terça-feira, 18 de abril de 2017

* "O papel das gentes grandes na vida cristã das crianças "


          Há uma história sobre um homem que foi a uma loja de virtudes. Ele queria comprar amor, fé, bondade, perdão. O anjo que atendia ao balcão lhe deu um pote de cada pedido. Ressentido, o homem reclamou que nada do que havia pedido estava pronto. O anjo respondeu: “Senhor, aqui só vendemos sementes”.
          Na vida de toda pessoa cristã existem sementes. Nós as recebemos de nossos pais, mães, parentes, membros da igreja, pessoas que perpassam nossa história nos trazendo um pouco de Deus.

"Trazendo à memória a fé não fingida que em ti há, 
a qual habitou primeiro em tua avó Lóide, 
e em tua mãe Eunice, 
e estou certo de que também habita em ti."
II Timóteo I: 5

          Nós as ministramos sobre nossas crianças. O processo da semeadura é a expressão bíblica para a inserção da palavra na vida de qualquer ser humano. Há até mesmo uma expressão teológica chamada “lei da semeadura”, mediante a qual só poderemos colher o que plantamos.

"Não erreis:
 Deus não se deixa escarnecer;
 porque tudo o que o homem semear,
 isso também ceifará.
Porque o que semeia na sua carne, 
da carne ceifará a corrupção;
 mas o que semeia no Espírito,
 do Espírito ceifará a vida eterna."
Gálatas 6: 7 e 8

          Quem planta amor, colhe amor. Quem planta perdão, recebe perdão e assim por diante. É claro que depende bastante da semente plantada. Mas a colheita também sofre os fatores do solo, do tempo, do cuidado do semeador (veja todas as parábolas de semeadura, como levam em conta a postura de quem semeia). Nada é garantido. Por isso, pode ser que a semente boa se perca; ou que mesmo tendo o solo bom e a semente boa, o semeador se revele um mercenário, plantando fora do tempo, descuidando da semente, sendo negligente na tarefa de inibir ervas daninhas, etc.
          Outro dia, em minha igreja, preguei sobre a fé. Fiz uma pergunta acerca dela que me parece basilar quando se pensa nisso: “Como conseguir ter fé?” Imagino que seja essa de verdade a pergunta dos discípulos quando pedem a Jesus que lhes ensine a orar.

"E aconteceu que,
 estando ele a orar num certo lugar, 
quando acabou,
 lhe disse um dos seus discípulos: 
Senhor,
 ensina-nos a orar,
 como também João ensinou aos seus discípulos."
Lucas 11: 1

          Não se trata de ter as palavras certas para falar com Deus. Trata-se, muito mais, em definir a maneira pela qual nos aproximamos dele de modo a ter o máximo possível de certeza de que Ele nos ouvirá e, eventualmente, segundo a Sua graça, nos atenderá.
          Inicialmente, abordei o fato de que a fé é ensinável. Ela é entendida na Bíblia como um processo relacional, que se aprende no seio da comunidade que celebra, na família que recorda festa e, por fim, se torna pessoal na entrega da vida a Deus. Ela começa, de algum modo, de fora para dentro, por imitação e inculcação (Deuteronômio 6 é o exemplo mais didático desse processo).
          Assim, a criança aprende a ter fé da mesma forma que aprende a andar. Não aprendemos a dar nossos primeiros passos porque acreditamos em nosso próprio potencial. Só fazemos isso porque alguém nos dá a mão, nos segura, nos envia impulsos e ritmos, nos coloca de pé. Depois, segue com palavras de incentivo, de desafio, nos chama, aplaude, grita, vibra, até que, por um impulso de agradar à voz de quem chama, colocamos os pés um à frente do outro e andamos.   Andar é um ato de fé em resposta ao amor de quem anseia por nossa autonomia e crescimento.
Mas não é só. Uma vez que aprendemos a andar e firmamos os artelhos e joelhos, então não precisamos mais de fé para isso. Somos capazes de andar por nós mesmos e não dependemos de ninguém para fazê-lo.
          Vem o desafio seguinte: andar de bicicleta. Outra vez nossa vida está nas mãos da pessoa que segura o guidão, que apoia atrás, que consola quando caímos, que insiste novamente, que pronuncia palavras de confiança enquanto tira as rodinhas, que dá beijos no joelho ralado, que dá bronca porque a gente nunca sai do lugar e depois grita porque damos três pedaladas... outra vez é um processo de fé, ainda mais duro e demorado talvez que o primeiro.
          Porque agora que crescemos, a fé encontra a barreira de mais perguntas e dúvidas, que não estavam lá da primeira  vez. E assim é por toda a vida. É o desafio de aprender a dar novos tipos de passos que vão levar nossa fé adiante. Sempre vai resultar em autonomia, mas nunca em independência, porque o estímulo para que ela cresça vem desse Deus que, como um pai e uma mãe fazem, grita palavras de incentivo, aplaude nosso crescimento, celebra cada vez que voltamos para casa e nos dá garantia de presença, conforto e abrigo.
         Dessa relação é que vêm tanto a fé quanto os demais frutos do Espírito. Todos eles são relacionais. Todos eles são, de alguma forma, perguntas e respostas trocadas na vivência com as pessoas e com o Espírito de Deus. Todos eles são sementes plantadas no solo da vida da Igreja.
Na qualidade de educadores e educadoras, nossa tarefa é a da semeadura. As sementes são os valores e princípios da palavra de Deus, que recebemos Dele em primeira mão por meio do processo de crescimento em fé que nós mesmos atravessamos. Eu sempre digo que ninguém pode dar o que não tem. Para que haja em nós a alegria dos frutos, é preciso, em primeiro lugar, que sejamos nós mesmos o resultado de sementes.

"Sede meus imitadores, 
como também eu de Cristo."
I Coríntios 11: 1

          Sem a experiência pessoal com Cristo, a pessoa que trabalha com crianças pode ser um excelente educador ou professor, mas jamais será alguém que discípula nos moldes de Cristo.   Ele jamais ofereceu a qualquer de seus seguidores uma perspectiva de Deus que não fosse resultado de sua própria vivência.
          Ensinamos nossas crianças a desenvolver seus frutos por meio de nossas histórias acerca do que Cristo fez em nós. Fomentamos nelas o espírito de adoração na medida em que nos deslumbramos diante delas ao ler a Palavra divina e quando louvamos e adoramos. Mostramos que Cristo é nosso Senhor ao invoca-Lo cotidianamente diante dos desafios que se nos apresentam. E essa é uma razão primordial para que também celebremos seus pequenos passos de fé, suas afirmações teológicas mais lúdicas, as surpresas com que nos presenteiam ao demonstrar seu modo de entender a revelação divina.
          Por isso e por fim, creio que é preciso que nós, adultos e adultas, reaprendamos o valor da celebração. Sofremos tanto plantando e cuidando da semente que, quando ela brota, damos um suspiro aliviado e nos viramos para o próximo campo seco, sem nos aperceber do milagre que é esse brotar da fé no coração de nossos pequenos.
          Damos por certas tantas coisas! Achamos que a independência nos levará a algum lugar, mas estamos criando nossas crianças para uma vida sem Deus, esperando que em algum momento elas decidam sozinhas... Como? Se não estamos plantando? Se não investimos nelas por meio da Escola Dominical, dos grupos pequenos, dos ministérios bem preparados? Se os pais ocupam seus dias com tantos afazeres que, aos domingos, elas não querem ir à igreja?
          Esses dias mesmo eu me assombrei de ver, numa postagem de facebook acerca de um batismo por imersão, alguém comentar dizendo que finalmente a Igreja Metodista havia assumido essa forma de batismo e que, assim, as crianças agora poderiam decidir, sendo batizadas apenas quando adultas. Perceba, não é a forma de batismo a questão aqui, mas de que maneira uma forma de batismo traz uma teologia que claramente exclui os pequeninos e pequeninas do processo da graça, faz os pais e mães se omitirem de seu papel na aliança com Deus e joga por terra nosso esforço de anos e anos tentando educar nosso povo, dentro de nossa teologia inclusiva, do valor da experiência delas e de nosso selo como pais e mães sobre suas vidas. Eu jamais abdicarei da fé no batismo infantil. Sou fruto dele, como cristã e como metodista. Minhas filhas foram acolhidas nessa fé. Meus irmãos e irmã também. E meus tios e tias. Tenho uma história de frutos para contar. As sementes que eu plantei vieram da mesma raiz das quais fui alimentada. E

"Se é santa a parte da massa
 que é oferecida como primeiros frutos, 
toda a massa também o é;
se a raiz é santa, 
os ramos também o serão."
Romanos 16: 11

          Por isso é que quando algo emerge como amostra de fé e frutos na vida das crianças, temos de reunir os amigos e amigas e fazer uma grande festa. A igreja precisa celebrar a fé dos pequenos e pequenas. Dar-lhes espaço de testemunho e louvor. Investir pesado para que tenham as melhores condições de frutificar e depois celebrar, celebrar muito, a festa da vida.

de http://hideide.blogspot.com.br


Nenhum comentário:

Postar um comentário