Mitos de criação e o tempo mítico vs. tempo histórico
Introdução: o sagrado como revelação no espaço
Uma das contribuições mais importantes da História das Religiões e da fenomenologia da religião é mostrar que a experiência religiosa não se limita a crenças ou doutrinas. Ela envolve também uma forma particular de perceber, organizar e interpretar o mundo. Diversas tradições religiosas afirmam que o sagrado não permanece distante ou totalmente oculto, mas se manifesta no mundo humano.
Essas manifestações podem ocorrer em lugares, objetos, acontecimentos ou pessoas que passam a ser percebidos como portadores de uma realidade espiritual. Essas manifestações são chamadas de hierofanias, termo amplamente utilizado nos estudos de religião.
O conceito foi sistematizado pelo historiador das religiões Mircea Eliade, que observou que, em diferentes culturas, o ser humano identifica determinados pontos do mundo como locais onde o sagrado se revelou de forma especial. Para Eliade, a experiência religiosa não é apenas uma questão interior ou psicológica. Ela envolve também uma estrutura simbólica do espaço, na qual certos lugares são percebidos como qualitativamente diferentes do restante do mundo. Como afirma Eliade: “Para o homem religioso, o espaço não é homogêneo; existem rupturas, que revelam uma realidade absoluta.” (ELIADE, 1992, p. 16). Isso significa que o espaço religioso é percebido como estruturado a partir de pontos de revelação do sagrado.
Esses pontos tornam-se centros simbólicos do mundo, lugares onde o ser humano acredita que existe uma ligação entre a realidade humana e a realidade divina. Por essa razão, compreender o conceito de hierofania e o simbolismo do centro é fundamental para entender como as religiões:
- Estruturam seus espaços sagrados
- Organizam suas práticas rituais
- Constroem identidades coletivas
- Interpretam a relação entre o humano e o divino
Assim, o estudo dessas categorias nos permite perceber como diferentes culturas constroem uma geografia espiritual do mundo.
1. O que é uma hierofania?
A palavra hierofania tem origem na língua grega e é formada por dois termos:
- Hieros → sagrado
- Phainein → manifestar, revelar
Assim, o termo significa literalmente “manifestação do sagrado”. Na perspectiva da fenomenologia da religião, uma hierofania ocorre quando algo pertencente ao mundo comum passa a revelar uma dimensão sagrada. Segundo Eliade: “A manifestação do sagrado funda ontologicamente o mundo.” (ELIADE, 1992, p. 21). Essa afirmação possui um significado profundo. Para o ser humano religioso, o mundo não é apenas uma realidade material neutra. Ele adquire significado a partir de momentos em que o sagrado se manifesta. Essas manifestações revelam que existe uma realidade transcendente que fundamenta o mundo. Em outras palavras, a hierofania transforma o espaço comum em um lugar carregado de significado espiritual.
1.1 Tipos de hierofanias
As hierofanias podem assumir diversas formas nas tradições religiosas. Entre as manifestações mais comuns estão:
Lugares sagrados
Determinados locais são considerados sagrados porque ali ocorreu uma revelação divina ou um acontecimento espiritual importante. Exemplos incluem:
- montanhas
- desertos
- rios
- templos
- cidades sagradas
Esses lugares passam a ser vistos como pontos de encontro entre o humano e o divino.
Objetos sagrados
Alguns objetos tornam-se portadores de significado religioso. Entre eles podemos citar:
- relíquias
- imagens sagradas
- textos religiosos
- artefatos rituais
Esses objetos não são considerados sagrados apenas por sua matéria, mas pelo significado simbólico que representam.
Fenômenos naturais
Muitas culturas interpretam certos fenômenos naturais como manifestações do sagrado. Exemplos:
- o sol
- o trovão
- o fogo
- rios e fontes
- montanhas
Em muitas tradições antigas, esses elementos eram percebidos como expressões do poder divino.
Acontecimentos históricos
Alguns eventos históricos também são interpretados como revelações divinas. Por exemplo:
- revelações proféticas
- fundação de comunidades religiosas
- experiências espirituais marcantes
Esses eventos passam a fazer parte da memória religiosa coletiva.
2. Espaço sagrado e espaço profano
Uma das distinções fundamentais da experiência religiosa é a diferença entre:
Espaço sagrado e Espaço profano
O espaço profano é o espaço cotidiano da vida humana. Ele corresponde aos lugares utilizados para atividades comuns, como:
- trabalho
- comércio
- habitação
- circulação social
Já o espaço sagrado é aquele que foi marcado por uma manifestação do sagrado. Segundo Eliade: “Para o homem religioso, o espaço não é homogêneo; existem rupturas no espaço que revelam uma realidade absoluta.” (ELIADE, 1992, p. 17). Essas rupturas indicam que o espaço religioso possui uma estrutura qualitativa diferente do espaço comum. O espaço sagrado funciona como:
- lugar de encontro com o divino
- centro de rituais religiosos
- referência espiritual para a comunidade
Na cosmovisão cristã, defende-se algo diferente a respeito dessa indicação. Compreende-se que não existe uma ruptura ou uma separação entre sagrado e profano na vida de um cristão. Pelo contrário, o cristão compreende biblicamente que sua vida é integralmente sagrada, fazendo todas as coisas para a glória de Deus (I Coríntios 10:31) e entendendo todo ambiente como uma oportunidade de manifestação do sobrenatural (sagrado).
3. Exemplos de hierofanias nas tradições religiosas
Diversas religiões preservam narrativas que descrevem manifestações do sagrado em lugares específicos. Esses lugares frequentemente se tornam centros de peregrinação e devoção:
Monte Sinai
Na tradição bíblica judaico-cristã, o Monte Sinai é associado à revelação da Lei a Moisés. Nesse local, segundo a narrativa do Êxodo, Deus teria estabelecido uma aliança com o povo de Israel. O Sinai torna-se, assim, um lugar simbólico da revelação divina.
A Kaaba em Meca
No islamismo, a Kaaba é considerada o centro espiritual do mundo muçulmano. Todos os muçulmanos direcionam suas orações para esse local. Além disso, milhões de fiéis realizam anualmente a peregrinação conhecida como Hajj.
O rio Ganges
No hinduísmo, o rio Ganges é considerado sagrado. Suas águas são associadas à purificação espiritual e à renovação da vida. Milhões de peregrinos visitam suas margens para realizar rituais religiosos.
Bodh Gaya
No budismo, Bodh Gaya é o local onde Siddhartha Gautama teria alcançado a iluminação espiritual. Esse lugar tornou-se um dos principais centros de peregrinação budista.
4. O simbolismo do Centro
Outro conceito central nos estudos de religião é o simbolismo do centro. Segundo Eliade, muitas culturas acreditam que existe um ponto especial do mundo que funciona como eixo de ligação entre diferentes níveis da realidade. Esse ponto é chamado de Axis Mundi, expressão latina que significa “eixo do mundo”. Segundo Eliade: “Todo espaço sagrado implica uma hierofania e, por consequência, uma ruptura no espaço profano. Essa ruptura estabelece um centro.” (ELIADE, 1992, p. 26). O centro representa:
- o ponto de origem do cosmos
- o lugar da criação
- o ponto de comunicação entre céu e terra
5. O Axis Mundi nas culturas religiosas
O símbolo do eixo do mundo aparece em diversas tradições:
Montanhas sagradas
As montanhas são frequentemente vistas como pontos de ligação entre o céu e a terra. Exemplos incluem:
- Monte Sinai
- Monte Olimpo
- Monte Meru (cosmologia hindu)
A elevação da montanha simboliza a aproximação do mundo divino.
Árvores sagradas
Em muitas mitologias, a árvore representa a conexão entre diferentes níveis da realidade. Um exemplo clássico é Yggdrasil, na mitologia nórdica. Essa árvore cósmica conecta os diferentes mundos da cosmologia nórdica.
Templos e cidades sagradas
Muitos templos são construídos como representações simbólicas do cosmos. Segundo Eliade: “O templo é uma imago mundi, uma representação simbólica do universo.” (ELIADE, 1992, p. 39). Por essa razão, templos frequentemente ocupam lugares centrais nas cidades antigas. Eles funcionam como centros espirituais e sociais da comunidade.
6. A organização do espaço religioso
A partir da manifestação do sagrado, as comunidades religiosas passam a organizar o espaço de forma simbólica. Esse processo envolve:
- construção de templos
- delimitação de lugares sagrados
- criação de rotas de peregrinação
- realização de rituais religiosos
Esses espaços tornam-se:
- centros de identidade cultural
- lugares de memória religiosa
- pontos de encontro comunitário
Assim, o espaço sagrado desempenha não apenas uma função espiritual, mas também social e cultural.
7. O simbolismo do centro na tradição bíblica
A tradição bíblica também apresenta estruturas simbólicas relacionadas ao espaço sagrado:
O tabernáculo
No Antigo Testamento, o tabernáculo representava a presença de Deus no meio do povo de Israel. Ele era considerado o lugar onde a glória divina se manifestava. O espaço do tabernáculo era cuidadosamente organizado, refletindo a ideia de aproximação progressiva do sagrado.
O templo de Jerusalém
Posteriormente, o templo de Jerusalém tornou-se o principal centro religioso do judaísmo. Ali eram realizados:
- sacrifícios
- festas religiosas
- peregrinações
O templo funcionava como o centro espiritual da vida nacional de Israel.
A presença divina no Novo Testamento
No Novo Testamento ocorre uma transformação significativa dessa concepção. A presença divina não é mais associada exclusivamente a um lugar físico. Ela é relacionada:
- à pessoa de Cristo
- à comunidade dos fiéis
Essa mudança revela uma nova compreensão da relação entre o sagrado e o espaço.
8. Síntese
Nesta aula aprendemos que:
- O conceito de hierofania descreve a manifestação do sagrado no mundo.
- O ser humano religioso distingue entre espaço sagrado e espaço profano.
- Lugares onde ocorre uma manifestação do sagrado tornam-se centros religiosos.
- Muitas culturas utilizam o simbolismo do Axis Mundi, o eixo que conecta céu e terra.
- Montanhas, árvores e templos são símbolos recorrentes desse eixo cósmico.
- A organização do espaço religioso revela como diferentes culturas interpretam sua relação com o divino.
Assim, o estudo do espaço sagrado mostra que as religiões não apenas oferecem crenças e rituais, mas também constroem uma geografia simbólica do mundo, na qual o ser humano busca compreender sua posição no cosmos e sua relação com o sagrado.
Introdução: o tempo na experiência religiosa
Além de organizar o espaço por meio de lugares sagrados, as religiões também estruturam profundamente a experiência humana do tempo. Para muitas tradições religiosas, o tempo não é apenas uma sucessão neutra de acontecimentos, mas uma realidade carregada de significado simbólico, espiritual e existencial. Na experiência cotidiana da modernidade, o tempo costuma ser compreendido como uma sequência linear e irreversível de eventos — passado, presente e futuro. Esse tipo de percepção é frequentemente denominado tempo histórico ou tempo cronológico, pois está associado ao desenvolvimento da historiografia, da ciência moderna e das formas contemporâneas de organização social.
Nesse modelo, os acontecimentos ocorrem apenas uma vez e não podem ser repetidos.
Entretanto, diversas tradições religiosas e culturas antigas concebem o tempo de maneira diferente. Nesses contextos, o tempo não é apenas linear, mas também qualitativo, isto é, alguns momentos possuem um significado especial por estarem relacionados à manifestação do sagrado. Surge, assim, a noção de tempo sagrado, frequentemente associada aos mitos de origem e aos eventos fundadores da realidade. O historiador das religiões Mircea Eliade argumenta que o ser humano religioso distingue dois modos fundamentais de experimentar o tempo:
- O tempo profano, que corresponde ao fluxo cotidiano da vida e à sucessão ordinária dos acontecimentos;
- O tempo sagrado, que remete aos acontecimentos primordiais em que o mundo foi fundado e ordenado.
Segundo Eliade: “O mito narra uma história sagrada; ele relata um acontecimento que teve lugar no tempo primordial, o tempo fabuloso das origens.” (ELIADE, 1992, p. 5). Nessa perspectiva, os mitos de criação não são compreendidos apenas como narrativas simbólicas ou relatos literários sobre o passado. Para as tradições religiosas, eles representam eventos fundadores que estabelecem a estrutura do cosmos e fornecem sentido à existência humana. Assim, estudar os mitos de criação e a distinção entre tempo mítico e tempo histórico permite compreender como diferentes culturas interpretam questões fundamentais da existência humana, como:
- a origem do mundo
- a posição do ser humano no cosmos
- o significado da história
- a relação entre passado, presente e eternidade
Dessa forma, a experiência religiosa do tempo revela uma cosmovisão em que a realidade não é compreendida apenas como história, mas também como participação contínua em eventos sagrados que inauguraram o mundo.
1. O que são mitos de criação?
Os mitos de criação, também chamados de mitos cosmogônicos, são narrativas que descrevem a origem do universo, da humanidade ou da ordem cósmica. Essas narrativas estão presentes em praticamente todas as culturas humanas e desempenham um papel central na organização simbólica das sociedades. Por meio delas, comunidades religiosas procuram responder às perguntas fundamentais sobre a origem da realidade e o lugar do ser humano no mundo. Na perspectiva da História das Religiões, o termo mito não deve ser entendido como sinônimo de “história falsa” ou “ficção”.
Esse uso popular da palavra difere significativamente do significado acadêmico do conceito. Para estudiosos da religião, o mito é uma narrativa sagrada que relata acontecimentos ocorridos no tempo primordial e que explicam como determinadas realidades passaram a existir.
Segundo Eliade: “O mito conta como, graças aos feitos dos seres sobrenaturais, uma realidade passou a existir.” (ELIADE, 1992, p. 6). Assim, o mito explica a origem de diversas dimensões da realidade, como:
- a criação do mundo
- a origem da vida
- o surgimento da humanidade
- a formação das instituições sociais
- o estabelecimento de práticas religiosas
Além de explicar a origem da realidade, os mitos também desempenham uma função normativa. Ao narrar ações realizadas por deuses, heróis ou seres primordiais, eles estabelecem modelos exemplares de comportamento humano. Desse modo, o mito não é apenas uma explicação sobre o passado, mas também um referencial para orientar a vida no presente.
2. Características dos mitos de criação
Apesar da grande diversidade cultural existente no mundo, os mitos de origem apresentam algumas características recorrentes que ajudam a compreender sua função religiosa e social.
2.1 Narram acontecimentos primordiais
Os mitos geralmente descrevem eventos ocorridos em um tempo remoto, anterior à história humana propriamente dita. Esse período é frequentemente denominado:
- tempo das origens
- tempo primordial
- tempo sagrado
Nesse tempo primordial, os deuses ou seres criadores organizam o cosmos, estabelecendo a estrutura fundamental da realidade. Nesse sentido, o mito narra o momento em que o mundo deixa de ser caos e passa a possuir ordem.
2.2 Explicam a ordem do mundo
Outra função fundamental dos mitos é explicar por que o mundo é como é. As narrativas cosmogônicas procuram oferecer respostas simbólicas para questões como:
- a existência do sofrimento e do mal
- a organização da natureza
Por meio dessas explicações, os mitos ajudam as sociedades a construir uma cosmovisão coerente, na qual o universo possui uma estrutura inteligível e um significado.
2.3 Estabelecem modelos exemplares
Os mitos também apresentam ações realizadas por seres divinos ou heróis culturais que servem como modelos para o comportamento humano. Por essa razão, muitas práticas religiosas procuram reproduzir ou relembrar esses acontecimentos primordiais. Entre essas práticas podem ser mencionadas:
- rituais agrícolas
- ritos de iniciação
- cerimônias religiosas
- festividades sazonais
Segundo Eliade, ao repetir esses rituais, os seres humanos não apenas recordam o mito, mas participam novamente do tempo sagrado das origens.
3. O tempo mítico
O conceito de tempo mítico é central para compreender a função dos mitos nas religiões. O tempo mítico corresponde ao período primordial em que ocorreram os eventos fundadores da realidade. Nesse tempo, os deuses criaram o mundo, estabeleceram a ordem do cosmos e instituíram os modelos de comportamento humano.
Diferentemente do tempo histórico, o tempo mítico possui características específicas. Primeiramente, trata-se de um tempo qualitativamente diferente do tempo cotidiano, pois está diretamente relacionado à manifestação do sagrado. Além disso, o tempo mítico é exemplar. Os acontecimentos ocorridos nesse período servem como modelos para todas as ações humanas posteriores. Por fim, o tempo mítico possui uma característica fundamental: ele pode ser ritualmente atualizado.
Segundo Eliade: “Participar de um rito é reintegrar o tempo mítico das origens.” (ELIADE, 1992, p. 68). Assim, quando uma comunidade religiosa realiza rituais ou celebra festividades associadas a um mito, acredita-se que o tempo primordial é simbolicamente revivido. Dessa forma, o tempo mítico não pertence apenas ao passado distante, mas pode ser re-experimentado no presente por meio da prática religiosa.
4. O tempo histórico
Em contraste com o tempo mítico, existe o tempo histórico, que corresponde à experiência ordinária da vida humana. O tempo histórico possui algumas características fundamentais:
- é linear
- é irreversível
- é marcado por acontecimentos únicos
Nesse modelo temporal, os eventos ocorrem apenas uma vez e não podem ser repetidos. Essa compreensão do tempo tornou-se dominante especialmente na modernidade, com o desenvolvimento da ciência, da historiografia e da ideia de progresso histórico.
Segundo Eliade, a sociedade moderna tende a viver quase exclusivamente no tempo histórico, enquanto muitas sociedades tradicionais mantêm uma relação mais intensa com o tempo mítico.
5. Tempo cíclico e rituais religiosos
Em diversas tradições religiosas antigas, o tempo não é percebido apenas como linear, mas também como cíclico. Nesse modelo, o tempo se renova periodicamente por meio de rituais e festividades que simbolizam o retorno ao momento da criação. Esses ciclos são frequentemente marcados por:
- festas religiosas
- rituais de renovação
- celebrações anuais
Essas práticas têm a função de renovar simbolicamente o cosmos, restaurando a ordem estabelecida no momento da criação. Para muitas culturas tradicionais, repetir esses rituais significa participar novamente do tempo primordial, permitindo que o mundo seja continuamente regenerado;
6. Exemplos de mitos de criação
Diversas culturas apresentam narrativas sobre a origem do mundo. Essas narrativas revelam como cada sociedade interpreta o cosmos e compreende a posição da humanidade dentro dele.
A criação no Gênesis
Na tradição judaico-cristã, o livro do Gênesis apresenta uma narrativa teológica sobre a criação do mundo por Deus. Segundo o relato bíblico, Deus cria:
- o céu e a terra
- os astros
- os animais
- a humanidade
Essa narrativa estabelece a ideia de que o universo possui uma origem intencional e ordenada, sendo resultado da ação criadora de Deus.
O mito da criação no hinduísmo
Na tradição hindu, existem diversas narrativas cosmogônicas que explicam a origem do universo. Uma delas descreve a criação do cosmos a partir de Brahma, o deus criador. Em algumas versões desse mito, o universo surge a partir de um ovo cósmico primordial, chamado Hiranyagarbha, símbolo do potencial criador que contém em si toda a realidade.
Cosmogonias indígenas
Diversas culturas indígenas também possuem narrativas sobre a origem do mundo. Esses mitos frequentemente envolvem:
- espíritos criadores
- animais simbólicos
- transformações da natureza
Essas narrativas revelam uma visão de mundo em que há uma profunda integração entre ser humano, natureza e dimensão espiritual.
7. O tempo mítico na tradição bíblica
Na tradição bíblica, o conceito de tempo também possui uma dimensão teológica significativa. O relato da criação não é apenas uma explicação sobre a origem do mundo, mas estabelece o fundamento da relação entre Deus, a humanidade e a história. A criação define:
- a origem do cosmos
- a dignidade da humanidade
- a ordem moral da realidade
Além disso, diversas festas religiosas do judaísmo funcionam como momentos de memória ritual, nos quais eventos fundadores da história do povo são relembrados e atualizados simbolicamente. Um exemplo importante é a celebração da Páscoa judaica, que relembra a libertação do povo de Israel do Egito. Durante essa celebração, os participantes não apenas recordam o evento histórico, mas simbolicamente se colocam como participantes da experiência fundadora da identidade do povo. No cristianismo, a morte e ressurreição de Cristo também são celebradas liturgicamente, permitindo que os fiéis se conectem espiritualmente com o evento central da fé cristã. Assim, mesmo em tradições que valorizam a história, os rituais religiosos continuam desempenhando a função de atualizar simbolicamente acontecimentos fundadores.
8. Síntese da aula
Nesta aula foi possível compreender que os mitos de criação desempenham um papel fundamental na forma como as sociedades interpretam o mundo e estruturam sua experiência do tempo. Os mitos narram acontecimentos primordiais que explicam a origem da realidade e estabelecem modelos exemplares para a vida humana. A distinção entre tempo mítico e tempo histórico revela duas formas diferentes de compreender o tempo: uma relacionada ao fluxo linear da história e outra vinculada aos eventos sagrados que fundaram o cosmos.
Por meio de rituais e celebrações religiosas, muitas tradições acreditam ser possível retornar simbolicamente ao tempo primordial, atualizando os acontecimentos que deram origem ao mundo. Assim, o estudo dos mitos de criação mostra que as religiões não apenas oferecem explicações sobre a origem do universo, mas também estruturam a forma como os seres humanos compreendem o tempo, a história e o sentido da existência.
Conteúdo Bônus
- Artigo acadêmico: ELIADE, Mircea. “O sagrado e o profano na experiência religiosa”. Neste texto clássico, Eliade discute como o ser humano religioso percebe o mundo dividido entre duas dimensões fundamentais: o sagrado e o profano. O autor explica como determinados lugares, objetos ou acontecimentos tornam-se manifestações do sagrado (hierofanias) e passam a organizar o espaço e o tempo da experiência religiosa. O artigo também aborda como mitos e rituais permitem que comunidades religiosas retornem simbolicamente ao tempo primordial da criação. Essa leitura aprofunda os conceitos estudados nas aulas sobre hierofanias, espaço sagrado, mito e tempo mítico.
- Vídeo: “Mircea Eliade – The Sacred and the Profane Explained” (YouTube). O vídeo apresenta uma explicação acessível dos principais conceitos da obra de Eliade, especialmente:
- hierofania
- distinção entre sagrado e profano
- organização simbólica do espaço religioso
- a ideia de centro do mundo
- a diferença entre tempo sagrado e tempo histórico
O conteúdo ajuda a visualizar como essas categorias aparecem em diferentes tradições religiosas.
Referência Bibliográfica
ELIADE, Mircea. O sagrado e o profano: a essência das religiões. São Paulo: Martins Fontes, 2010.
ELIADE, Mircea. Mito e realidade. São Paulo: Perspectiva, 2013.
ELIADE, Mircea. Tratado de história das religiões. São Paulo: Martins Fontes, 2016.
OTTO, Rudolf. O sagrado: os aspectos irracionais na noção do divino e sua relação com o racional. Petrópolis: Vozes, 2007.
DURKHEIM, Émile. As formas elementares da vida religiosa. São Paulo: Martins Fontes, 2012.
LÉVI-STRAUSS, Claude. Antropologia estrutural. Rio de Janeiro: Tempo Brasileiro, 2008.
RICOEUR, Paul. A simbólica do mal. São Paulo: Loyola, 2007.
ARMSTRONG, Karen. Breve história do mito. São Paulo: Companhia das Letras, 2005.


Nenhum comentário:
Postar um comentário