sábado, 23 de abril de 2016

Instrumentos de Materiais Reciclados




"Ezequiel e a Glória de Deus"


          A glória que parte e a promessa do novo coração de carne

          Ezequiel filho de Buzi era sacerdote da linhagem sadoquita quando foi deportado para a Babilônia junto com o rei Jecorias e a primeira leva de exilados em 597 a.C. (Ezequiel 1:1-3; II Reis 24:14-16). Ele exerceu seu ministério profético entre os exilados estabelecidos às margens do rio Quebar, na Babilônia, durante pelo menos vinte e dois anos (593-571 a.C.), tornando-se o profeta por excelência da comunidade exilada. Onde Jeremias proclamava em Jerusalém e acompanhava o processo de destruição de dentro, Ezequiel proclamava na Babilônia e acompanhava o processo de destruição de fora, o que tornava sua perspectiva ao mesmo tempo mais distante geograficamente e mais elaborada teologicamente.

          A situação dos exilados era de uma ambiguidade existencial profunda. Por um lado, eles viviam no coração do maior império do seu tempo, com acesso a uma cultura sofisticada e a uma economia relativamente próspera. Por outro lado, tinham perdido os três pilares de sua identidade religiosa: a terra, o Templo e a monarquia.

          E, mais perturbador ainda, enfrentavam a questão teológica mais urgente do exílio. YHWH havia sido derrotado pelo deus babilônico Marduque? Era a queda de Jerusalém prova da impotência do Deus de Israel, ou havia nela um propósito que ainda não era compreendido?

          A teologia que Ezequiel precisava formular para os exilados era, ao mesmo tempo, uma teologia do julgamento e uma teologia da esperança. Ele precisava convencer um povo que tendia a atribuir o exílio ao fracasso de YHWH de que, ao contrário, o exílio era o julgamento soberano de YHWH sobre a infidelidade de Israel. E precisava convencer o mesmo povo de que esse julgamento não era a última palavra e que havia, além dele, uma promessa de restauração que YHWH mesmo garantiria.

          A visão do carro-trono

          O livro de Ezequiel abre com uma das visões mais complexas, elaboradas e influentes de toda a Bíblia: a visão do carro-trono de YHWH (Ezequiel 1), conhecida na tradição judaica como merkavah (carro). Ezequiel vê uma tempestade de fogo vindo do norte, com nuvem e fogo, de cujo centro emergem quatro seres viventes (querubins) com quatro faces cada um (rosto de homem, de leão, de touro e de águia), quatro asas, e pés com cascos de bezerro. Junto a cada ser vivente há uma roda com outra roda dentro dela, cujas aros são cheios de olhos, e que se movem em qualquer direção sem precisar girar. Sobre os seres viventes há uma expansão cristalina. Sobre a expansão, algo semelhante a um trono de safira. E sobre o trono, uma figura semelhante a um ser humano, envolta em fogo e luz.

          A complexidade iconográfica dessa visão não é ornamental, mas serve a um propósito teológico específico e urgente. As representações de divindades sobre carros puxados por animais ou sobre tronos sustentados por criações híbridas eram comuns no repertório iconográfico mesopotâmico e cananeu. Ezequiel usa esse repertório para afirmar algo radicalmente diferente: o Deus de Israel não está confinado a Jerusalém nem ao Templo de Salomão. Ele se move, Ele se desloca, Ele pode estar presente onde Seu povo está, inclusive na Babilônia.

          A teologia da mobilidade divina que a visão do carro-trono articula é a resposta profética à crise mais fundamental do exílio. Se YHWH está no Templo de Jerusalém, e Jerusalém foi destruída, YHWH está morto ou impotente. A visão do carro-trono refuta essa conclusão: o Senhor que estava no Templo não está preso ao Templo. Ele pode vir até os exilados às margens do Quebar. Ele pode estar presente na Babilônia tanto quanto estava em Sião. A soberania de YHWH não tem fronteiras geográficas.

          A visão do carro-trono de Ezequiel tornou-se o núcleo da mística judaica medieval, especialmente da Kabbalah, cujos praticantes buscavam a contemplação da merkavah como forma de ascensão espiritual. Mas a função original da visão em Ezequiel 1 é muito mais pastoral do que mística. Ela garante aos exilados que seu Deus não está distante, mas presente em todo o seu poder e em toda a sua glória no lugar onde eles estão.

          A glória que parte

          A tensão teológica mais dramática do livro de Ezequiel está entre a visão do carro-trono que revela um YHWH presente e móvel, e a visão da glória que parte do Templo nos capítulos 8 a 11. Nesses capítulos, Ezequiel é transportado em visão a Jerusalém e vê a profundidade da apostasia que contamina o próprio santuário: ídolos na entrada norte (Ezequiel 8:3-5), pinturas de animais e ídolos nas paredes de uma câmara secreta onde os anciãos oferecem incenso (Ezequiel 8:10-12), mulheres chorando por Tamuz (o deus da fertilidade mesopotâmico) na entrada norte do Templo (Ezequiel 8:14), e vinte e cinco homens adorando o sol com as costas voltadas para o Templo (Ezequiel 8:16).

          A sequência de apostasias tem um crescimento deliberado. Cada cena é mais chocante do que a anterior, e cada uma representa uma violação mais profunda da santidade do santuário. O clímax é o grupo que adora o sol com as costas voltadas para YHWH, a forma mais literal e mais simbólica de apostasia: virar as costas para o Deus da aliança enquanto se curva à outra divindade.

          A resposta divina a essa apostasia é narrada em Ezequiel 10-11 com uma solenidade que torna o texto um dos mais pesados de toda a Bíblia. A glória do Senhor (kavod YHWH) parte progressivamente do Templo. Primeiro, a glória se move do querubim para o limiar da casa (Ezequiel 9:3; 10:4); depois, para a entrada oriental da casa do Senhor (Ezequiel 10:19); e finalmente, para o monte ao oriente da cidade (Eequiel 11:23). A saída é gradual. YHWH não abandona abruptamente seu santuário, mas Ele se retira passo a passo, como alguém que reluta em partir mas é compelido a fazê-lo pela gravidade do que encontra.

          A partida da glória em Ezequiel 10-11 é o evento mais grave de toda a narrativa do Antigo Testamento. É mais grave do que o exílio, mais grave do que a destruição do Templo, porque a destruição do Templo é a consequência, não a causa. A causa é o abandono da presença divina, que acontece antes da destruição física. YHWH não é expulso de Jerusalém pelos babilônios. Ele a deixa voluntariamente porque a apostasia tornou sua presença entre o povo impossível.

          A estrutura teológica do livro de Ezequiel é marcada pela partida e pelo retorno da glória divina. Essa estrutura funciona como o arco narrativo maior do livro: julgamento (a glória parte) e restauração (a glória retorna). E a restauração, quando vem, é mais gloriosa do que o estado anterior, porque agora o Espírito de Deus habita não apenas no Templo, mas no coração do povo.

          O novo coração

          A promessa mais central de toda a teologia restauradora de Ezequiel está no capítulo 36, versículos 24 a 28. Um texto que, junto com Jeremias 31.31-34, forma o núcleo veterotestamentário da teologia da nova aliança e da pneumatologia. O texto é de uma densidade e de uma clareza que o tornam um dos mais importantes do Antigo Testamento para a compreensão da obra do Espírito Santo.

          O oráculo começa com a promessa da reunião e do retorno à terra (Ezequiel 36:24), a dimensão histórica da restauração. Mas o centro gravitacional do texto não é geográfico, mas antropológico: “Dar-vos-ei um coração novo e porei dentro de vós um espírito novo; tirarei da vossa carne o coração de pedra e vos darei um coração de carne. E porei dentro de vós o meu Espírito, e farei que andeis nos meus estatutos, e guardeis os meus juízos e os pratiqueis” (Ez 36:26-27).

          A sequência lógica do texto é pneumatologicamente precisa. Primeiro, a remoção do coração de pedra (o impedimento; depois, a dádiva do coração de carne) a nova capacidade de receber; depois, a infusão do próprio Espírito de YHWH (a fonte da transformação; e finalmente, a obediência que resulta da obra do Espírito) a vida que a aliança sinaítica havia exigido mas que o coração de pedra não podia oferecer.

          No pensamento hebraico, a pedra representa dureza, impermeabilidade, ausência de resposta. A carne representa sensibilidade, vulnerabilidade, capacidade de ser moldada. O coração de pedra é o coração que não consegue ser penetrado pela palavra de Deus. O coração de carne é o coração que a palavra de Deus pode alcançar, transformar e habitar. A obra do Espírito em Ezequiel 36 é precisamente essa transição, da impermeabilidade à receptividade, do fechamento à abertura.

          A promessa de Ezequiel 36:26-27 é o paralelo pneumatológico de Jeremias 31:31-34. Onde Jeremias fala de lei escrita no coração, Ezequiel fala do Espírito de YHWH habitando no interior do crente e produzindo a obediência que a lei exigia. Os dois profetas estão formulando, em linguagens complementares, a mesma realidade. A nova aliança não é uma aliança de esforço humano melhorado, mas de transformação divina operada de dentro para fora. Essa compreensão é o fundamento veterotestamentário da teologia paulina do Espírito em Romanos 8 e Gálatas 5.

          A promessa do Espírito em Ezequiel tem uma dimensão coletiva que não deve ser negligenciada. O texto fala em plural: "dar-vos-ei", "porei dentro de vós", "farei que andeis." A transformação prometida não é apenas individual. Ela é comunitária. O Espírito que habitará no coração de cada membro do povo restaurado é o mesmo Espírito que constituirá esse povo como comunidade, o que os teólogos neotestamentários chamarão de ekklesia, a comunidade do Espírito.

          Ezequiel e a teologia da responsabilidade individual

          Uma das contribuições mais originais de Ezequiel para a teologia do Antigo Testamento é a ênfase na responsabilidade moral individual, em contraste com uma visão de culpa coletiva intergeracional que parecia dominar a mentalidade de seus contemporâneos. O povo exilado havia internalizado o provérbio: “Os pais comeram uvas verdes e os dentes dos filhos é que ficaram embotados” (Ezequiel 18:2; cf. Jeremias 31.:29). É a ideia de que a geração exilada estava pagando pelos pecados de seus antepassados, sem responsabilidade própria pelo que vivia.

          Ezequiel refuta esse provérbio com uma declaração que tem implicações éticas e espirituais de longo alcance: “Eis que todas as almas são minhas; como a alma do pai, assim também a alma do filho é minha; a alma que pecar, essa morrerá” (Ezequiel 18:4). O capítulo 18 desenvolve essa afirmação com uma série de casos jurídicos que demonstram que cada pessoa é responsável pela própria conduta.

          O justo que peca não se salva pela justiça anterior; o ímpio que se arrepende não perece pela impiedade anterior. Ezequiel 18 não é uma negação da solidariedade nem da responsabilidade comunitária. É a afirmação de que o julgamento de Deus não é um mecanismo automático de herança de culpa, mas uma resposta ao estado atual do coração de cada pessoa. Isso é simultaneamente uma palavra de julgamento (ninguém pode se esconder atrás dos pecados dos pais) e uma palavra de esperança (ninguém está condenado pelos erros do passado se houver conversão genuína no presente).

          Conclusão

          Nesta aula, examinamos a teologia de Ezequiel em seus textos fundantes: a visão do carro-trono como afirmação da mobilidade e da soberania de YHWH além das fronteiras geográficas do Templo, a glória que parte de Jerusalém como consequência da apostasia que tornara a presença divina impossível, e a promessa do novo coração de carne habitado pelo Espírito como fundamento da nova aliança. Compreendemos que Ezequiel responde à crise do exílio com uma teologia que vai mais fundo do que o retorno geográfico à terra. O verdadeiro retorno é o retorno do coração a YHWH, operado pelo Espírito que ele mesmo promete derramar sobre seu povo.

          O vale dos ossos secos

          O capítulo 37 de Ezequiel é, sem dúvida, um dos textos mais dramáticos e mais teologicamente ricos de todo o Antigo Testamento. A visão do vale de ossos secos não é apenas uma das imagens mais poderosas da Bíblia. Ela é uma síntese condensada de toda a teologia de Ezequiel: a morte que resulta do julgamento, a soberania do Espírito que pode dar vida onde não há vida, e a esperança de restauração que transcende toda possibilidade humana.

          O contexto histórico e espiritual que o texto pressupõe é o desespero dos exilados. Ezequiel 37:11 identifica explicitamente o significado simbólico dos ossos: “esses ossos são toda a casa de Israel. Eis que dizem: Os nossos ossos secaram, e pereceu a nossa esperança; estamos de todo cortados.” A imagem que o povo usa para descrever sua situação é a da morte coletiva: eles não se sentem apenas derrotados, mas extintos. A esperança está morta. A identidade está destruída. O futuro é impensável.

          A pergunta de YHWH a Ezequiel no início da visão (“Filho do homem, podem esses ossos viver?”, Ezequiel 37:3) é a pergunta mais radical que qualquer pessoa de fé pode formular diante de uma situação de morte aparentemente definitiva. A resposta de Ezequiel (“Senhor Deus, tu o sabes”) não é esquiva. É a única resposta que a fé pode dar quando a realidade visível contradiz toda esperança: a questão do possível pertence a Deus, não à capacidade humana de análise.

          A estrutura da visão

          A visão de Ezequiel 37 tem uma estrutura narrativa em dois atos que espelha a narrativa da criação do ser humano em Gênesis 2:7 e que é, provavelmente, uma alusão deliberada a esse texto fundante. Em Gênesis 2:7, Deus forma o homem do pó da terra e sopra em suas narinas o fôlego de vida (neshamah), e o homem torna-se alma vivente (nefesh chayah). Em Ezequiel 37, a ressurreição dos ossos secos acontece em duas etapas correspondentes: primeiro, a re-corporificação (o ajuntamento dos ossos, o crescimento dos nervos e da carne e da pele, Ezequiel 37:7-8); e depois, a vivificação pelo sopro (Ezequiel 37:9-10).

          O primeiro ato, a profecia aos ossos, produz o efeito descrito em Ez 37:7-8: “enquanto eu profetizava, houve um ruído, e eis uma agitação, e os ossos se foram chegando, cada osso ao seu osso. Olhei, e eis que os nervos e a carne subiram sobre eles, e a pele os cobriu por cima; mas neles não havia espírito.” O resultado do primeiro ato é desconcertante. Há corpos formados, mas não há vida. A forma externa está reconstituída e a animação interior está ausente. Isso é um corpo sem espírito. Teologicamente, é uma comunidade que tem as estruturas externas da religião mas não tem a vida que o Espírito produz.

          O segundo ato, a profecia ao espírito (ruach), é o elemento decisivo: “Profetiza ao espírito, profetiza, filho do homem, e dize ao espírito: Assim diz o Senhor Deus: Vem dos quatro ventos, ó espírito, e assopra sobre esses mortos, para que vivam” (Ezequiel 37:9). O termo ruach em hebraico é propositalmente ambíguo: significa simultaneamente vento, fôlego e espírito. O texto joga com essa ambiguidade para sugerir que o sopro que anima os corpos é o mesmo Espírito de Deus que soprou sobre as águas no início da criação (Gênesis 1:2) e que soprou nas narinas do homem em Gênesis 2:7.

          A sequência corpo sem espírito / corpo com espírito em Ezequiel 37 é uma das ilustrações mais memoráveis da teologia bíblica sobre a relação entre forma e vida, entre estrutura e Espírito. A primeira profecia produz a estrutura e a segunda produz a vida. Isso é válido tanto para a comunidade exilada (que precisava primeiro ser reconstituída como povo e depois ser vivificada pelo Espírito) quanto para a vida espiritual em geral. As formas externas da religião são necessárias, mas insuficientes sem o sopro do Espírito de Deus.

          A interpretação da visão

          O texto de Ezequiel 37 tem sido objeto de debate hermenêutico sobre seu referente primário. Ele fala de ressurreição nacional (restauração do povo de Israel do exílio) ou de ressurreição individual dos mortos, ou ambas? O contexto imediato favorece a interpretação nacional: a identificação explícita dos ossos com “toda a casa de Israel” (Ezequiel 37:11) e a promessa de retorno à terra (Ezequiel 37:12-14) apontam claramente para uma metáfora da restauração política e comunitária do povo exilado.

          No entanto, a tradição judaica e cristã, tanto no período do Segundo Templo quanto posteriormente, interpretou o texto também como imagem da ressurreição individual dos mortos. O próprio texto parece convidar essa leitura mais ampla, especialmente com a linguagem de “abrirei os vossos sepulcros” (Ezequiel 37:12) e “farei subir de vós o meu Espírito e vivereis” (Ezequiel 37:14).

          As visões bíblicas operam frequentemente em múltiplos níveis simultaneamente, e tentar reduzir Ezequiel 37 a um único referente empobrece o texto. O profeta usa a imagem da ressurreição individual como metáfora da restauração nacional. Porém, ao fazê-lo, ele também afirma algo sobre o poder de Deus que transcende a metáfora: um Deus que pode ressuscitar uma nação morta certamente pode ressuscitar um indivíduo morto. A metáfora pressupõe e afirma a realidade que ela descreve.

          No Novo Testamento, Jesus faz referência implícita ao texto de Ezequiel 37 quando descreve a regeneração espiritual a Nicodemos em João 3:5-8: “O que é nascido da carne é carne; e o que é nascido do Espírito é espírito […] O vento assopra onde quer, e ouves a sua voz, mas não sabes donde vem, nem para onde vai; assim é todo aquele que é nascido do Espírito.” O vocabulário do vento/espírito/sopro que anima os mortos de Ezequiel 37 é transparente por trás da linguagem de João 3. E a resurreição de Lázaro em João 11, com a chamada da voz do Filho de Deus que dá vida aos mortos, é a manifestação histórica e concreta do poder que a visão do vale de ossos secos havia prometido.

          A visão dos dois paus

          Imediatamente após a visão dos ossos secos, Ezequiel recebe um segundo sinal profético. Ele deve tomar dois paus de madeira, um representando Judá e um representando José/Efraim (o reino do norte), e juntá-los na mão, de modo que se tornem um único pau (Ez 37:15-17). O significado é explicitado pelo próprio texto: “Eis que eu tomarei os filhos de Israel do meio das nações para onde foram, e os congregarei de todas as partes, e os trarei à sua própria terra; e farei deles uma só nação na terra” (Ezequiel 37:21-22).

          A visão dos dois paus é a promessa da reunificação dos dois reinos que o cisma de 930 a.C. havia separado. Mais de três séculos depois da divisão, Ezequiel anuncia que YHWH restaurará a unidade de Israel, não como restauração nostálgica do passado, mas como criação de algo novo. O rei que governará sobre o Israel reunificado é descrito como “servo Davi” (Ez 37:24-25). É uma linguagem messiânica que aponta para além do Davi histórico em direção ao governante davídico escatológico que os profetas anteriores haviam prometido.

          A promessa de reunificação de Judá e Israel em Ezequiel 37 é a expressão mais explícita de uma esperança que percorre todo o profetismo do século VIII ao VI a.C. De Oseias (Oséias 1.11) a Isaías (Isaías 11.12-13) a Jeremias (Jeremias 3.18). O exílio havia dispersado ainda mais o povo já dividido. A restauração prometida não seria apenas o retorno do exílio, mas a superação de séculos de divisão.

          A visão do Templo restaurado

          Os capítulos finais de Ezequiel (Ezequiel 40-48) constituem um dos textos mais elaborados e mais debatidos de todo o Antigo Testamento: a visão do Templo restaurado, com suas medidas detalhadas, sua organização sacerdotal e sua distribuição da terra entre as tribos. Mais importante do que os detalhes arquitetônicos é o evento central que dá sentido a toda a estrutura: o retorno da glória de YHWH ao Templo.

          Ezequiel 43:1-5 descreve esse retorno com a mesma linguagem da visão do carro-trono de Ezequiel 1: “Eis que a glória do Deus de Israel vinha do oriente, e o seu som era como o som de muitas águas, e a terra resplandecia com a sua glória […] E a glória do Senhor entrou na casa pelo caminho da porta que olha para o oriente. Então o Espírito me levantou, e me trouxe ao pátio interior, e eis que a glória do Senhor encheu a casa.” A glória que havia partido pelo oriente (Ezequiel 11:23) retorna pelo oriente. O círculo se fecha, a restauração é completa.

          O elemento mais escatológico do Templo de Ezequiel é o rio que jorra do limiar da casa (Ezequiel 47:1-12). É um fio de água que cresce progressivamente, tornando-se rio que não se pode vadear, e que transforma o deserto em jardim e o Mar Morto em mar de vida. Esse rio é a imagem mais elaborada da vida escatológica no Antigo Testamento, e sua influência sobre a literatura apocalíptica posterior é imensa. O rio de água da vida de Apocalipse 22:1-2 é uma citação direta desse texto, e a promessa de Jesus em João 7:38 (“do seu interior correrão rios de água viva”) é uma aplicação pneumatológica da mesma imagem.

          Conclusão

          Nesta aula, percorremos o texto mais dramático de Ezequiel (a visão do vale de ossos secos) em sua estrutura bimembre de re-corporificação e vivificação pelo Espírito, em seu contexto de desespero exílico e em suas dimensões hermenêuticas de ressurreição nacional e individual. Compreendemos que a profecia que ressuscita os ossos é o gesto definitivo da teologia pneumatológica de Ezequiel. O Espírito de Deus pode dar vida onde não há vida, pode constituir povo onde há apenas ruínas, pode reunir o que estava disperso e separado. A visão do Templo restaurado com o retorno da glória e o rio de vida completou o arco teológico do livro, do julgamento que faz partir a glória à restauração que a faz retornar em plenitude.

          Conteúdo Bônus

          - Indicação de Leitura (A Teologia da Presença e o Templo)
          Obra: O Templo e a Missão da Igreja, de G. K. Beale (Edições Vida Nova).
          Por que explorar este material? A aula culmina no tópico da “visão do carro-trono” (Ezequiel 1). G. K. Beale é um mestre em traçar a teologia da habitação de Deus desde o Éden até o Apocalipse. Ao ler os capítulos dedicados à literatura exílica nesta obra, você compreenderá a tragédia da glória partindo do Templo (Ez 10) e a esperança majestosa de seu retorno ao Templo escatológico nos capítulos finais de Ezequiel (Ez 40-48). Beale demonstra de forma irrefutável que o objetivo final de YHWH não é residir em estruturas de pedra, mas transformar Seu próprio povo no santuário vivo.

          - Indicação de Recurso Audiovisual (Mapeamento Simbólico e Estrutural)
          Obra: Vídeos “Visão Geral: Ezequiel 1-33” e “Visão Geral: Ezequiel 34-48” do canal BibleProject - Português (Disponíveis no YouTube e no site oficial).
          Por que explorar este material? Devido à natureza altamente visual, surreal e onírica das profecias de Ezequiel, a arte gráfica é uma aliada indispensável. Os vídeos dividem o livro exatamente onde o tom muda da condenação iminente para o consolo futuro. A representação visual do carro-trono (com as querubins e as rodas cheias de olhos) e a arrepiante visão do vale de ossos secos (Ez 37) ajudarão você a consolidar a mensagem central do livro: mesmo quando Israel está espiritualmente morto e reduzido a poeira no exílio, o fôlego (Ruah) de Deus possui o poder soberano para recriar a nação do zero.

          Referência Bibliográfica
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          DONNER, Herbert. História de Israel e dos povos vizinhos: dos primórdios até a formação do estado. 6. ed. São Leopoldo: Sinodal/EST, 2011. v. 1.
          DONNER, Herbert. História de Israel e dos povos vizinhos: da época da divisão do reino até Alexandre Magno. 5. ed. São Leopoldo: Sinodal/EST, 2011. v. 2.
          LASOR, William Sanford; HUBBARD, David Allan; BUSH, Frederic Wm. Introdução ao Antigo Testamento. 2. ed. São Paulo: Vida Nova, 1999.
          NAKANOSE, S. et al. Uma história de Israel: leitura crítica da Bíblia e arqueologia. São Paulo: Paulus, 2011.
          PEETZ, Melanie. O Israel bíblico: história, arqueologia, geografia. Petrópolis: Vozes, 2016.
           SKA, Jean-Louis. Antigo Testamento, 1: introdução. São Paulo: Loyola, 2017.
          SKA, Jean-Louis. Antigo Testamento, 2: temas e leituras. São Paulo: Loyola, 2017.
          SKA, Jean-Louis. O canteiro do Pentateuco: problemas de composição e de interpretação: aspectos literários e teológicos. São Paulo: Paulus, 2016.
          WALTKE, Bruce K. Teologia do Antigo Testamento: uma abordagem exegética, canônica e temática. São Paulo: Vida Nova, 2010.
          WALTON, John H. O pensamento do Antigo Oriente Próximo e o Antigo Testamento: introdução ao mundo conceitual da Bíblia hebraica. São Paulo: Vida Nova, 2010.
          WALTON, John H.; MATTHEWS, Victor H.; CHAVALAS, Mark W. Comentário histórico-cultural da Bíblia: Antigo Testamento. Belo Horizonte: Editora Vida, 2003.