questões humanas são independentes das divinas, apesar de caminharem juntas.

        A visão dualista de Aquino gerou a ideia de que se ia à missa para um ato sagrado, enquanto trabalhar era considerado profano. Os únicos que poderiam “viver exclusivamente do sagrado” eram os monges, que não se envolviam com “assuntos mundanos”. Essa dicotomia entre sagrado e secular continua a influenciar o pensamento cristão contemporâneo.

           A Superação do Dualismo pelos Reformadores

         Os reformadores protestantes foram os primeiros a romper com essa perspectiva dualística da vida. Eles defenderam a doutrina do sacerdócio universal de todos os crentes, conforme a revelação bíblica: “Vós, porém, sois geração eleita, sacerdócio real, nação santa, povo exclusivo de Deus” (1 Pedro 2:9). Na visão reformada, a criação é boa, conforme a Bíblia: “E viu Deus tudo o que tinha feito, e eis que era muito bom” (Gênesis 1:31). Calvino afirmava: “Todas as artes procedem de Deus e devem ser consideradas criações divinas” (CALVINO, 2006, p. 112).

          Wayne Grudem também destaca a importância de uma visão unificada da vida: “A Bíblia não faz uma distinção entre o sagrado e o secular. Todas as nossas atividades diárias devem ser feitas para a glória de Deus” (GRUDEM, 1999, p. 349). Esta perspectiva reformada ensina que a ocupação episcopal não é mais nobre do que as atividades manuais ou culturais, pois tudo deve ser realizado para a glória de Deus: “Portanto, quer comais, quer bebais, ou façais qualquer outra coisa, fazei tudo para a glória de Deus” (1 Coríntios 10:31).

            A Visão Bíblica da Santidade e da Vida Unificada

           A Bíblia ensina tanto no Antigo Testamento quanto no Novo Testamento uma visão unificada da vida, onde todas as ações devem ser realizadas para a glória de Deus. Em Provérbios, por exemplo, as instruções sobre a comunhão com Deus estão ao lado de instruções relacionadas à família, agricultura, finanças, casamento, etc. O teólogo católico Jacques Trublet observa: “A nossa dicotomia sagrado/profano se aplica com dificuldades à mentalidade hebraica, não que ela misture todos os níveis do real, mas porque na abordagem bíblica tudo funciona em interação” (TRUBLET, 1995, p. 65).

       No Novo Testamento, 1 Tessalonicenses 4 está dividido em três seções (1-8, 9-12 e 13-18), abordando santidade, amor e trabalho, e a doutrina da ressurreição dos santos e o arrebatamento, respectivamente. O trabalho (vs. 11 e 12) está inserido no meio de “assuntos espirituais”, demonstrando a interconexão entre diferentes aspectos da vida cristã.

            2.1.3 Arrependimento de obras mortas

         No Éden, o homem foi criado à imagem e semelhança de Deus. Contudo, quando o pecado se infiltrou na humanidade, ele substituiu a representação do Deus todo-poderoso e criador pela figura criada por mãos humanas. Romanos 1:22 e 23 descreve este fato: “Dizendo-se sábios, tornaram-se loucos e trocaram a glória do Deus imortal por imagens feitas segundo a semelhança do homem mortal, bem como de pássaros, quadrúpedes e répteis.”

         A reconciliação com Deus, entretanto, não ocorre sem ação por parte das pessoas. Um dos pré-requisitos para que alguém se reconcilie com Deus é o arrependimento de suas “obras mortas”, conforme mencionado em Hebreus 6:1. Mas o que são essas “obras mortas”? E todas as pessoas estão envolvidas nelas, tornando indispensável o arrependimento dessas “obras mortas”? As “obras mortas” são medidas que não estão em conformidade com a vontade de Deus. Todos nós, em algum momento de nossas vidas, já realizamos tais ações. Portanto, o arrependimento é crucial para a reconciliação com Deus.

       No Éden, não houve arrependimento. Em Gênesis 3, Deus parecia esperar que o ser humano reconhecesse seu anseio pelo perdão e mostrasse arrependimento. Quando o verso 7 diz que eles ouviram a voz do Senhor e se esconderam, Deus estava dando uma oportunidade para se apresentarem com sinceridade e arrependimento genuíno. No entanto, eles preferiram viver com o conhecimento que haviam recebido, e tentaram esconder de Deus o que haviam feito.

          Natureza das Obras Mortas

         Considerando a morte como contraponto à vida, as “obras mortas” são ações que não promovem a vitalidade. Elas são espiritualmente estéreis, inúteis e improdutivas. Essas “obras mortas” incluem tentativas de auto justificação. Todos os esforços humanos para estabelecer sua própria retidão, desvinculados de Cristo Jesus e seu sacrifício redentor, são infrutíferos. Aqueles que buscam aderir à lei mosaica para estabelecer sua própria justiça estão se empenhando em “obras mortas”, conforme enfatizado em Romanos 3:20-25: "Portanto, ninguém será declarado justo diante dele baseando-se na obediência à lei, pois é mediante a lei que nos tornamos plenamente conscientes do pecado. Mas agora se manifestou uma justiça que provém de Deus, independente da lei, da qual testemunham a Lei e os Profetas, justiça de Deus mediante a fé em Jesus Cristo para todos os que crêem. Não há distinção, pois todos pecaram e estão destituídos da glória de Deus, sendo justificados gratuitamente por sua graça, por meio da redenção que há em Cristo Jesus. Deus o ofereceu como sacrifício para propiciação mediante a fé, pelo seu sangue, demonstrando a sua justiça. Em sua tolerância, havia deixado impunes os pecados anteriormente cometidos;"

          Incapacidade da Lei e Necessidade de Graça

        A Lei identifica o que é considerado pecado, mas não é capaz de purificar-nos. João 1:17 diz: “a Lei foi proferida por meio de Moisés; a graça e a verdade foram trazidas por Jesus Cristo.” A Lei nos mostra nossas falhas, no entanto, é a graça de Jesus que nos purifica e traz a verdadeira justiça. A reconciliação com Deus não acontece passivamente; requer ação individual. Uma das condições para se reconciliar com Deus é o arrependimento das “obras mortas” (Hebreus 6:1). “Obras mortas” são ações que não estão alinhadas com a vontade de Deus. Todos nós nos envolvemos com elas em algum momento. Portanto, o arrependimento é fundamental para a reconciliação.

          Um arrependimento genuíno abre o caminho para se aproximar de seu Pai celestial com liberdade de expressão, sem se sentir julgado. O apóstolo João escreveu: “Se os nossos corações não nos condenarem, temos franqueza no falar para com Deus” (1 João 3:21). Wayne Grudem enfatiza que "Arrependimento é uma sincera tristeza por causa do pecado, é denunciá-lo e comprometer-se sinceramente a abandoná-lo, e prosseguir obedecendo a Cristo.” (Grudem, 1999, p. 596). J. R. Williams concorda, destacando a importância do arrependimento como abandono de “obras mortas” para uma vida transformada (Williams, 2003, p. 120). Ambos afirmam a necessidade de arrependimento para o crescimento espiritual. O arrependimento é um processo que ocorre no coração e envolve a pessoa inteira em uma decisão de se afastar do pecado. 

          O Verdadeiro Arrependimento e Suas Implicações na Vida Cristã

        É crucial entender que a simples tristeza ou até um profundo remorso pelos atos cometidos não caracteriza um verdadeiro arrependimento, a menos que seja acompanhado por uma genuína determinação de abandonar o pecado praticado contra Deus. Paulo pregou a respeito do “arrependimento para com Deus e a fé em nosso Senhor Jesus” (Atos 20.21). Ele disse que se alegrava com relação aos coríntios, não porque haviam ficado tristes, mas porque sua tristeza os levou ao arrependimento. “A tristeza segundo Deus produz um arrependimento que leva à salvação e não remorso, mas a tristeza segundo o mundo produz morte” (II Coríntios 7.9). A tristeza segundo o mundo pode causar grande aflição a alguém por causa de suas ações e, provavelmente, envolver o medo da punição, mas nunca resulta em uma genuína renúncia ao pecado ou em um compromisso de abandoná-lo. Hebreus 12:17 nos conta que Esaú chorou pelas consequências de suas ações, mas não se arrependeu. Além disso, como indicado em 2 Coríntios 7:9 e 10, até mesmo a verdadeira tristeza segundo Deus é apenas um dos fatores que conduzem ao genuíno arrependimento; portanto, essa tristeza, por si só, não constitui a sincera decisão de coração na presença de Deus que caracteriza o verdadeiro arrependimento (Grudem, 1999, 596). 

          Aquele que deixa de se arrepender das “obras mortas” perde a preciosa relação com seu Criador e fica sem ajuda divina em tempos de provação e angústia. Por outro lado, quem se reconcilia com Deus tem a garantia de receber sabedoria para enfrentar as provações. Veja o que nos ensina J. Rodman Williams: "O arrependimento, como podemos agora enfatizar, é uma conversão do velho para o novo. Embora ele envolva a mente e o coração, como já vimos, trata-se de um ato de vontade. E o momento do ápice na regeneração, em que a pessoa como um todo se volta para uma direção totalmente nova. Além disso, essa conversão origina-se de uma repugnância ao pecado e ao mal que mantinha o indivíduo cativo e representa uma mudança de 180 graus da vida velha para uma nova. Isso significa uma ruptura radical com o passado - velhos modos, velhos hábitos, velhas atitudes — e a entrada num mundo novo e glorioso, no qual Cristo é Salvador e Senhor." (Williams, J. Rodman. Teologia Sistemática: Perspectiva Pentecostal. Editora Vida, 2011. p. 392.)

          Aqueles que se reconciliaram com Deus devem valorizar essa relação preciosa. Para se aproximar de Deus com liberdade, é necessário manter a consciência limpa, o que demanda esforço, pois a propensão ao erro atua em seus membros carnais (Romanos 8:5 a 17). A “lei do pecado” tenta controlar suas ações e levá-los a seguir um caminho que não está em harmonia com Deus. Ao continuar apelando a Deus em fé, pedindo o perdão dos pecados com base no sacrifício redentor de Jesus, podemos, como Paulo, manter a boa consciência que resultou de nosso arrependimento inicial das “obras mortas” (Romanos 7:22 a 24). 

         Entretanto, precisamos entender que esse processo é contínuo, ocorrendo na vida do cristão desde a conversão e o novo nascimento até a caminhada com Cristo e Sua volta. J. R. Williams menciona:       "Embora consideremos a fé e o arrependimento iniciais como os dois aspectos da conversão no começo da vida cristã, é importante compreender que eles não se limitam ao começo da vida cristã. Ao contrário, são atitudes do coração que continuam por toda a nossa vida como cristãos. Jesus diz a seus discípulos que orem diariamente: ‘E perdoa-nos os nossos pecados assim como temos perdoado àqueles que pecam contra nós’ (Mateus 6.12, tradução do autor), uma oração que, se for legítima, certamente envolverá tristeza diária por causa do pecado e arrependimento genuíno. E o Cristo ressurreto diz à igreja em Laodiceia: ‘Eu repreendo e disciplino a quantos amo. Sê, pois, zeloso e arrepende-te’ (Ap 3.19; cf. II Coríntios 7.10). (…) Paulo diz também: “Esse viver que, agora, tenho na carne, vivo pela fé no Filho de Deus, que me amou e a si mesmo se entregou por mim” (Gálatas 2.20). Portanto, embora seja verdade que a fé salvífica e o arrependimento iniciais ocorrem somente uma vez em nossa vida, e quando eles ocorrem constituem a verdadeira conversão, não obstante, as atitudes sinceras de arrependimento e fé somente começam na conversão. Essas mesmas atitudes devem continuar por todo o curso de nossa vida cristã. A cada dia deve haver sincero arrependimento pelos pecados que cometemos e fé em Cristo quanto ao suprimento do necessário e à capacitação para vivermos a vida cristã” (Williams, J. Rodman. Teologia Sistemática: Perspectiva Pentecostal. Editora Vida, 2011. p. 392.)

          Assim, podemos continuar a desfrutar da amorosa ajuda de nosso Pai celestial e ter a esperança de uma vida eterna diante de nós.

          2.1.4 Santificação (já e ainda não)

          O Chamado para Ser: Uma Perspectiva Teológica

          A compreensão do chamado cristão é essencial para a vida de fé e prática de qualquer discípulo de Jesus Cristo. No âmago desse chamado, está a ordem divina de ser antes de fazer. Este princípio é reiterado em várias passagens bíblicas, destacando a primazia do caráter sobre as ações.

          O Chamado para Ser Santos

         Em 1 Coríntios 1:1 e 2, o apóstolo Paulo escreve: “Paulo, chamado pela vontade de Deus para ser… chamados para ser santos, com todos os que em todo lugar invocam o nome do Senhor Jesus Cristo.” Esta passagem destaca que o chamado de Deus para os crentes é, primeiramente, um chamado para ser santos em Cristo Jesus (Romanos 1:7). A santidade é, portanto, um estado de ser que precede e informa todas as nossas ações. (Subirá, 2018, p.23). Wayne Grudem, enfatiza que “esse tipo de empenho na obediência a Deus e na santidade deve envolver grande diligência da nossa parte.” (Grudem, 1999, p. 630).

          Devemos continuar desenvolvendo hábitos e padrões que refletem o caráter de Deus em nós, pois assim atingiremos uma medida de maturidade com a qual saberemos discernir não somente o bem, mas também o mal (Hebreus 5:14). Luciano Subirá complementa, dizendo que “a santidade não é ocasional nem limitada a uma ou outra área. É exigida em todo nosso procedimento.” (Subirá, 2018, p.25). Portanto o chamado para ser santos é um chamado para refletir o caráter de Deus em todas as áreas de nossa vida. É um chamado para ser transformado de dentro para fora, permitindo que a santidade de Deus permeie cada aspecto do nosso ser e ações.

          A Santidade como Chamado Moral e Dinâmico

         John Blanchard afirma que “moralmente, o cristão é chamado para a santidade; dinamicamente, ele é chamado para o serviço.” Esta distinção é crucial. Moralmente, somos chamados a refletir a pureza e a justiça de Deus. Dinamicamente, nossa santidade se manifesta em ações de serviço que fluem de um coração transformado. O apóstolo Pedro reforça essa expectativa divina: “Como filhos obedientes, não vos conformeis às paixões que tinheis anteriormente na vossa ignorância; mas, como é santo aquele que vos chamou, tornai-vos santos também vós mesmos em todo o vosso procedimento, porque escrito está: Sede santos, porque eu sou santo.” (I Pedro 1:14-16).

        A santidade não é um objetivo inalcançável, mas uma expectativa divina possibilitada pela presença e obra do Espírito Santo em nós. Ao respondermos a este chamado, encontramos nossa verdadeira identidade e propósito em Cristo, vivendo de forma que nossas ações sejam uma extensão natural do que somos em Deus.

           Participação na Natureza Divina

       Antes de nossa conversão, éramos filhos da desobediência (Efésios 2:3). No entanto, no novo nascimento, participamos da natureza divina e nos tornamos filhos da obediência (2 Pedro 1:4). Esta participação na natureza divina é o que nos capacita a escapar da corrupção do mundo e viver em santidade. Como nos lembra o apóstolo Paulo que fomos predestinados para ser conformes à imagem de Jesus (Romanos 8:29). O Espírito Santo habita em nós, transformando-nos progressivamente na imagem de Cristo (2 Coríntios 3:18): “Com o rosto desvendado, contemplamos, como num espelho, a glória do Senhor, somos transformados, de glória em glória, na sua própria imagem, como pelo Senhor, o Espírito.”

          Santificação: O “Já e Ainda Não”

      No momento da conversão, o crente é declarado santo por Deus, separado para Seu uso e transformado pela fé em Cristo. Esse evento é conhecido como santificação posicional. A Bíblia descreve isso em 1 Coríntios 6:11: “Mas vocês foram lavados, foram santificados, foram justificados no nome do Senhor Jesus Cristo e no Espírito do nosso Deus.” A santificação não é apenas obra de Deus; exige a cooperação ativa do crente. Paulo exorta os cristãos a desenvolverem sua salvação com temor e tremor (Filipenses 2:12), indicando que a santificação envolve esforço pessoal em resposta à obra de Deus em nós. 

          Santidade é mais do que evitar o pecado; é refletir a natureza de Deus. Mas como permitimos que essa natureza transforme nosso caráter? Santidade vai além da mera abstinência do pecado; é um reflexo da natureza de Deus. A santidade é o oposto do comum, sendo separada para um propósito específico, enquanto a pureza se refere a uma substância sem mistura, íntegra e única. Pureza, comprada por Jesus na cruz, é um pré-requisito essencial para a santidade, pois é através dela que nos consagramos a Deus e vivemos de acordo com Sua vontade. O que fazemos deve ser uma extensão do que somos. No dia da prestação de contas perante o Senhor, nossas obras não servirão de justificativa se não tivermos um coração puro e justo, que busca ser um servo aprovado (1 Timóteo 3:2), com o caráter de Cristo (Mateus 7:22-23). A graça de Deus é fundamental para a santificação. Jesus, através de Seu sacrifício, nos purificou e nos possibilitou viver uma vida de santidade, João em 1 João 1:7 a 9 nos lembra que o sangue de Jesus nos purifica de todo pecado, e ao confessarmos nossos pecados, Ele é fiel e justo para nos perdoar e nos purificar.

          A pureza é muitas vezes confundida com a santidade, mas são conceitos distintos. A pureza refere-se à manutenção de uma moral sem mácula, livre de qualquer impureza ou pecado, vivendo de acordo com os preceitos divinos. Em contraste, a santidade envolve um compromisso profundo e constante de colocar Deus no centro de todas as áreas da nossa vida, dedicando-se aos Seus propósitos e refletindo Sua natureza. É nesse sentido que a palavra de Deus em Mateus 5:8 revela “Bem-aventurado são os puros de coração, porque eles verão a Deus.” A palavra “puros” na raiz original é katharoscuja tradução literal é “purificado pelo fogo”, e ainda, a palavra “verão” na raiz original é optanomaicuja tradução literal é “permitir-se ser visto”, nesse sentido o texto em questão poderia ser traduzido como “Bem-aventurado são os que tiveram seu coração purificado pelo fogo, porque Deus se permite ser visto por eles.” Nesse sentido, existe uma expectativa de Deus em nos aperfeiçoar, nos purificando de todo pecado, a fim de que a essência do caráter de Cristo, através da ação contínua do Espírito Santo, seja revelado em nós de forma progressiva, a fim de que o homem regenerado conheça a Deus e o obedeça de forma integral para cumprir o mandato cultural.

          A santificação é tanto um evento ocorrido no momento da salvação quanto um processo contínuo na vida do cristão, esse processo é conhecido como santificação progressiva, observe o que diz a bíblia em 2 Coríntios 7:1 “purifiquemo-nos de toda impureza, tanto da carne como do espírito, aperfeiçoando a nossa santidade no temor de Deus.” Pode-se observar que há maneiras de aperfeiçoar, ou progredir na santidade, pois Deus deseja trabalhar em nós diariamente, nos purificando e nos fortalecendo até que a obra esteja completa. A santificação progressiva é facilitada pela ação contínua do Espírito Santo que nos guia e nos capacita a viver de acordo com os princípios de Deus (Romanos 8:11 a 14; Gálatas 5:16 e 17). A Palavra de Deus atua como um agente purificador, ajudando-nos a renovar nossas mentes e alinhar nossas vidas com a vontade divina (João 17:17; Efésios 5:25 a 27). Segundo Subirá uma das formas para diferenciarmos a santificação inicial e progressiva é que a primeira pode ser vista como o resultado do nosso encontro com Cristo e a segunda é a preparação para vinda d'Ele (Subirá, 2018).

        Na teologia cristã, isso é frequentemente descrito como a tensão entre o “já” e o “ainda não”. Embora a santificação posicional seja completa no momento da conversão, a santificação progressiva é um processo contínuo. Wayne Grudem define santificação como “uma obra progressiva de Deus e do homem que nos torna mais livres do pecado e mais parecidos com Cristo em nossa vida real” (Grudem, 1999, p. 746). Esta santificação progressiva ocorre ao longo da vida do cristão, enquanto ele se esforça para viver em obediência a Deus, permitindo que o Espírito Santo transforme seu caráter. A santificação é uma jornada contínua que dura a vida inteira. Embora possamos nunca alcançar a perfeição completa nesta vida, estamos continuamente nos movendo em direção à imagem de Cristo. Paulo reflete sobre essa realidade em Filipenses 3:12: “Não que já tenha alcançado tudo isso, ou que já tenha sido aperfeiçoado, mas prossigo para alcançá-lo, pois para isso também fui alcançado por Cristo Jesus.” Esse processo é conhecido como santificação final, pois culminará na glorificação, quando seremos finalmente livres do pecado e plenamente conformados à imagem de Cristo. 1 João 3:2 promete: “Amados, agora somos filhos de Deus, mas ainda não se manifestou o que havemos de ser. Sabemos que, quando ele se manifestar, seremos semelhantes a ele, pois o veremos como ele é.” Luciano Subirá uma nomenclatura interessante, “na santificação inicial somos livre da condenação do pecado; na santificação progressiva somos livres do poder do pecado e na santificação final seremos livres da presença do pecado.”

          Conteúdo Bônus

          A partir do que foi apresentado neste módulo, especialmente no aprofundamento sobre santidade e pureza, recomenda-se assistir ao filme “Amor de Redenção” (2015). Este filme é baseado no best-seller de Francine Rivers e conta a história bíblica de Oséias e Gomer. O filme é ambientado durante a Corrida do Ouro na Califórnia, em 1850. A trama segue Angel, uma jovem prostituída que luta contra o ódio e a auto-aversão. Sua vida toma um rumo inesperado quando Michael Oséias, um fazendeiro visitante, se apaixona por ela à primeira vista.

          Referência Bibliográfica

           AQUINO, Tomás de. Suma Teológica. São Paulo: Paulus, 2005.

             BEVERE, John. Extraordinário: o que você está destinado a viver. 1ª ed. São Paulo: Editora Lan, 2010.

             CALVINO, João. As Institutas. São Paulo: Editora Cultura Cristã, 2006.

             CHAMPLIN, R. N. Enciclopédia de Bíblia, Teologia e Filosofia. São Paulo: Hagnos, 2000.

           CONNER, Kevin J. Os segredos do Tabernáculo de Moisés. Tradução de Célia Regina Chazanas Clavello. Belo Horizonte: Editora Atos, 2004.

               GRUDEM, Wayne. Teologia Sistemática: Atual e Exaustiva. São Paulo: Vida Nova, 1999.

          PIERCE, Chuck D.; HEIDLER, Robert; HEIDLER, Linda. Tempo de Avançar. Tradução: Nancy Arenas. Roanoke, TX: Lily of the Valleys Global Communication, 2016.

       ROSA, W. P. da. (2010). O dualismo na teologia cristã: A deformação da antropologia bíblica e suas consequências (Dissertação de Mestrado). Escola Superior de Teologia, São Leopoldo.

           RUBIO, Alfonso García. Unidade na Pluralidade: o ser humano à luz da fé e da reflexão cristãs. São Paulo: Paulus, 2006.

             SUBIRÁ, Luciano. O impacto da santidade: compromisso profundo, resultados extraordinários. 1ª ed. Curitiba, PR: Editora Orvalho, 2018.

             TRUBLET, Jacques. A Unidade da Vida Cristã. São Paulo: Loyola, 1995.

             WILLIAMS, J. Rodman. Teologia Sistemática. São Paulo: Editora Vida, 1999.