Modelos de Conquista:
Arqueologia vs. Narrativa Bíblica
Poucas questões no campo dos estudos veterotestamentários têm gerado tanto debate quanto a questão da conquista de Canaã. Como Israel chegou a se estabelecer naquele território que as narrativas do Pentateuco e de Josué descrevem como a “terra prometida”? A resposta a essa pergunta não é simples, e sua complexidade revela tanto a riqueza quanto os limites dos diferentes métodos de investigação disponíveis ao estudioso contemporâneo.
O livro de Josué apresenta uma narrativa vigorosa e teologicamente articulada da conquista militar de Canaã sob a liderança de Josué, filho de Num. A estrutura narrativa do livro pode ser resumida em três movimentos principais: a travessia do Jordão e os eventos em Gilgal (Josué 1–5), as campanhas militares no centro, sul e norte do território (Josué 6–12), e a distribuição das terras entre as tribos (Josué 13–21). O clímax teológico da narrativa concentra-se na afirmação de Josué 21.43-45: “Assim o Senhor deu a Israel toda a terra que havia jurado dar a seus antepassados; e eles a possuíram e habitaram nela. O Senhor lhes deu descanso em redor, conforme tudo o que havia jurado a seus antepassados.”
Essa declaração sumária funciona como fecho teológico da narrativa: YHWH cumpriu sua promessa. Contudo, quando os arqueólogos voltam suas atenções para os sítios mencionados nas narrativas de conquista, a situação se revela consideravelmente mais complexa e, em muitos pontos, divergente do quadro bíblico. Esse hiato entre o testemunho textual e os dados materiais constitui o problema central desta aula.
Os Principais Modelos de Conquista
A partir da segunda metade do século XX, os estudiosos do Antigo Testamento e da arqueologia siro-palestinense desenvolveram três modelos principais para explicar o estabelecimento de Israel em Canaã. Cada um desses modelos possui pressupostos metodológicos distintos e implica consequências teológicas e históricas significativas.
O Modelo da Conquista Militar Clássica
O modelo mais diretamente vinculado à narrativa bíblica é o da conquista militar. Popularizado pelo arqueólogo americano William Foxwell Albright nas décadas de 1930 a 1960, este modelo argumentava que os dados arqueológicos — especialmente as camadas de destruição datadas do final da Idade do Bronze Tardio (c. 1200 a.C.) — correspondiam às conquistas israelitas narradas em Josué. Albright identificou a destruição de sítios como Laquis, Debir e Tell Beit Mirsim como evidências de uma presença militar israelita.
Contudo, esse modelo passou a ser crescentemente questionado. A destruição de Jericó (Tell es-Sultan), por exemplo, apresenta sérios problemas cronológicos: as escavações de Kathleen Kenyon demonstraram que, no período em que Israel supostamente conquistou a cidade (século XIII a.C.), o sítio estava praticamente desabitado, sem muralhas significativas da Idade do Bronze Tardio. O texto de Josué 6, com sua narrativa elaborada da queda das muralhas ao som das trombetas sacerdotais, não encontra correspondência estratigráfica no registro arqueológico daquele período.
Situação semelhante ocorre com Ai (Et-Tell), cuja destruição é narrada em Josué 7–8. As escavações do sítio revelaram que a cidade estava desabitada entre aproximadamente 2400 e 1200 a.C., tornando impossível uma conquista israelita no século XIII a.C. Diante dessas dificuldades, outros sítios foram propostos como alternativas — mas a controvérsia permanece aberta. Como observa Nakanose et al. (2011, p. 142), “os dados arqueológicos disponíveis não corroboram uma conquista rápida e unificada como a descrita em Josué”. Essa conclusão, porém, não implica necessariamente que toda a narrativa bíblica deva ser descartada historicamente; ela aponta, antes, para a necessidade de se compreender o gênero literário e os propósitos teológicos dos textos.
O Modelo da Infiltração Pacífica
Em reação às dificuldades do modelo militar, o estudioso alemão Albrecht Alt e seu discípulo Martin Noth propuseram, a partir dos anos 1920 e 1930, uma leitura alternativa que ficou conhecida como o modelo da “infiltração pacífica” ou “migração gradual”. Segundo esse modelo, as tribos israelitas seriam, originalmente, grupos nômades ou seminômades que ao longo de gerações foram se infiltrando pacificamente nas regiões montanhosas de Canaã, em áreas menos densamente habitadas pelas populações cananéias, e gradualmente se sedentarizaram.
O modelo de Alt e Noth apresenta a virtude de explicar melhor o processo de sedentarização sem recorrer a uma campanha militar unificada. Ele também é coerente com passagens bíblicas que sugerem uma coexistência inicial entre israelitas e cananeus, como o livro de Juízes 1, que narra inúmeras situações em que as tribos não expulsaram os habitantes anteriores (Juízes 1.19, 21, 27-33). Contudo, o modelo foi criticado por pressupostos excessivamente hipotéticos sobre o nomadismo e por desconsiderar a especificidade do testemunho bíblico sobre a identidade e a coesão tribal de Israel.
O Modelo da Revolução Social
Uma terceira proposta, radicalmente diferente, foi avançada por George Mendenhall (1962) e desenvolvida por Norman Gottwald em sua monumental obra Tribes of Yahweh (1979). Segundo esse modelo, a origem de Israel em Canaã não se deveu nem a uma conquista externa nem a uma infiltração nômade, mas a um processo de revolução social interna: camponeses e escravos cananeus, oprimidos pelos sistemas tributários das cidades-estado, teriam se revoltado contra suas elites, unindo-se sob o estandarte da religião iahvista, que oferecia uma visão igualitária da organização social.
O modelo de Gottwald tem o mérito de levar a sério as dimensões socioeconômicas da história de Israel e de conectar a experiência do Êxodo (libertação da escravidão egípcia) com uma ideologia de emancipação que teria ressonado junto a grupos marginalizados em Canaã. No entanto, seus críticos apontam que o modelo é demasiadamente dependente de uma hermenêutica marxista e que a evidência bíblica para uma “revolução interna” é bastante limitada.
A Arqueologia Recente e a Questão da Identidade Israelita
A arqueologia do final do século XX e início do século XXI trouxe novas perspectivas para o debate. Estudos sobre a distribuição de populações nas terras altas da Cisjordânia durante o período da transição Bronze-Ferro (c. 1200–1000 a.C.) revelaram um crescimento populacional expressivo nas regiões de colinas, com o surgimento de numerosas aldeias de pequeno porte. Esses novos assentamentos apresentavam características materiais distintas das cidades cananéias — ausência de suínos no registro zooarqueológico, uso de silos de armazenamento cavados na rocha, e um tipo específico de cerâmica collarims — que podem ser tentativamente associadas a grupos proto-israelitas.
Peetz (2016, p. 98) resume bem essa perspectiva: a arqueologia permite identificar “uma mudança significativa no padrão de assentamento que corresponde a uma nova população nas terras altas”, sem que seja possível determinar, a partir dos dados materiais isolados, a origem étnica ou religiosa desses grupos. A identidade israelita, tal como articulada nos textos bíblicos, é uma construção teológica e social que vai além do que os objetos materiais podem atestar.
Narrativa Bíblica como Testemunho Teológico
Diante desse panorama, é necessário perguntar: o que fazer com a narrativa bíblica de Josué? A resposta teologicamente madura não é nem a de harmonizar acriticamente todos os dados arqueológicos com o texto bíblico, nem a de subordinar a fé à arqueologia. O caminho mais fecundo é o de compreender o tipo de literatura que temos em mãos.
O livro de Josué, tal como os demais livros da chamada “História Deuteronomista” (Josué, Juízes, Samuel e Reis), foi composto com propósitos eminentemente teológicos. Ska (2017a, p. 211) lembra que “a narrativa bíblica não pretende ser uma reportagem jornalística dos eventos; ela é uma interpretação teológica da história à luz da fé em YHWH”. Nesse sentido, a descrição de uma conquista rápida e total em Josué 1–12 funciona como afirmação teológica do poder e da fidelidade de Deus, enquanto a admissão de conquistas incompletas em Josué 13 e Juízes 1 reflete a complexidade histórica real.
Waltke (2010, p. 547) argumenta que a tensão entre a afirmação de que “o Senhor deu toda a terra” (Josué 21.43) e a realidade de povos não expulsos (Juízes 1) deve ser lida como uma tensão hermenêutica intencional: a terra foi dada por Deus, mas sua posse efetiva dependia da obediência fiel de Israel. A lógica é a mesma da salvação — dada por graça, manifestada pela fé ativa.
Lasor, Hubbard e Bush (1999, p. 183) sublinham que “o propósito teológico do autor deuteronomista não era produzir um relatório histórico exaustivo, mas demonstrar como a aliança com YHWH determinava o destino do povo”. Essa perspectiva liberta o intérprete tanto do fundamentalismo arqueológico — que exige correspondência literal entre texto e escavação — quanto do ceticismo radical, que dissolve toda a historicidade da narrativa.
Síntese Hermenêutica: Uma Abordagem Integrada
A abordagem mais produtiva para o estudante de teologia é aquela que integra os dados da arqueologia, da história, da crítica literária e da leitura canônica, sem absolutizar nenhuma dessas perspectivas isoladamente. O texto de Josué narra eventos históricos reais — deslocamentos de populações, conflitos armados, processos de assentamento — mas o faz através da lente interpretativa da fé iahvista, que confessa que YHWH é o verdadeiro agente da história. Walton, Matthews e Chavalas (2003, p. 214) lembram que no antigo Oriente Próximo era comum que os registros de vitórias militares fossem escritos na forma de elogios aos deuses e às divindades protetoras dos exércitos vitoriosos. A narrativa de Josué, nesse sentido, não é exceção ao mundo literário de seu tempo — ela é, antes, sua versão mais radical, pois atribui toda a vitória exclusivamente a YHWH, o Deus que se revelou no Êxodo. Não há heroísmo humano autônomo em Josué; toda a glória pertence ao Senhor.
A Dimensão Espiritual da Conquista: Herem e Teologia da Guerra Santa
Qualquer estudo sério sobre a conquista de Canaã deve enfrentar o desafiador conceito de herem — a “destruição completa” ou “entrega ao interdito” que algumas narrativas prescrevem para as populações cananéias (Josué 6.17-21; 10.28-40; Deuteronômio 7.1-5). Do ponto de vista ético e teológico, esse conceito tem sido objeto de intenso debate. Walton (2010, p. 193) observa que o herem deve ser compreendido no contexto da teologia da pureza ritual e da santidade de YHWH: a terra santa não poderia ser contaminada pela presença de cultos idolátricos que ameaçavam corrromper Israel. A destruição não era simplesmente etnicismo ou imperialismo; era uma declaração de que o espaço sagrado pertencia exclusivamente ao Senhor. Ainda assim, o próprio cânon bíblico demonstra que essas ordens nunca foram plenamente cumpridas — o que gerou consequências dramáticas para Israel nos séculos seguintes.
O texto de Josué 2 e 6 é particularmente significativo nesse aspecto: Raabe, a prostituta cananeia de Jericó, não apenas é poupada, mas integrada à comunidade de Israel e, segundo a genealogia de Mateus 1.5, inserida na linhagem messiânica. A narrativa aponta para uma conquista mais nuançada do que o esquema rígido do herem poderia sugerir: há espaço para a fé e para a adesão ao Deus de Israel mesmo entre os povos da terra.
Conclusão
Nesta aula, exploramos os principais modelos acadêmicos de explicação para o estabelecimento de Israel em Canaã: a conquista militar, a infiltração pacífica e a revolução social. Verificamos que os dados arqueológicos apresentam uma realidade mais complexa do que qualquer um desses modelos, isoladamente, consegue capturar. Concluímos que a narrativa bíblica de Josué é um testemunho teológico de primeira ordem, que deve ser lido em seu próprio registro literário e hermenêutico — não como uma reportagem factual, mas como uma confissão de fé no Deus que age na história de seu povo. O desafio do estudante de teologia é articular, com rigor e reverência, o diálogo entre a fé e a história.
Josué e a teologia da Terra: fidelidade e herança
Nenhuma categoria teológica é mais central ao livro de Josué — e ao Antigo Testamento como um todo — do que a da terra. Desde a promessa feita a Abrão em Gênesis 12.1 (“Sai da tua terra, da tua parentela e da casa de teu pai, e vai para a terra que eu te mostrarei”), a terra funciona como o elo material da aliança entre YHWH e seu povo. O livro de Josué representa, nessa trajetória narrativa, o momento do cumprimento da promessa — e, por isso mesmo, constitui uma das afirmações mais densas da teologia veterotestamentária sobre a fidelidade de Deus.
Walter Brueggemann, um dos mais importantes teólogos veterotestamentários do século XX, argumentou que a terra não é apenas um dado geográfico ou político na Bíblia, mas uma categoria hermenêutica fundamental: ela é o símbolo da plenitude da aliança, o lugar onde a promessa de Deus se torna tangível. O livro de Josué desenvolve essa teologia de forma elaborada, articulando-a em torno de dois eixos principais: a fidelidade de YHWH e a fidelidade de Israel.
A Estrutura Teológica do Livro de Josué
O livro de Josué, conforme analisado pela tradição da história deuteronomista, apresenta uma estrutura teológica claramente articulada. O prólogo (Josué 1.1-9) estabelece os termos da teologia: o sucesso de Josué e de Israel dependia inteiramente de sua fidelidade à Torá de Moisés. “Não se aparte da tua boca o livro desta lei; antes, medita nele dia e noite, para que guardes e faças tudo quanto nele está escrito; porque então prosperarás no teu caminho e serás bem-sucedido” (Josué 1.8). A bênção e a prosperidade são condicionadas à obediência — esta é a lógica covenantal que perpassa todo o livro.
Essa estrutura condicional, característica da teologia deuteronomista, não é um legalismo árido; ela reflete a compreensão bíblica de que a aliança é uma relação pessoal e dinâmica. A terra não é um direito adquirido pela superioridade étnica ou militar de Israel; ela é um dom gratuito de YHWH que exige uma resposta de fidelidade. Waltke (2010, p. 551) observa que “a terra é concedida como herança, não conquistada como troféu” — o vocabulário da herança (nahalah) é constante no livro de Josué e articula uma relação familiar entre o Senhor e seu povo.
O Vocabulário da Herança (Nahalah)
O termo hebraico nahalah, normalmente traduzido como “herança” ou “porção hereditária”, aparece mais de sessenta vezes no livro de Josué e constitui o núcleo do seu vocabulário teológico sobre a terra. Na cultura do antigo Oriente Próximo, a herança era o bem mais precioso de uma família — ela garantia continuidade, identidade e segurança para as gerações futuras. Ao utilizar esse termo, a narrativa de Josué está afirmando que a relação de Israel com a terra não é a de um conquistador com seu saque, mas a de um filho com a herança paterna.
YHWH é, nesse quadro teológico, o grande proprietário da terra: “O Senhor é a minha porção e o meu cálice; tu sustentas a minha sorte. As linhas me caíram em lugares agradáveis; sim, a herança que me coube é excelente” (Sslmo 16.5-6). Os sacerdotes e levitas não receberam porção territorial em Israel precisamente porque YHWH era a sua herança (Josué 13.33; Números 18.20). Paradoxalmente, os que mais se dedicavam ao serviço de Deus eram os que menos possuíam em termos materiais — mas eram os mais ricos em termos da comunhão com o Senhor.
Walton (2010, p. 147) situa essa teologia no contexto mais amplo do Antigo Oriente Próximo: em contraste com as concepções de propriedade das nações vizinhas, onde a terra pertencia ao rei como extensão de seu domínio divino, a teologia bíblica sustenta que a terra pertence a YHWH e é distribuída a Israel como favor e responsabilidade. A expressão “a terra é minha, pois vós sois forasteiros e hóspedes comigo” (Levítico 25.23) sintetiza essa perspectiva.
A Fidelidade de YHWH: O Cumprimento da Promessa
O livro de Josué é, antes de tudo, um livro sobre a fidelidade de Deus. A narrativa é moldada pela tensão entre o “ainda não” da promessa não cumprida e o “já sim” de seu cumprimento. Essa tensão escatológica — que ecoa ao longo de toda a Bíblia — encontra em Josué um de seus momentos de resolução mais dramáticos.
O texto de Josué 21.43-45, já mencionado na aula anterior, merece atenção detalhada: “Assim o Senhor deu a Israel toda a terra que havia jurado dar a seus antepassados; e eles a possuíram e habitaram nela. O Senhor lhes deu descanso em redor, conforme tudo o que havia jurado a seus antepassados; nenhum de seus inimigos resistiu a eles, pois o Senhor entregou todos os seus inimigos nas suas mãos. De todas as boas promessas que o Senhor havia feito à casa de Israel, nenhuma falhou; tudo se cumpriu.” A tríplice afirmação — “toda a terra”, “descanso em redor”, “nenhuma promessa falhou” — tem caráter confessional, não meramente informativo. É uma doxologia à fidelidade de YHWH.
Lasor, Hubbard e Bush (1999, p. 191) comentam que essa passagem deve ser lida em paralelo com o discurso de despedida de Josué em Josué 23, onde o velho líder exorta Israel a permanecer fiel, sob pena de perder a terra que recebera. A promessa cumprida é, ao mesmo tempo, uma advertência: a posse da terra não é irrevogável. Ela depende da fidelidade continuada de Israel à aliança com YHWH.
Josué como Tipo Cristológico
A tradição hermenêutica cristã, desde os Padres da Igreja, leu Josué como um tipo — uma prefiguração — de Jesus Cristo. O próprio nome Josué (Yehoshua, “YHWH é salvação”) é o equivalente hebraico do grego Iesous (Jesus). Essa conexão etimológica não é acidental; ela foi explorada pelos autores do Novo Testamento e pela tradição patrística como um sinal da continuidade entre os dois testamentos.
Assim como Josué conduziu Israel através do Jordão para a terra prometida, Jesus conduz sua ekklesia através das águas do batismo para a nova criação. A travessia do Jordão em Josué 3–4, com suas doze pedras memoriais, ecoa os doze discípulos de Jesus e aponta para a nova aliança. Hebreus 4.8-9 faz essa conexão explícita: “Porque, se Josué lhes houvera dado o descanso, depois disso não se falaria de outro dia. Por conseguinte, resta um descanso para o povo de Deus.” O “descanso” que Josué proporcionou em Canaã era apenas uma sombra do descanso escatológico que Jesus oferece.
Essa leitura tipológica não invalida o sentido histórico e teológico original do livro de Josué; ela o aprofunda, revelando que o projeto de Deus com Israel sempre teve dimensões que ultrapassavam as fronteiras geográficas e históricas de Canaã. A terra é real, mas é também símbolo de uma realidade mais ampla: a habitação de Deus com seu povo, que encontrará sua consumação no novo céu e na nova terra de Apocalipse 21–22.
A Distribuição da Terra: Justiça e Comunidade
Os capítulos 13 a 21 de Josué — frequentemente ignorados em leituras devocionais por seu caráter técnico-geográfico — têm profunda significação teológica. A distribuição da terra entre as doze tribos, realizada mediante sorteio diante do Senhor (Josué 14.2), é um ato de liturgia e de justiça social. O sorteio (goral) indica que a distribuição não dependia de poder político ou de mérito militar; era uma decisão divina, soberana e imparcial.
Calebe, o fiel espião que, junto com Josué, havia sustentado a fé do povo quarenta anos antes (Números 13–14), recebe sua porção em Hebrom como recompensa de sua fidelidade (Josué 14.6-14). Seu discurso é um dos mais belos textos sobre a persistência da fé: “Ainda estou tão forte hoje como no dia em que Moisés me enviou; qual era a minha força então, tal é a minha força agora” (Josué 14.11). Aos oitenta e cinco anos, Calebe pede um terreno montanhoso — precisamente o mais difícil —, confiando que YHWH estaria com ele para expulsar os anaquins.
O episódio das filhas de Zelofequede (Josué 17.3-6; cf. Números 27.1-11) demonstra que a teologia da herança incluía uma dimensão de equidade: mulheres cujo pai havia morrido sem filhos homens tinham direito à sua porção, um reconhecimento surpreendente dos direitos femininos no contexto do antigo Oriente Próximo.
As Cidades de Refúgio: A Herança como Espaço de Graça
A instituição das cidades de refúgio (Josué 20), ordenada desde o tempo de Moisés (Números 35; Deuteronômio 19), constitui um aspecto notável da teologia da terra em Josué. Seis cidades — Quedes, Siquém, Hebrom, Bezer, Ramote e Golã — eram designadas como espaços de proteção para quem houvesse matado alguém involuntariamente. A lógica das cidades de refúgio é teológica: a terra não podia ser maculada pelo sangue derramado (Números 35.33), mas a justiça de Deus também não se confundia com vingança irrestrita. A pessoa que se refugiava nessas cidades recebia um julgamento justo e proteção até a morte do sumo sacerdote, quando podia retornar à sua comunidade. A morte do sumo sacerdote funciona, nesse contexto, como tipo da morte expiatória que liberta os cativos — um símbolo precioso que a carta aos Hebreus desenvolverá em relação ao sacerdócio de Cristo.
Donner (2011a, p. 163) observa que as cidades de refúgio revelam uma preocupação com o equilíbrio entre justiça e misericórdia que é característica da legislação iahvista em contraste com os códigos legais dos povos vizinhos.
O Discurso de Despedida de Josué: Escolha e Aliança
O livro de Josué se encerra com um dos textos mais poderosos do Antigo Testamento: o discurso de despedida de Josué em Siquém (Josué 24). Esse texto, que muitos estudiosos identificam como a renovação da aliança covenantal em Canaã, apresenta a teologia da terra em sua forma mais dramática.
Josué recapitula a história da salvação desde Abrão até a conquista (Josué 24.2-13), enfatizando que em cada etapa foi YHWH, e não Israel, o verdadeiro agente da história: “Eu vos dei uma terra pela qual não trabalhaste e cidades que não edificastes” (Josué 24.13). A resposta esperada a essa graça não é orgulho, mas gratidão e fidelidade. O clímax do discurso é a convocação à escolha: “Escolhei hoje a quem servireis” (Josué 24.15). A declaração de Josué — “Quanto a mim e à minha casa, serviremos ao Senhor” — tornou-se uma das confissões de fé mais citadas de toda a Bíblia. Ela sintetiza a teologia da terra: a herança recebida implica uma responsabilidade aliançal. O povo que escolhe YHWH também está escolhendo permanecer na terra; o povo que abandona YHWH por outros deuses perderá sua herança. Essa lógica será confirmada tragicamente na história que os livros de Juízes, Samuel e Reis narrarão.
Conclusão
Nesta aula, examinamos a rica teologia da terra desenvolvida no livro de Josué. Compreendemos que a terra, em sua dimensão bíblica, é muito mais do que um território geográfico: ela é o símbolo material da aliança, o espaço da fidelidade de YHWH e o lugar onde Israel é chamado a viver a sua vocação aliançal. O vocabulário da herança (nahalah), a lógica da distribuição justa, as cidades de refúgio e o discurso de Josué em Siquém convergem para uma única afirmação: a fidelidade de Deus é perfeita, e a resposta adequada é a fidelidade total do povo à aliança. A terra é dom que exige resposta.
Conteúdo Bônus
- Indicação de Leitura (Perspectiva Maximalista / Defesa da Confiabilidade)
Obra: Livro On the Reliability of the Old Testament, escrito pelo egiptólogo K. A. Kitchen. Por que explorar este material? Kenneth Kitchen foi um dos maiores egiptólogos e estudiosos do Antigo Oriente Próximo do mundo. Nesta obra monumental, ele faz uma defesa acadêmica robusta da historicidade do Antigo Testamento, rebatendo diretamente as teses minimalistas de autores como Finkelstein. No que tange à conquista de Canaã, Kitchen contextualiza o livro de Josué dentro dos padrões literários dos relatórios militares do segundo milênio a.C. Ele argumenta que a ausência de evidências de destruição em algumas cidades não invalida o texto, pois a própria Bíblia relata que os israelitas assumiram muitas cidades intactas para habitá-las (Js 24.13), destruindo e queimando apenas centros estratégicos específicos, como Jericó, Ai e Hazor.
- Indicação de Leitura (Historiografia e Epistemologia)
Obra: Livro Uma História Bíblica de Israel (Título original: A Biblical History of Israel), de Iain Provan, V. Philips Long e Tremper Longman III (Editora Vida Nova). Por que explorar este material? Esta é uma leitura essencial para entender como a história é escrita. Os autores dedicam a primeira parte do livro para questionar o ceticismo exacerbado da academia moderna, argumentando que o texto bíblico deve ser tratado como uma testemunha histórica primária e confiável. Ao chegarem no período de Josué e da conquista, eles harmonizam inteligentemente os dados arqueológicos com uma leitura atenta do texto hebraico, demonstrando que a narrativa bíblica, quando compreendida em seu próprio contexto literário e cultural, é perfeitamente plausível e historicamente sustentável.
Referência Bibliográfica
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DONNER, Herbert. História de Israel e dos povos vizinhos: da época da divisão do reino até Alexandre Magno. 5. ed. São Leopoldo: Sinodal/EST, 2011. v. 2.
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NAKANOSE, S. et al. Uma história de Israel: leitura crítica da Bíblia e arqueologia. São Paulo: Paulus, 2011.
PEETZ, Melanie. O Israel bíblico: história, arqueologia, geografia. Petrópolis: Vozes, 2016.
SKA, Jean-Louis. Antigo Testamento, 1: introdução. São Paulo: Loyola, 2017.
SKA, Jean-Louis. Antigo Testamento, 2: temas e leituras. São Paulo: Loyola, 2017.
SKA, Jean-Louis. O canteiro do Pentateuco: problemas de composição e de interpretação: aspectos literários e teológicos. São Paulo: Paulus, 2016.
WALTKE, Bruce K. Teologia do Antigo Testamento: uma abordagem exegética, canônica e temática. São Paulo: Vida Nova, 2010.
WALTON, John H. O pensamento do Antigo Oriente Próximo e o Antigo Testamento: introdução ao mundo conceitual da Bíblia hebraica. São Paulo: Vida Nova, 2010.
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