Amós:
O clamor pela justiça social nas esferas públicas
Amós profetizou durante os reinados de Uzias em Judá e de Jeroboão II em Israel, dois anos antes do terremoto (Amós 1.1). Essa era uma referência cronológica que os contemporâneos identificariam imediatamente, pois esse terremoto havia sido de tal magnitude que seria lembrado séculos depois pelo profeta Zacarias (Zacarias 14.5). O período de Jeroboão II (c. 786–746 a.C.) representou o ápice da prosperidade material do reino do norte: as fronteiras foram expandidas, o comércio floresceu, a arquitetura monumental se desenvolveu em Samaria e a vida religiosa dos santuários conheceu um fervor de aparências. Era, em suma, o tipo de época em que o sucesso material é confundido com bênção divina e em que ninguém quer ouvir palavras de julgamento.
É precisamente nesse contexto de prosperidade ilusória que YHWH envia Amós, um pastor e cultivador de sicômoros de Tecoa, uma aldeia no deserto de Judá, ao coração do reino do norte para proclamar uma mensagem que ninguém queria ouvir. O esplendor de Israel escondia uma injustiça sistêmica que YHWH não toleraria indefinidamente. A missão de Amós é um caso exemplar de como Deus age de forma contraintuitiva. Ele escolhe um homem de fora, de baixo status social, sem credencial profissional, para confrontar a aristocracia de um reino no apogeu de seu poder.
A prosperidade de Jeroboão II foi conquistada às custas de uma concentração crescente de riqueza nas mãos de uma elite fundiária e mercantil, enquanto os camponeses livres perdiam progressivamente suas terras por dívidas e eram reduzidos à condição de trabalhadores dependentes ou escravos. O sistema econômico que Amós denuncia não era uma aberração ocasional, mas a estrutura normal de uma sociedade que havia substituído os valores da igualdade tribal pelo modelo das cidades-estados cananéias que Israel havia derrotado mas não transformado.
A estrutura retórica do livro de Amós
O livro de Amós abre com uma sequência de oráculos de julgamento contra as nações vizinhas de Israel (Damasco, Gaza, Tiro, Edom, Amom, Moabe e Judá, Amós 1:3–2:5) antes de voltar sua artilharia verbal contra o próprio Israel (Amós 2:6-16). Essa estrutura retórica é uma das mais sofisticadas da literatura profética. Amós começa pelas nações que seu público israelita mais gostaria de ver julgadas, construindo um ritmo de aprovação e concordância que culmina, de forma inesperada e impactante, com o julgamento do próprio Israel.
A fórmula repetida ("Por três transgressões […] e por quatro, não voltarei atrás", Amós 1:3, 6, 9, 11, 13; 2:1, 4, 6) é um dispositivo numérico da sabedoria do antigo Oriente Próximo que indica a plenitude da culpa. O número três mais um não é aritmético, mas retórico, significando além de todo limite tolerável. Cada nação é acusada de crimes contra a humanidade (violência, escravidão, perfídia), e Israel é acusado do mesmo, com a agravante de que conhecia o Deus da justiça e ainda assim optou pela injustiça.
O ouvinte israelita que concordava entusiasticamente com os julgamentos contra os vizinhos pagãos estava, sem perceber, concordando com os critérios morais que seriam aplicados a ele mesmo. Amós usa a lógica da audiência para armadilhá-la. Quando a acusação recai sobre Israel, ela já havia aceitado os termos do tribunal.
Os crimes de Israel
A acusação central de Amós contra Israel em 2:6-8 é de uma precisão sociológica impressionante. “Assim diz o Senhor: Por três transgressões de Israel, e por quatro, não voltarei atrás; porque vendem o justo por dinheiro e o necessitado por um par de sandálias; cobiçam a cabeça dos pobres e torcem o caminho dos mansos; e o pai e o filho se deitam com a mesma moça, para profanarem o meu santo nome. Deitam-se junto a qualquer altar sobre roupas tomadas em penhor, e bebem o vinho das multas impostas na casa do seu Deus.”
Cada detalhe dessa acusação é tecnicamente preciso e juridicamente específico. A venda de o justo por dinheiro (isto é, a subversão do sistema judicial por suborno) significa que o processo legal havia se tornado um instrumento de opressão dos pobres em favor dos ricos. O par de sandálias pode ser uma referência ao símbolo legal da transferência de propriedade (cf. Rute 4:7-8). Os pobres perdiam sua terra por dívidas mínimas, um mecanismo de expropriação que destruía a base econômica das famílias israelitas.
A roupa tomada em penhor é uma referência direta à legislação de Êxodo 22:25-27 e Deuteronômio 24:12-13, que ordenava expressamente que o manto tomado em penhor de um pobre deveria ser devolvido antes do anoitecer, pois era sua única cobertura para dormir. Israel estava usando precisamente esses mantos como tapetes nos seus banquetes religiosos. Essa era uma profanação dupla: da pessoa do pobre e do santuário de YHWH.
Amós não está inventando crimes hipotéticos. Ele está descrevendo práticas que qualquer israelita do século VIII reconhecia como correntes e normalizadas. A brutalidade de sua denúncia está precisamente na normalização. O que Amós chama de crime era tratado pelos perpetradores como transação comercial legítima. A profecia desnaturaliza o que a ideologia dominante havia naturalizado.
A crítica ao culto
Um dos temas mais provocadores do livro de Amós, e um dos mais pertinentes para a teologia contemporânea, é a crítica ao culto religioso como instrumento de legitimação da injustiça. O texto de Amós 5.21-24 é um dos mais radicais de toda a Bíblia: “Odeio, rejeito as vossas festas, e não me comprazo nas vossas assembleias solenes. Se me oferecerdes holocaustos […] não os aceitarei; e as ofertas gordas de paz das vossas reses não as considerarei. Afasta de mim o ruído das tuas canções, porque não ouvirei as melodias dos teus instrumentos. Antes, corra o juízo como as águas, e a justiça como ribeiro perene.”
A força desse texto está no verbo odeio (sane). YHWH não está simplesmente indiferente ao culto de Israel. Ele o abomina, porque esse culto é exercido por mãos manchadas de injustiça e serve como cobertura para práticas que violam a essência da aliança. O contraste final ("antes, corra o juízo como as águas, e a justiça como ribeiro perene") é uma das imagens mais belas e exigentes de todo o Antigo Testamento. O que Deus quer não é mais culto, mas justiça que flua como um rio constante, não como uma enxurrada sazonal. A crítica de Amós ao culto não é antiritualismo em princípio. Ele não está dizendo que o culto é irrelevante ou dispensável. Está dizendo que o culto que não produz transformação ética é uma mentira religiosa. É uma performance que insulta o Deus que é simultaneamente santo e justo. O culto genuíno ao YHWH da aliança produz necessariamente comprometimento com os pobres, porque YHWH se comprometeu com eles desde o Êxodo.
Essa tensão entre liturgia e ética não é invenção de Amós. Ela percorre toda a tradição profética, de Samuel (“obedecer é melhor do que sacrificar”, I Samuel 15:22) a Isaías (“para que me serve a multidão dos vossos sacrifícios?”, Isaías 1:11) a Miquéias (“que oferecerei ao Senhor em holocaustos?”, Miquéias 6:6-8) a Jesus (“misericórdia quero e não sacrifício”, Mateus 9:13, citando Oséias 6:6). A preocupação de Amós com a autenticidade do culto é uma das linhas mais persistentes e coerentes de toda a revelação bíblica.
O “Dia do Senhor” em Amós
Um dos conceitos mais importantes que Amós maneja, e que marca uma virada semântica decisiva na teologia profética, é o do dia do Senhor (yom YHWH). Em Amós 5:18-20, o profeta confronta diretamente os que anseiam por esse dia: “Ai dos que desejam o dia do Senhor! Para que quereis o dia do Senhor? Ele é trevas e não luz. Como se um homem fugisse de um leão e um urso o encontrasse; e, entrando em casa e pondo a mão na parede, uma serpente o mordesse. Não será o dia do Senhor trevas e não luz, escuridão sem nenhum brilho nela?”
A ironia teológica de Amós é devastadora. O povo aguardava o dia do Senhor como um momento de triunfo nacional, um dia em que YHWH derrotaria os inimigos de Israel e estabeleceria a supremacia do seu povo. Amós inverte completamente essa expectativa. Para um povo que abandonou a aliança e oprime os pobres, o dia do Senhor não será salvação, mas julgamento. Não haverá escape: leão, urso, serpente — cada saída que se apresenta leva a um perigo pior.
Essa subversão do dia do Senhor inaugurada por Amós será desenvolvida por Joel, Sofonias e, em dimensões escatológicas, por toda a tradição apocalíptica. O dia final de YHWH não é automaticamente bom para quem o espera. Ele é bom ou terrível dependendo da relação de fidelidade ou infidelidade do povo com a aliança. A pergunta que Amós coloca às suas audiências é a mesma que a pregação evangélica coloca aos seus ouvintes: você está realmente preparado para o dia que afirma aguardar?
A esperança ao fim
O livro de Amós não termina com destruição. Os últimos versículos (Amós 9:11-15) oferecem uma visão de restauração que contrasta dramaticamente com o tom de julgamento que domina o restante do livro: “Naquele dia levantarei o tabernáculo caído de Davi, e repararei as suas brechas, e levantarei as suas ruínas, e o reedificarei como nos dias antigos.”
Esse oráculo de restauração é citado por Tiago no Concílio de Jerusalém (Atoas 15:16-17) como fundamento bíblico para a inclusão dos gentios no povo de Deus. É uma leitura que demonstra como o Novo Testamento relê as esperanças proféticas veterotestamentárias à luz do cumprimento em Cristo. A reconstrução do tabernáculo de Davi é interpretada pelos apóstolos como a reconstituição messiânica do povo de Deus que inclui todas as nações. É exatamente o horizonte universal que as últimas linhas de Amós antecipam com a visão de colheita abundante e habitação segura na terra.
A tensão entre julgamento e restauração no livro de Amós reflete uma das estruturas fundamentais do pensamento profético: o julgamento não é o propósito final de Deus, mas o caminho inevitável quando o povo recusa o chamado ao retorno. Por trás do profeta do julgamento está sempre o coração de um Deus que prefere restaurar a destruir e que preserva, mesmo no julgamento, a semente da esperança.
Conclusão
Nesta aula, examinamos o ministério e a mensagem de Amós em seu contexto histórico de prosperidade contraditória e em sua estrutura literária de armadilha retórica. Compreendemos que a denúncia profética de Amós não é moralismo abstrato, mas uma concreta teologia da aliança: Israel viola os termos da aliança ao oprimir os pobres, e o culto religioso que coexiste com essa opressão é uma ofensa, não uma oferta. A subversão do dia do Senhor revela que a fé bíblica não é um seguro de vida coletivo. Ela é uma relação de fidelidade que tem consequências reais para todos os âmbitos da vida social. A voz de Amós permanece um dos textos mais pertinentes para qualquer teologia que leve a sério a relação entre adoração e justiça.
Oseias: a dor do Deus traído e a teologia de hesed (fidelidade)
Se Amós é o profeta da justiça severa (a voz que proclama o julgamento com a frieza de um juiz), Oseias é o profeta do coração partido, aquele que revela as entranhas do sofrimento de Deus diante da infidelidade de seu povo. Contemporâneo de Amós, Oseias atuou exclusivamente no reino do norte durante um período de intensa instabilidade política (os últimos anos de Jeroboão II até pouco antes da queda de Samaria em 722 a.C.) e proclamou uma mensagem que, sob a linguagem do amor conjugal traído, contém uma das mais profundas teologias do amor de Deus de todo o Antigo Testamento.
O que torna o livro de Oseias singular no cânon profético é o fato de que a vida pessoal do profeta se torna o símbolo vivo da relação entre YHWH e Israel. O casamento de Oseias com Gomer (uma mulher que o traiu com amantes, que pode ser identificada como prostituta sagrada ou simplesmente como mulher infiel), e o retorno de Oseias a ela após a traição, constituem a parábola vivida que sustenta toda a teologia do livro. YHWH fez com Israel o que Oseias fez com Gomer: amou, foi traído, sofreu e continua amando. Oseias foi o primeiro profeta a usar de forma sistemática a metáfora do casamento para descrever a aliança entre YHWH e Israel. Essa metáfora não é decorativa. Ela é reveladora de algo sobre a natureza de Deus que nenhuma outra categoria teológica capta com a mesma intensidade. YHWH ama Israel com a vulnerabilidade e a constância de um esposo que recusa abandonar a esposa infiel.
O casamento de Oseias
O texto de Oseias 1–3 é um dos mais debatidos do Antigo Testamento em relação à sua natureza (literal ou alegórica) e ao seu significado teológico. O capítulo 1 narra em terceira pessoa o comando divino para que Oseias tome uma mulher de prostituição (eshet zenunim) e os filhos que ela concebe, cujos nomes simbólicos — Jezreel (Deus semeia/pune), Lo-Ruama (sem misericórdia) e Lo-Ami (não meu povo) — são oráculos de julgamento condensados. O capítulo 2 desenvolve a metáfora conjugal em primeira pessoa, com YHWH falando diretamente de seu relacionamento com Israel-esposa. O capítulo 3 retorna à narrativa biográfica de Oseias, que é ordenado a amar novamente uma mulher que o havia traído.
A terminologia de “prostituição” e “adultério” em Oseias não é apenas uma metáfora genérica de infidelidade religiosa. Ela aponta especificamente para as práticas do culto de fertilidade em que as israelitas participavam nos santuários de Baal, acreditando que os ritos sexuais garantiriam a fertilidade da terra. A traição de Israel não era apenas doutrinal. Ela era litúrgica. Israel buscava a fecundidade da terra nos braços de Baal em vez de recebê-la das mãos de YHWH, o seu esposo legítimo.
A restauração prometida no final de Oseias 2 é uma das passagens mais belas do Antigo Testamento: “Por isso, eis que a atrairei e a levarei ao deserto, e lhe falarei ao coração […] E ela lá cantará como nos dias de sua juventude, e como no dia em que subiu da terra do Egito. E naquele dia, diz o Senhor, tu me chamarás de Ishi [meu marido] e não mais de Baali [meu senhor]” (Oséias 2:14-16). O deserto (lugar de provação mas também de intimidade original) é o espaço onde YHWH reencontra a esposa infiel e recomeça a relação. A mudança de título, de Baali para Ishi, é mais do que semântica. Baal era também o nome do deus cananeu, e Israel havia confundido os dois títulos na sua religiosidade sincretista. A restauração implica uma clareza de identidade: quem é o verdadeiro esposo?
A teologia da hesed
O conceito central da teologia de Oseias é a hesed, uma palavra hebraica de difícil tradução que os dicionários renderam como amor leal, misericórdia, bondade ou fidelidade amorosa. A hesed não é simplesmente um sentimento, mas é um compromisso. É o amor que persiste porque há uma aliança que o sustenta, não porque as circunstâncias o favorecem. É o amor do cônjuge que permanece fiel quando o outro é infiel. É a misericórdia do pai que ainda acolhe o filho que o rejeitou.
O texto de Oseias 6:6 condensa a teologia da hesed de forma que toda a tradição bíblica posterior reconhecerá como central: “Porque misericórdia [hesed] quero e não sacrifício, e o conhecimento de Deus mais do que holocaustos.” Esse versículo, citado duas vezes por Jesus em Mateus 9:13 e 12:7, é a síntese da ética profética. O que Deus quer não é a performance religiosa externa, mas a internalização de seu caráter amoroso e fiel. O conhecimento de Deus (da’at Elohim) de que Oseias fala não é conhecimento intelectual-propositivo. É conhecimento relacional e ético, o conhecimento que transforma o comportamento porque transforma a identidade.
Em nenhum outro livro profético o vocabulário da hesed é tão central quanto em Oseias. A hesed de YHWH é o fundamento que sustenta a esperança de restauração apesar de toda a infidelidade de Israel. A ausência de hesed no povo é o diagnóstico do seu fracasso espiritual. A hesed é simultaneamente um atributo de Deus e uma exigência ética para o povo. A relação entre as duas dimensões é inseparável: Israel só pode praticar a hesed porque a recebeu de Deus.
O conhecimento de Deus como fundamento da ética
Oseias 4:1-3 é um texto de acusação que diagnostica a crise de Israel com precisão demolidora: “Ouvi a palavra do Senhor, filhos de Israel, porque o Senhor tem uma contenda com os habitantes da terra; porque não há fidelidade, nem misericórdia, nem conhecimento de Deus na terra. Só há maldizer, mentir, matar, furtar e adulterar; há violências, e um derramamento de sangue toca o outro. Por isso a terra está de luto, e todos os que habitam nela definham.”
A tríade fidelidade — misericórdia — conhecimento de Deus (emet — hesed — da’at Elohim) é a síntese positiva do que Israel deveria ser, contrastada com o catálogo de crimes que descreve o que Israel efetivamente é. E a consequência é cósmica: a ruptura da aliança humana com Deus produz desordem na própria criação (a terra está de luto, os animais perecem). Essa visão de uma criação que sofre as consequências da infidelidade humana antecipa o que Paulo desenvolverá em Romanos 8:19-22, onde a criação inteira geme esperando a restauração dos filhos de Deus.
O profeta estabelece uma conexão que será constitutiva para toda a tradição bíblica posterior: o conhecimento de Deus (a intimidade relacional com YHWH) é o fundamento de toda a ética. Sem esse conhecimento, os mandamentos se tornam regras sem raiz. Com ele, a conduta ética flui naturalmente como expressão de uma identidade formada pela aliança.
A Imagem do Pai
Se os capítulos 1–3 desenvolvem a metáfora conjugal, o capítulo 11 introduz uma segunda metáfora igualmente poderosa: a do pai e o filho. “Quando Israel era menino, eu o amei, e do Egito chamei o meu filho […] Eu ensinei Efraim a andar, tomando-o pelos braços; mas eles não souberam que eu os curava. Com cordas humanas os atraí, com ataduras de amor; fui para eles como os que tiram o jugo de sobre o pescoço deles, e me inclinei para eles, e lhes dei comida” (Oséias 11:1-4).
Esse texto é de uma ternura que não encontra paralelo em toda a literatura do antigo Oriente Próximo. A imagem do pai que ensina o filho a dar os primeiros passos (tomando-o pelos braços, inclinando-se para ele), que o alimenta e que afrouxa o jugo sobre seu pescoço é a imagem de um amor que se curva, que desce, que serve. O verbo inclinar-se (natah) usado para descrever o gesto de YHWH em relação ao filho é o mesmo usado em outros contextos para descrever a inclinação de ouvidos atentos. YHWH se abaixa ao nível do filho para ouvi-lo, sustentá-lo, alimentá-lo.
A tensão que se segue em Oséias 11:5-7 (a ameaça do julgamento diante da recusa de Israel em retornar) atinge seu clímax dramático em Oséias 11:8-9: “Como te abandonarei, ó Efraim? Como te entregarei, ó Israel? […] O meu coração está comovido dentro de mim; as minhas misericórdias se acendem juntas. Não executarei o furor da minha ira, não voltarei para destruir a Efraim; porque sou Deus e não homem, o Santo no meio de ti, e não virei com furor.” Esse monólogo interior de Deus (o único lugar em toda a Bíblia onde YHWH expõe publicamente o conflito interno entre julgamento e misericórdia) é teologicamente revolucionário. A razão pela qual YHWH não executa o julgamento completo não é a inocência de Israel, mas a santidade de Deus: “porque sou Deus e não homem.”
A santidade divina, aqui, não é a distância fria e impassível. É o excesso de amor que ultrapassa toda economia de retribuição. Deus age diferente dos homens precisamente porque ama com uma intensidade que o impede de abandonar definitivamente quem ama. Oseias 11 é um dos textos veterotestamentários mais frequentemente citados pelos teólogos do século XX em suas reflexões sobre o sofrimento de Deus. É a teologia da dor de Deus (Jürgen Moltmann, Abraham Heschel, Kazoh Kitamori). A revelação de que YHWH sofre com e por Israel (que a infidelidade do povo não o deixa indiferente, mas comovido) é uma das contribuições mais originais e mais fecundas da teologia de Oseias para o pensamento cristão.
O horizonte restaurador de Oseias
O livro de Oseias termina com um dos mais belos convites ao retorno de toda a literatura profética (Oséias 14:1-8). O chamado ao arrependimento (“Volta, ó Israel, ao Senhor, teu Deus, porque caíste pela tua iniquidade”, Oséias 14:1) é seguido por uma promessa de cura que usa linguagem de fertilidade e florescimento: “Eu sararei a sua apostasia, os amarei de graça; porque a minha ira se terá desviado deles. Serei como o orvalho para Israel; ele florescerá como o lírio, e lançará raízes como o Líbano” (Oséias 14:4-5).
A imagem do orvalho (“tão preciosa numa terra mediterrânea de verões secos”) aplicada ao amor restaurador de Deus é de uma delicadeza que contrasta com a violência das imagens de julgamento que precedem. O amor de YHWH não é apenas perdão que apaga a culpa. É cura que restaura a vitalidade, como a chuva suave que faz florescer o que estava seco. Essa visão de restauração como florescimento, não apenas como absolvição, antecipa a teologia neotestamentária da nova criação, em que a redenção não é simplesmente o retorno ao estado original, mas a transformação em algo mais glorioso.
O livro de Oseias nos deixa com uma visão de Deus que é simultaneamente a mais exigente e a mais consoladora do Antigo Testamento. Exigente, porque o Deus que ama assim não aceita a lealdade dividida nem o culto sem ética. Consoladora, porque o Deus que ama assim não desiste, não abandona, não extingue a brasa que ainda fumega. A hesed de Oseias é o fundamento sobre o qual toda a esperança bíblica se edifica.
Conclusão
Nesta aula, percorremos a teologia de Oseias em suas dimensões mais originais: a metáfora conjugal do casamento como parábola da aliança, o conceito central de hesed como amor fiel e vulnerável, o diagnóstico da ausência de conhecimento de Deus como raiz de todos os males, o monólogo interior de YHWH em Oseias 11 como revelação do Deus que sofre e que não abandona, e a visão restauradora final como florescimento e cura. Compreendemos que Oseias não é apenas um profeta do julgamento. Ele é o profeta do amor que persiste através do julgamento, o que o torna um dos elos teológicos mais importantes entre o Antigo Testamento e o coração do Evangelho neotestamentário.
Conteúdo Bônus
- Indicação de Leitura (Exegese e Aplicação)
Obra: A Mensagem de Amós: O Dia do Leão (Série A Bíblia Fala Hoje), de J. A. Motyer (Editora ABU). Por que explorar este material? Motyer é brilhante em conectar o texto antigo às realidades contemporâneas sem perder o rigor exegético. Ele explora detalhadamente o contexto de “falso avivamento” em Israel, onde os santuários de Betel e Gilgal estavam cheios, mas as praças públicas estavam repletas de suborno e opressão. A leitura desta obra ajudará você a compreender que, para os profetas bíblicos, a verdadeira adoração é indissociável da justiça social (o famoso “corra o juízo como as águas”, de Amós 5.24).
Referência Bibliográfica
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PEETZ, Melanie. O Israel bíblico: história, arqueologia, geografia. Petrópolis: Vozes, 2016.
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