sábado, 7 de maio de 2016

"Daniel e a Soberania de Deus nas Nações"



          Vivendo em integridade em contextos hostis

          O livro de Daniel é um dos textos mais fascinantes e mais debatidos de todo o cânon bíblico. Escrito em duas línguas, hebraico (Daniel 1:1-2:4a e 8-12) e aramaico (Daniel 2:4b-7:28), e pertencente a dois gêneros literários distintos, o romance de corte (Daniel 1-6) e o apocalipse (Daniel 7-12), ele desafia categorias simples e exige do intérprete atenção tanto à forma literária quanto ao conteúdo teológico.

          A questão da data de composição do livro de Daniel é um dos debates mais acalorados da crítica bíblica. A posição tradicional, sustentada por muitos teólogos conservadores, data o livro do período babilônico e persa (século VI a.C.), atribuindo-o ao próprio Daniel. A maioria dos estudiosos acadêmicos contemporâneos, no entanto, argumenta que o livro foi composto na sua forma final durante a perseguição de Antíoco IV Epífanes (167-164 a.C.), usando o cenário histórico da corte babilônica como enquadramento literário de uma mensagem dirigida à comunidade judaica sob opressão helenista. Para os propósitos desta disciplina, o mais importante não é resolver esse debate, mas compreender a mensagem teológica do livro em qualquer um dos contextos históricos considerados.

          Independentemente da data de composição, o livro de Daniel proclama uma mensagem que transcende qualquer contexto histórico específico: o Deus de Israel é soberano sobre todos os impérios humanos, e seu povo pode manter a integridade mesmo nos ambientes mais hostis. Essa mensagem era pertinente na Babilônia do século VI, na Judeia helenizada do século II e permanece pertinente em qualquer contexto de pressão cultural sobre a comunidade de fé.

         Daniel na corte

          Os capítulos 1 a 6 do livro de Daniel narram as experiências de Daniel e de seus três companheiros (Hananias, Misael e Azarias, rebatizados com nomes babilônicos como Sadraque, Mesaque e Abede-Nego) na corte de Nabucodonosor e de seus sucessores. Cada episódio é uma variação sobre o mesmo tema central: a fidelidade ao Deus de Israel em conflito com as exigências de conformidade cultural e religiosa do império.

          O episódio inaugural (Daniel 1) estabelece o paradigma. Daniel e seus companheiros se recusam a comer a comida da mesa real (provavelmente por razões de pureza ritual relacionadas à lei alimentar judaica) e propõem um teste de dez dias com uma dieta alternativa de legumes e água. O resultado do teste é que eles aparecem mais saudáveis do que os que comeram a comida real, e Deus lhes concede sabedoria e entendimento que os destaca entre todos os sábios da Babilônia.

          A estratégia de Daniel no capítulo 1 é pedagogicamente rica. Ele não desafia frontalmente o sistema da corte babilônica, nem aceita passivamente todas as suas exigências. Ele encontra um espaço de negociação que permite manter a integridade religiosa sem criar um confronto desnecessário. A corte babilônica era um ambiente de intenso intercâmbio cultural e intelectual, e a integração de especialistas estrangeiros era comum. Daniel usa esse espaço de abertura para se posicionar como um membro valioso da corte sem comprometer suas convicções fundamentais.

          Esse modelo de engajamento (nem assimilação irrestrita nem rejeição hostil da cultura circundante, mas discernimento criterioso sobre o que pode ser aceito e o que deve ser recusado) é um dos legados mais práticos do livro de Daniel para a teologia contemporânea da missão e da inculturação. Daniel não demoniza a Babilônia, mas ele nela vive, nela serve e nela testemunha. Ele mantém uma fronteira clara em relação às exigências que contradizem sua aliança com YHWH.

          A Fornalha ardente

          O episódio da fornalha ardente (Daniel 3) é um dos mais dramáticos e teologicamente carregados de toda a narrativa bíblica. Nabucodonosor erige uma imagem de ouro de sessenta côvados de altura e exige que todos os habitantes de seu império se prostrem diante dela ao som dos instrumentos musicais. Sadraque, Mesaque e Abede-Nego se recusam e são denunciados ao rei por inimigos políticos que aproveitam a ocasião para eliminá-los.

          A resposta dos três jovens ao ultimato real é um dos textos mais admiráveis da literatura de resistência religiosa de toda a Bíblia: “Eis que o nosso Deus, a quem servimos, pode livrar-nos da fornalha de fogo ardente; e há de nos livrar da tua mão, ó rei. E, se não, fica sabendo, ó rei, que não serviremos aos teus deuses, nem adoraremos a estátua de ouro que erigiste” (Daniel 3:17-18).

          A estrutura dessa resposta é teologicamente precisa e exige atenção. Ela não é uma confissão de certeza quanto ao milagre (“Deus certamente nos livrará”). É uma confissão de confiança soberana combinada com uma recusa incondicional: “Deus pode nos livrar. Se ele o fizer, bem. Se não, a resposta é a mesma – não adoraremos a estátua.” A fidelidade não está condicionada ao resultado. Esse “e se não” (Daniel 3.18) é um dos momentos de mais pura integridade de fé de toda a Bíblia: a obediência que não depende da proteção milagrosa.

          O “e se não” de Daniel 3:18 é a resposta do livro de Daniel ao problema que o livro de Jó também enfrenta: e se Deus não vier em nosso socorro nesta vida? A resposta não é apostasia nem desesperança.

          É fidelidade incondicional fundada no caráter de Deus, não nos resultados de sua intervenção. Essa é a fé madura que não depende das circunstâncias para se sustentar.

          O resultado do episódio confirma a confiança dos três jovens. Eles são lançados na fornalha, mas YHWH os protege. Nabucodonosor vê uma quarta figura na fornalha, “semelhante ao Filho dos deuses” (Daniel 3:25). Essa figura misteriosa (que a tradição cristã identificará com uma cristofania, uma aparição pré-encarnada de Cristo) aponta para a presença de Deus no sofrimento de seu povo fiel: YHWH não remove a fornalha, mas entra nela com os seus.

          A cova dos leões

          O episódio da cova dos leões (Daniel 6) é o paralelo persa do episódio da fornalha babilônica, e seu foco é a prática da oração como ato de resistência religiosa. Daniel, agora um alto funcionário do Império Persa sob Dario, o Medo, é alvo de uma conspiração política. Seus inimigos manipulam o rei para que emita um decreto proibindo orações a qualquer deus ou homem que não seja o próprio rei por trinta dias, sabendo que Daniel não cumprirá tal decreto.

          A resposta de Daniel ao decreto é emblemática: “Quando Daniel soube que o decreto fora assinado, foi para casa; e, tendo as janelas do seu quarto superior abertas na direção de Jerusalém, ajoelhava-se três vezes por dia, e orava e dava graças diante do seu Deus, como dantes havia feito” (Daniel 6:10). O detalhe das janelas abertas em direção a Jerusalém é teologicamente significativo. É a prática prescrita implicitamente pela oração de Salomão em I Rs 8:48, que orientava os exilados a orarem voltados para Jerusalém. Daniel não apenas ora. Ele ora publicamente, visivelmente, num ato de identidade que não pode ser ocultado.

          A oração de Daniel nas janelas abertas é um ato de desobediência civil fundamentada em prioridade teológica: há uma lealdade que precede e supera a lealdade ao Estado. Daniel não é um revolucionário nem um agitador. Ele é um funcionário fiel ao Estado em tudo o que não contradiz sua aliança com YHWH. Mas quando o Estado exige o que pertence somente a Deus (a adoração exclusiva) Daniel recusa, não com palavras de protesto, mas com o ato silencioso e persistente da oração.

          A proteção de Daniel na cova dos leões e a confissão do rei Dario que se segue (Daniel 6:26-27) repetem o padrão do episódio da fornalha. O Deus de Israel vincula-se pela fidelidade de seu servo e demonstra sua soberania diante dos poderes imperiais. A teologia da soberania divina sobre as nações, que é o tema central dos capítulos 1 a 6, é dramaticamente ilustrada em cada um desses episódios.

          Implicações para a teologia da cultura e da missão

          Os capítulos narrativos de Daniel oferecem um modelo para a vida cristã em contextos de pressão cultural e religiosa que permanece profundamente relevante. Daniel e seus companheiros demonstram que é possível servir eficientemente em estruturas de poder pagão sem comprometer a identidade. Que a fidelidade a Deus e o serviço ao Estado não são necessariamente incompatíveis, até o ponto em que o Estado exige o que pertence exclusivamente a Deus. Que o testemunho mais eficaz numa cultura dominante não é necessariamente o confronto retórico, mas a excelência do serviço e a integridade visível da vida.

          A tensão que Daniel vive, integrado na corte imperial mas nunca assimilado por ela em seus compromissos fundamentais, é a tensão que Paulo descreverá em Romanos 12:2: “Não vos conformeis com este século, mas transformai-vos pela renovação do vosso entendimento.” O modelo danieliano de engajamento discernente com a cultura é, na perspectiva da teologia bíblica, o único caminho que evita os dois extremos igualmente disfuncionais: o isolacionismo sectário e a assimilação sincretista.

          Conclusão

          Nesta aula, examinamos os capítulos narrativos do livro de Daniel como um manual teológico de fidelidade em contextos hostis. A recusa da comida real, a confissão diante da fornalha, a oração nas janelas abertas. Cada episódio ilustra um aspecto diferente da mesma convicção central: YHWH é soberano sobre os impérios, e seu povo pode manter a integridade em qualquer ambiente, não por isolamento do mundo, mas por discernimento fiel sobre o que pode ser dado ao Cesar e o que pertence exclusivamente a Deus.

          Escatologia e o Reino que não terá fim

          A segunda metade do livro de Daniel (Daniel 7-12) pertence ao gênero literário do apocalipse (um tipo de literatura que floresce nas comunidades judaicas a partir do século IV a.C. e que se caracteriza pela revelação de realidades ocultas) especialmente sobre o futuro escatológico através de visões simbólicas comunicadas a um receptor humano pela mediação de um ser angélico. O apocalipse bíblico partilha características formais com a literatura apocalíptica mais ampla do período do Segundo Templo (1 Enoque, 4 Esdras, Apocalipse de Baruque), mas se distingue pela centralidade da soberania de YHWH sobre a história e pela esperança num Reino que transcende e supera todos os reinos humanos.

          A linguagem do apocalipse é deliberadamente simbólica e polissêmica. Os impérios são representados por animais híbridos (leão com asas de águia, urso, leopardo com quatro asas, besta com dez chifres), os poderes celestes por figuras angélicas, e o Rei escatológico por uma figura humana (o Filho do Homem). Essa linguagem simbólica não é evasão da realidade histórica. É uma forma de falar sobre a realidade histórica a partir de uma perspectiva que a transcende. É a perspectiva do Deus que vê o fim desde o início.

          O intérprete do apocalipse precisa resistir a duas tentações igualmente problemáticas: a de decifrar o simbolismo com uma correspondência mecânica um-a-um com eventos históricos específicos, e a de reduzir o texto a uma alegoria sem referência histórica. O caminho mais fecundo é o de reconhecer que o apocalipse descreve realidades históricas reais através de um código simbólico que serve ao propósito teológico de revelar o significado último (não apenas os fatos) dessas realidades.

          A estátua de ouro e a pedra

          Antes de examinar as visões de Daniel 7 a 12, é necessário atentar ao texto paralelo de Daniel 2, que é a interpretação do sonho de Nabucodonosor sobre a estátua de metais progressivamente inferiores. A estátua tem cabeça de ouro, peito e braços de prata, ventre e coxas de bronze, pernas de ferro e pés de ferro misturado com barro. Uma pedra cortada sem mãos golpeia os pés da estátua, toda ela se desfaz em pó, e a pedra cresce até se tornar um grande monte que enche toda a terra (Daniel 2:31-35).

          A interpretação de Daniel é de uma clareza teológica que transforma o sonho político de Nabucodonosor numa visão da história universal sob a soberania de Deus. Os quatro metais representam quatro impérios sucessivos (identificados pela tradição como Babilônia, Média-Pérsia, Grécia e Roma), cada um mais frágil e mais dividido do que o anterior. A pedra que destrói a estátua é o Reino de Deus (“o Deus dos céus levantará um reino que nunca jamais será destruído, e esse reino não passará a outro povo; mas esmiuçará e consumirá todos esses reinos, e ele mesmo subsistirá para sempre”, Daniel 2:44).

          Daniel 2 apresenta uma filosofia da história radicalmente diferente das ideologias imperiais do antigo Oriente Próximo, que tendiam a apresentar o império atual como o ápice permanente da história. Em Daniel, todos os impérios são provisórios e perecíveis. Cada um deles, por maior que seja, é apenas um elo de uma cadeia que terminará com o Reino de Deus, que é o único permanente. Essa visão desmistifica o absolutismo de qualquer poder humano e relativiza toda pretensão de soberania última que não seja a de YHWH.

          A visão das quatro bestas e o Filho do Homem

          O capítulo 7 de Daniel é o texto mais importante da segunda metade do livro e um dos textos mais influentes de todo o Antigo Testamento para a cristologia do Novo Testamento. Ele apresenta, em forma visionária, o mesmo conteúdo teológico de Daniel 2, mas com uma intensidade dramática e uma densidade simbólica muito maiores.
As quatro bestas que sobem do mar (um leão com asas de águia, um urso com três costelas na boca, um leopardo com quatro asas e quatro cabeças, e uma besta terrível com dez chifres e um pequeno chifre que fala arrogâncias, Daniel 7:3-8) representam os mesmos quatro impérios da estátua de Daniel 2, mas vistos agora a partir de baixo, como realidades políticas opressivas e violentas que emergem do caos (o mar é o símbolo do caos na cosmologia do antigo Oriente Próximo).

          A cena do tribunal celestial que se segue (Daniel 7:9-14) é de uma grandiosidade visionária sem paralelo no Antigo Testamento: “O Ancião de Dias tomou o seu lugar; a sua veste era branca como a neve, e o cabelo da sua cabeça como lã pura; o seu trono era de chamas de fogo, e as suas rodas, fogo ardente. Um rio de fogo corria e saía de diante dele; mil o serviam, e dez mil vezes dez mil estavam em pé diante dele; o juízo foi estabelecido, e os livros foram abertos” (Daniel 7.9-10).

          O Ancião de Dias (YHWH entronizado como juiz supremo da história) preside o julgamento das bestas. A quarta besta é morta e lançada ao fogo e as outras perdem seu poder. E então ocorre o evento central da visão: “Eis que vinha com as nuvens do céu um como o Filho do Homem, e chegou até ao Ancião de Dias, e foi apresentado diante dele. E foi-lhe dado domínio, e glória, e reino, para que os povos, nações e línguas o servissem; o seu domínio é domínio eterno, que não passará, e o seu reino jamais será destruído” (Daniel 7:13-14).

          Essa figura do Filho do Homem (bar enasha em aramaico) que recebe do Ancião de Dias um reino eterno é o texto veterotestamentário mais diretamente citado por Jesus para descrever sua própria identidade e missão. Nos evangelhos, Jesus se autodesigna como “Filho do Homem” em pelo menos oitenta e uma ocasiões. É uma frequência que não pode ser coincidência. Em Marcos 14:62, na resposta ao sumo sacerdote, a conexão é explícita: “Vós vereis o Filho do Homem assentado à direita do Poder e vindo sobre as nuvens do céu”. É uma citação direta de Daniel 7:13 combinada com o Salmo 110:1.

          A figura do bar enasha em Daniel 7 é singular no Antigo Testamento porque é, ao mesmo tempo, uma figura individual e coletiva. Ela representa tanto o Rei messiânico quanto o povo dos santos do Altíssimo que receberá o reino com ele (Daniel 7:18, 27). Essa ambiguidade é cristologicamente fecunda. Jesus, ao identificar-se com o Filho do Homem, está afirmando ser tanto o Cabeça do povo de Deus quanto aquele em quem o povo de Deus encontra sua identidade e seu destino.

    Daniel 9: a oração penitencial e as setenta semanas

          O capítulo 9 de Daniel contém dois textos de igual importância, mas de natureza muito diferente: a oração penitencial de Daniel (Daniel 9:1-19) e a visão das setenta semanas (Daniel 9:20-27). A oração penitencial é um dos mais elaborados e mais belos textos de confissão e intercessão de todo o Antigo Testamento. Daniel confessa o pecado de Israel com uma articulação teológica que abrange toda a história da aliança rompida, e intercede pela restauração de Jerusalém com uma fundamentação que repousa exclusivamente na misericórdia de Deus, não no mérito do povo.

          O versículo central da oração (Daniel 9:18-19) é uma declaração de humildade que serve como modelo de oração penitencial: “Inclina, ó meu Deus, os teus ouvidos, e ouve; abre os teus olhos, e olha para as nossas desolações, e para a cidade sobre a qual o teu nome é invocado; porque não é pelos nossos méritos que apresentamos as nossas súplicas diante de ti, mas pela tua muita misericórdia. Ó Senhor, ouve; ó Senhor, perdoa; ó Senhor, atenta e age; não te demores, por amor de ti mesmo, ó meu Deus; porque o teu nome é invocado sobre a tua cidade e sobre o teu povo.”

          A visão das setenta semanas (Daniel 9:24-27) é um dos textos proféticos mais debatidos e mais complexos de toda a Bíblia, com interpretações que variam enormemente entre as diferentes tradições cristãs. O núcleo teológico do texto, independentemente das questões hermenêuticas sobre os detalhes cronológicos, é a afirmação de que YHWH tem um plano soberano para a história. É um plano que inclui o fim do pecado, a expiação da iniquidade, a introdução da justiça eterna, o cumprimento da visão profética e a unção do Santo dos Santos. Esses seis objetivos escatológicos (Daniel 9:24) são a síntese do projeto redentor de Deus que toda a revelação profética havia anunciado.

            Daniel 12: a ressurreição dos mortos e a sabedoria dos entendidos

            O último capítulo de Daniel é também o texto mais explícito sobre a ressurreição individual dos mortos no Antigo Testamento. Em Daniel 12:2-3, lemos: “E muitos dos que dormem no pó da terra ressuscitarão, uns para a vida eterna, e outros para vergonha e confusão eterna. E os entendidos resplandecerão como o fulgor do firmamento, e os que converteram muitos à justiça, como as estrelas, para sempre.”

            Esse texto é, junto com Isaías 26:19 e a visão dos ossos secos de Ezequiel 37, um dos fundamentos veterotestamentários da doutrina da ressurreição. A distinção entre ressurreição para vida eterna e ressurreição para vergonha eterna antecipa a linguagem de João 5:28-29 e de Apocalipse 20:12-15 e aponta para uma escatologia que inclui tanto a glorificação dos justos quanto o julgamento dos ímpios.

          A promessa de que “os entendidos resplandecerão como o fulgor do firmamento” conecta a sabedoria espiritual com a glória escatológica: aqueles que compreenderam os propósitos de Deus na história, que leram os sinais dos tempos à luz da revelação, e que “converteram muitos à justiça” através de sua fidelidade e seu testemunho, serão transformados em participantes da glória de YHWH. Essa promessa ecoa Mateus 13:43 (“então os justos resplandecerão como o sol no reino de seu Pai”) e antecipa a teologia paulina da glorificação em Romanos 8:18-21.

          Daniel 12 representa o ponto mais avançado da revelação veterotestamentária sobre a vida depois da morte. Até esse ponto, a esperança bíblica era predominantemente coletiva e desta-mundana: a restauração do povo na terra. Em Daniel 12, a esperança individual e ultra-mundana emerge com clareza. Há um futuro para o indivíduo além da morte, um futuro diferenciado pela fidelidade ou infidelidade na vida presente.

          O Reino que não terá fim

          O tema que atravessa todo o livro de Daniel (dos episódios narrativos às visões apocalípticas) é a soberania de Deus sobre a história humana e a realidade de um Reino que transcende e supera todos os reinos humanos. Essa soberania não é abstrata ou distante, mas ela é operativa no cotidiano do exilado que mantém sua dieta, do jovem que recusa prostrar-se diante da estátua, do funcionário que ora com as janelas abertas. E ela se manifestará definitivamente no dia em que o Filho do Homem receberá do Ancião de Dias um domínio eterno sobre todas as nações.

       Daniel ensina à sua comunidade (e a todas as comunidades de fé que vivem sob pressão imperial) que a história não pertence aos faraós, nem aos Nabucodonosores, nem aos Antioco Epífanes, nem a nenhum outro poder que exija para si a adoração que pertence somente a Deus. A história pertence ao Ancião de Dias e ao Filho do Homem que Ele envia. Essa convicção não é uma evasão da realidade política. É o fundamento que permite ao crente engajar-se com a realidade política sem ser por ela consumido.

          O livro de Daniel fecha o cânon veterotestamentário dos profetas com uma visão de esperança que se tornará o DNA do pensamento escatológico do Novo Testamento. O Reino que não terá fim, inaugurado na encarnação e ressurreição de Jesus e consumado na sua parousia, é o horizonte que dá sentido a toda a fidelidade presente, a todo sofrimento pelos justos e a toda esperança de que o mal (por mais poderoso que pareça) não terá a última palavra na história que o Ancião de Dias governa.

          Conclusão

          Nesta aula, percorremos as grandes visões apocalípticas do livro de Daniel: a estátua de metais e a pedra que enche a terra (Daniel 2), as quatro bestas e o Filho do Homem (Daniel 7), a oração penitencial e as setenta semanas (Daniel 9) e a promessa da ressurreição dos mortos (Daniel 12). Compreendemos que o apocalipse danieliano não é especulação sobre eventos futuros distorcida do presente. Ele é a fundamentação teológica da fidelidade presente: quem conhece o fim da história pode viver o presente com uma liberdade e uma coragem que o poder imperial não pode produzir nem destruir. O Reino que não terá fim é o fundamento sobre o qual toda a integridade covenantal se apoia e é a esperança que sustenta a comunidade de fé em qualquer contexto de pressão, perseguição ou exílio.

          Conteúdo Bônus

          - Indicação de Pesquisa Histórica (O Debate da Datação e o Período Helenista)
          Tema para pesquisa: A Revolta dos Macabeus e a perseguição sob Antíoco IV Epífanes (167–164 a.C.).
          Por que explorar este material? O material de apoio menciona a teoria majoritária da academia contemporânea sobre a composição do livro. Para avaliar esse argumento criticamente, é fundamental entender o que estava acontecendo em Judá no século II a.C. Busque em enciclopédias teológicas ou livros de História do Período Intertestamentário sobre as ações de Antíoco Epífanes: a proibição da circuncisão, a queima de cópias da Torá e a abominação desoladora no Templo. Compreender a dimensão dessa crise ajudará você a ler as visões dos capítulos 7 a 12 exatamente como a academia crítica as lê: como um manifesto de consolo para mártires judeus que enfrentavam o imperialismo grego.

          - Indicação de Recurso Audiovisual (Mapeamento Literário e Linguístico)
          Obra: Vídeo “Visão Geral: Daniel” do canal BibleProject - Português (Disponível no YouTube e no site oficial).
          Por que explorar este material? A aula destaca a genialidade linguística do livro: ele começa em hebraico, muda para o aramaico (língua diplomática do império) e depois volta para o hebraico. A animação gráfica do BibleProject demonstra visualmente por que isso acontece. O vídeo mostra que a porção em aramaico (capítulos 2 ao 7) forma um quiásmo — uma estrutura literária em formato de espelho, onde os temas das extremidades se correspondem e apontam para uma mensagem central. O visual ajudará você a amarrar o “romance de corte” à “literatura apocalíptica”, mostrando que o livro, apesar de complexo, possui um design intencional e magistral.

          Referência Bibliográfica
          BAKER, David W.; ARNOLD, Bill T. (Org.). Faces do Antigo Testamento: um exame das pesquisas mais recentes. Rio de Janeiro: CPAD, 2007.
          DONNER, Herbert. História de Israel e dos povos vizinhos: dos primórdios até a formação do estado. 6. ed. São Leopoldo: Sinodal/EST, 2011. v. 1.
          DONNER, Herbert. História de Israel e dos povos vizinhos: da época da divisão do reino até Alexandre Magno. 5. ed. São Leopoldo: Sinodal/EST, 2011. v. 2.
          LASOR, William Sanford; HUBBARD, David Allan; BUSH, Frederic Wm. Introdução ao Antigo Testamento. 2. ed. São Paulo: Vida Nova, 1999.
          NAKANOSE, S. et al. Uma história de Israel: leitura crítica da Bíblia e arqueologia. São Paulo: Paulus, 2011.
          PEETZ, Melanie. O Israel bíblico: história, arqueologia, geografia. Petrópolis: Vozes, 2016.
          SKA, Jean-Louis. Antigo Testamento, 1: introdução. São Paulo: Loyola, 2017.
          SKA, Jean-Louis. Antigo Testamento, 2: temas e leituras. São Paulo: Loyola, 2017.
          SKA, Jean-Louis. O canteiro do Pentateuco: problemas de composição e de interpretação: aspectos literários e teológicos. São Paulo: Paulus, 2016.
          WALTKE, Bruce K. Teologia do Antigo Testamento: uma abordagem exegética, canônica e temática. São Paulo: Vida Nova, 2010.
          WALTON, John H. O pensamento do Antigo Oriente Próximo e o Antigo Testamento: introdução ao mundo conceitual da Bíblia hebraica. São Paulo: Vida Nova, 2010.
          WALTON, John H.; MATTHEWS, Victor H.; CHAVALAS, Mark W. Comentário histórico-cultural da Bíblia: Antigo Testamento. Belo Horizonte: Editora Vida, 2003.

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