

























Há pecados do púlpito que fazem barulho. Outros entram de mansinho, quase sempre vestidos de utilidade. O plágio costuma vir assim. Não chega dizendo “roube”. Chega sussurrando: “use só desta vez”, “ninguém vai perceber”, “isso já está na internet mesmo”, “o povo precisa é da mensagem, não importa de onde veio”, “você está sem tempo”, “afinal, é tudo para Deus”. E justamente por falar baixo, ele se torna perigoso.
A ética da pesquisa homilética começa onde o caráter do pregador encontra seus hábitos secretos. Antes do sermão ser ouvido, ele já foi colhido, lido, anotado, organizado, citado ou copiado. É nesse subterrâneo do gabinete que a honestidade intelectual se revela. Jilton Moraes trata desse ponto com rara franqueza ao narrar a frustração de um jovem que admirou o sermão do seu pastor, mas descobriu depois que ele havia simplesmente impresso e apresentado como seu o sermão de outro pregador, inclusive com ilustrações pessoais alheias. Moraes chama isso pelo nome devido: apropriação indébita, desonestidade, falha contra o autor, contra os ouvintes, contra Deus e contra o próprio pregador.
A Arte e o Ofício da Pregação Bíblica vai na mesma direção ao afirmar que o plágio ocorre sempre que passamos adiante as palavras ou a ideia de alguém como se fossem nossas e que, no caso do pregador comprometido com a veracidade, isso é roubo. O texto adverte ainda para a prática de plagiar sermões inteiros de livros ou da internet e apresentá-los como próprios.
Essa aula, portanto, não trata de etiqueta acadêmica apenas. Trata de integridade diante de Deus, do povo e da própria vocação pastoral.
1. O púlpito é lugar de verdade ou de exibição
Jilton escreve que uma das marcas distintivas do sermão é a vida de quem o prega; se a pregação não for autenticada pela vida do pregador, suas palavras, por mais eloquentes que pareçam ser, serão simples exibição. Essa frase já seria suficiente para abrir a aula inteira. Porque o plágio não é apenas erro técnico. É manifestação de uma relação adoecida com a verdade e com o ministério.
Quando um pregador se apropria do trabalho alheio como se fosse seu, ele faz mais do que “economizar tempo”. Ele transforma o púlpito em vitrine de uma competência que não exerceu.
Exibe preparo que não teve, profundidade que não cavou, luta que não travou no texto, ilustrações que não viveu. O problema não é apenas jurídico ou acadêmico. É espiritual e pastoral.
Em outra passagem, Moraes lembra uma palavra de Stott: os pregadores não são preletores livres para discursar sobre temas ligados às suas crenças e experiências sem compromisso com a mensagem; são pessoas comprometidas com aquilo que pregam e, por isso, deveriam ser, dentre todas as pessoas, as mais honestas. O verbo aqui quase se impõe: deveriam. Porque a honestidade não é adereço do púlpito. É sua espinha dorsal.
2. O que é plágio, afinal?
Convém definir com clareza. A Arte e o Ofício da Pregação Bíblica diz que o plágio ocorre sempre que passamos adiante as palavras ou a ideia de alguém como se fossem nossas. O autor admite algo muito humano: às vezes lemos uma formulação brilhante, gostaríamos de ter sido capazes de dizê-la daquele modo e somos tentados a usá-la como se fosse nossa. Se o fazemos, diz ele, não estamos sendo verdadeiros.
Essa definição é importante porque amplia nossa percepção. Plágio não é apenas copiar um sermão inteiro de um site. Isso é a forma mais grosseira. Mas o problema também pode aparecer quando:
- se reproduz uma frase exclusiva sem dar crédito,
- se usa a ideia estruturante de outro como se fosse descoberta própria,
- se contam ilustrações pessoais alheias como se fossem experiências vividas,
- se apresenta esboço de outro pregador como fruto do próprio estudo,
- ou se recicla material de terceiros sem reconhecimento da fonte.
Jilton é particularmente duro quando fala do caso de um pastor que usou até ilustrações pessoais de outro colega como se fossem suas. Para ele, isso falha com o autor, com os ouvintes, com Deus e com o próprio pregador.
Ou seja: o plágio não se limita à letra copiada. Ele toca a autoria, a transparência e a veracidade do ministério.
O plágio é roubo, mas também é covardia espiritual
Quando A Arte e o Ofício da Pregação Bíblica chama o plágio de roubo, o faz com precisão moral.
Mas talvez possamos dizer também que ele é uma forma de covardia espiritual. Porque o pregador plagia, muitas vezes, para não encarar a dureza santa do processo homilético:
- lutar com o texto,
- organizar o pensamento,
- sofrer o trabalho da síntese,
- reconhecer a própria limitação,
- pedir ajuda a Deus,
- e crescer lentamente na tarefa.
Jilton toca exatamente nisso ao dizer que, quando o pregador se apropria indevidamente de sermões alheios, despreza a oportunidade de crescer no estudo da Palavra, da teologia e das demais ciências, bem como no preparo e aprimoramento de material autêntico. Essa observação é fortíssima. O plágio não apenas engana os outros; ele interrompe a formação do próprio pregador.
É como um aluno que frauda a prova e, ao mesmo tempo, frauda a si mesmo, porque escapou da nota baixa, mas também da aprendizagem.
Apoiar-se em outros não é pecado; esconder a fonte, sim
Aqui é preciso fazer uma distinção madura. Pregadores sempre se apoiaram em outros pregadores. Ler comentários, consultar teólogos, ouvir sermões, observar construções homiléticas, aprender com formulações mais felizes — tudo isso faz parte da tradição saudável do ministério.
A Arte e o Ofício da Pregação Bíblica reconhece isso explicitamente. Os pregadores devem, sim, beneficiar-se de conceitos, comentários e até construções de sermões oferecidos por outros. Em certos casos, ideias já circulam amplamente e pertencem quase ao domínio comum; em outros, especialmente quando a contribuição é mais exclusiva, precisamos identificar de quem nos beneficiamos. O texto observa, com notável simplicidade, que isso não é difícil e pode ser feito oralmente, no telão ou no boletim.
Essa passagem é muito importante porque nos salva de dois extremos:
o da ingenuidade autoral, que pensa que o pregador trabalha sozinho e do nada,
e o da desonestidade, que transforma dependência legítima em apropriação oculta.
O problema não é aprender com outros. O problema é usar os outros sem verdade.
Sites de sermões: fonte de leitura, não material de consumo
Jilton oferece aqui uma orientação pastoral muito concreta e extremamente atual. Ele reconhece que existem sites especializados em disponibilizar sermões e afirma que eles podem ser úteis como fonte de leitura para o pregador. No entanto, deixa a advertência sem ambiguidade: jamais como material homilético de consumo. Se o pregador eventualmente apresentar um sermão que não foi por ele elaborado, o procedimento ético é declarar a fonte.
A expressão “material homilético de consumo” é particularmente feliz. Porque descreve uma mentalidade que cresceu muito na era digital: a de que o sermão virou conteúdo pronto para ser baixado, impresso, adaptado e usado como produto. Esse hábito faz mal não apenas à ética, mas à teologia da pregação. Afinal, o sermão não é mercadoria; é fruto de mordomia diante da Palavra.
Essa observação conversa diretamente com os desafios da era digital, que virão na próxima aula. A internet ampliou acesso, facilitou consulta, expandiu repertório — e, ao mesmo tempo, multiplicou tentações.
Honestidade intelectual começa na exegese
A Arte e o Ofício da Pregação Bíblica dá um passo ainda mais fundo ao afirmar que a veracidade começa com a boa exegese. Como a Palavra foi dada em linguagem humana, ela exige interpretação. O abuso começa quando o pregador conscientemente manipula o significado do texto para agradar, impressionar, “melhorar” o sermão ou reunir adeptos. Somos responsáveis por apresentar a verdade clara como a encontramos no texto.
Esse ponto amplia nossa aula para além do plágio estrito. Há desonestidade intelectual também quando o pregador:
- força o texto a dizer o que não diz,
- exagera números ou estatísticas,
- embeleza histórias para fortalecer seu ponto,
- usa dados duvidosos como se fossem seguros,
- ou manipula a interpretação para torná-la mais atraente.
O mesmo trecho adverte contra histórias embelezadas e “números evangelásticos”, lembrando que nossos pontos nunca são fortalecidos quando distorcemos a verdade a nosso favor, nem mesmo quando pensamos estar servindo ao evangelho.
Essa é uma correção decisiva. Honestidade intelectual na pesquisa homilética não é só citar fonte. É também não manipular texto, dados ou narrativas para vencer o auditório.
A verdade no púlpito inclui liberdade e responsabilidade
No capítulo sobre ética no púlpito, Jilton diz que a pregação evangélica há de ser elaborada e praticada considerando a liberdade dos ouvintes e a responsabilidade do pregador. Como proclamação da Palavra para alcançar corações aflitos e necessitados, a comunicação no púlpito não pode prescindir da ética.
Essa observação nos ajuda a perceber que o plágio e a desonestidade intelectual não ferem apenas o autor original. Ferem também o ouvinte. Porque o ouvinte confia que está sendo pastoreado por alguém que trabalhou honestamente diante de Deus e da Palavra. Quando descobre que foi enganado, algo da confiança ministerial se quebra.
Jilton registra exatamente isso no caso do jovem frustrado ao descobrir o sermão copiado. A admiração transformou-se em decepção não só pela beleza do material roubado, mas pela ausência de honestidade do pastor. A consequência pastoral do plágio é devastadora: ele não compromete apenas um sermão; compromete credibilidade.
Como usar fontes de modo ético
Talvez aqui caiba alguma orientação bem prática.
Usar fontes eticamente envolve pelo menos cinco atitudes:
Ler amplamente, mas escrever com verdade
O pregador pode e deve ler outros. Mas, ao construir seu sermão, precisa saber o que é fruto direto de seu trabalho e o que recebeu de outros.
Citar quando a dependência for específica
Se uma formulação, estrutura, frase ou insight vier claramente de uma fonte particular, o mais honesto é reconhecê-la.
Não usar ilustrações pessoais alheias como se fossem suas
Jilton mostra que isso produz decepção profunda e configura desonestidade grave.
Não copiar sermões inteiros ou em larga medida
Mesmo que “funcionem”, mesmo que “sejam bons”, mesmo que “ninguém perceba”, continuam sendo alheios.
Transformar leitura em aprendizado, não em consumo
Sites, livros, comentários, sermões e esboços servem para formar o pregador, não para substituí-lo.
Corpo, alma e espírito na honestidade homilética
Como eixo formativo da disciplina, esta aula também pode ser lida a partir da integração entre corpo, alma e espírito.
Corpo
Aqui o corpo aparece nos hábitos concretos da pesquisa: anotar fontes, organizar leituras, registrar referências, revisar o que se escreveu, distinguir citação de paráfrase, criar disciplina de trabalho. Honestidade também tem rotina.
Alma
A alma é talvez o lugar mais exposto nesta aula. Vaidade, preguiça, medo de não corresponder, ansiedade por desempenho, desejo de parecer brilhante — tudo isso alimenta o plágio. O pregador honesto precisa lutar menos por parecer capaz e mais por ser verdadeiro.
Espírito
No espírito, permanece a consciência de que o sermão é buscado no Senhor da pregação, não furtado de outros pregadores, como diz Jilton ao afirmar que o plagiador falha com Deus ao buscar em outros, e não nele, o sermão a ser pregado. Isso não anula o estudo; santifica-o.
Síntese da aula
Plágio e honestidade intelectual são questões centrais da ética homilética porque tocam a veracidade do pregador diante de Deus, dos ouvintes e da própria Palavra. O plágio não é simples atalho; é roubo, desonestidade e interrupção do crescimento ministerial. Ao mesmo tempo, apoiar-se em outros pregadores e autores é legítimo, desde que isso seja feito com transparência e discernimento. A ética da pesquisa homilética exige boa exegese, uso honesto de fontes, recusa da manipulação e compromisso radical com a verdade.
Em frase breve: o pregador fiel pode aprender com muitos, mas nunca deve subir ao púlpito vestindo como sua a roupa intelectual de outro.
A pregação na era digital: desafios da atenção e das redes sociais
O pregador do nosso tempo não sobe ao púlpito falando para uma plateia virgem de vozes. Ele fala para gente já atravessada por notificações, cortes rápidos, vídeos curtos, opiniões instantâneas, disputas públicas, imagens incessantes e um fluxo quase ininterrupto de estímulos. O auditório chega com a mente ocupada antes mesmo do sermão começar. E isso muda muita coisa.
Não muda a autoridade da Palavra. Não muda a centralidade da pregação. Não muda a necessidade da exposição fiel das Escrituras. Mas muda, sim, o ambiente da escuta. John Stott já percebia, ainda na época da televisão, que os pregadores precisavam levar em conta que sua congregação estava sendo condicionada pela mídia e que já não era possível pressupor automaticamente que as pessoas desejassem ouvir sermões ou sequer tivessem capacidade de escutá-los da mesma maneira de antes (STOTT, 2003). Jilton Moraes, em chave semelhante, observa que “os tempos mudaram” e que o século XXI é marcado por um declínio do púlpito, por empobrecimento da mensagem e por uma situação em que ouvir ou deixar de ouvir certos sermões já não parece fazer diferença para muitos ouvintes (MORAES, 2013).
A questão, então, não é se devemos pregar na era digital. A questão é como pregar fielmente numa cultura de atenção fragmentada, velocidade alta, exposição pública permanente e redes sociais que moldam percepção, desejo e discurso.
A era digital não destruiu a pregação, mas alterou o ambiente da escuta
Há um erro fácil de cometer aqui. Alguns tratam o mundo digital como se fosse o inimigo absoluto da pregação. Outros o abraçam como se ele fosse o grande salvador da comunicação cristã. Nenhum dos extremos ajuda.
Stott, falando da televisão, já rejeitava tanto o reacionarismo quanto a ingenuidade. Ele dizia que não fazia sentido destruir os aparelhos ou sonhar com uma volta impossível ao período pré-TV; a questão mais séria era discernir tanto os danos quanto os potenciais do meio de comunicação e responder a ele com disciplina, criticidade e responsabilidade cristã (STOTT, 2003). Essa observação continua notavelmente atual. Troque-se “televisão” por “ambiente digital”, e o princípio permanece.
O problema, portanto, não está em existir mídia, internet ou redes sociais. O problema está em:
- como elas moldam expectativas,
- como fragmentam atenção,
- como reforçam superficialidade,
- e como acostumam o ouvinte a um consumo veloz de conteúdo.
Paul Scott Wilson formula isso de maneira muito útil ao dizer que a era da internet influencia a forma como as pessoas ouvem a pregação: elas desejam informação em porções menores, querem relevância imediata e pressionam as formas do sermão a se ajustarem a períodos de atenção mais curtos (WILSON, 2020).
Isso não anula a pregação. Mas exige consciência nova do contexto.
O auditório já chega moldado por outra pedagogia
Toda cultura ensina seus membros a ouvir. A era digital também.
Stott observava que a mídia de massa, especialmente a televisão, tinha força formadora sobre valores, hábitos e padrões de recepção, e por isso os pregadores não podiam ignorar o fato de que sua congregação já vinha condicionada por esse universo (STOTT, 2003). Hoje, essa percepção se intensificou. O digital não apenas informa; ele treina a atenção.
Wilson aprofunda esse ponto ao mostrar que a internet produz hábitos de escuta marcados por:
- expectativa de rapidez,
- preferência por blocos curtos,
- busca por relevância imediata,
- menor paciência para percursos longos,
- e maior sensibilidade à forma visual da comunicação (WILSON, 2020).
Em outras palavras: o ouvinte contemporâneo, em muitos casos, foi discipulado por outra pedagogia antes de sentar-se diante do sermão. Ele aprendeu a:
- passar adiante rápido,
- decidir em segundos,
- abandonar o que parece lento,
- e esperar estímulo constante.
Isso ajuda a entender por que alguns púlpitos soam tão distantes hoje. Não porque a verdade tenha perdido vigor, mas porque o pregador ainda fala como se a cultura da escuta não tivesse mudado.
As redes sociais radicalizam tendências já presentes
Ainda que parte da bibliografia clássica fale mais diretamente de televisão, mídia de massa e internet, é possível perceber que as redes sociais radicalizam essas mesmas dinâmicas. Elas comprimem o tempo, aceleram o juízo, fragmentam o discurso, premiam reação rápida, fortalecem o eu como centro interpretativo e tornam o ambiente comunicacional mais emocionalmente instável.
Timothy Keller descreve o ambiente contemporâneo como modernidade tardia, marcada por uma intensificação do individualismo e pela convicção de que o eu tem poder não apenas para descobrir, mas para definir sentido, realidade e verdade (KELLER, 2017). Embora ele não esteja falando apenas de redes sociais naquele trecho, seu diagnóstico ajuda muito a compreendê-las. As redes tendem a amplificar esse “eu soberano”:
- minha opinião,
- minha narrativa,
- meu recorte,
- minha indignação,
- minha leitura,
- minha versão da verdade.
Nessa atmosfera, a pregação encontra um desafio profundo. O sermão cristão não nasce do eu, mas da Palavra. Não parte da autoexpressão, mas da revelação. Não existe para confirmar a autonomia do ouvinte, mas para chamá-lo ao arrependimento, à fé e à obediência.
O desafio da atenção: menos paciência, mais dispersão
Talvez este seja o aspecto mais visível do problema. O ambiente digital não destruiu a capacidade humana de ouvir, mas a tornou mais disputada. Há mais concorrência por atenção do que em qualquer outra época.
Wilson nota que, na era da internet, as pessoas querem informações mais práticas e imediatas, e que isso pressiona o sermão a repensar sua forma (WILSON, 2020). Jilton Moraes, em sua reflexão sobre os ouvintes, já havia insistido que o pregador precisa ter percepção realista de como seus sermões são recebidos, sem se iludir com hábitos de escuta que já não existem da mesma maneira (MORAES, 2013).
Isso não significa que o sermão precise imitar a lógica da internet. A tarefa não é transformar a pregação em feed. Mas significa que o pregador precisa:
ganhar atenção de forma mais consciente,
organizar melhor a mensagem,
evitar dispersão interna,
tornar a progressão mais perceptível,
e comunicar com mais clareza e intencionalidade.
A era digital não torna a exposição desnecessária. Torna a desorganização ainda mais fatal.
O perigo de responder mal ao tempo presente
Diante disso, muitos púlpitos caem em uma de duas reações erradas.
A reação reativa
Aqui o pregador despreza completamente a cultura ao redor. Fala como se nada tivesse mudado. Ignora linguagem, escuta, repertório, dúvidas e atenção dos ouvintes. O resultado costuma ser ortodoxia isolada, correta, mas pouco comunicável.
A reação mimética
Aqui o pregador decide copiar a lógica do digital: excesso de estímulo, frases de efeito, cortes dramáticos, superficialidade, performance permanente, teologia comprimida demais e dependência emocional do impacto instantâneo. O resultado é uma pregação que já não resiste ao peso da Palavra.
Stott viu algo semelhante em sua época quando lamentou a tragédia de conservadores que eram bíblicos, mas não contemporâneos, e de liberais que eram contemporâneos, mas não bíblicos (STOTT, em análise histórica). Essa tensão permanece viva. O desafio do pregador é não escolher entre verdade e relevância, mas servir à verdade com relevância fiel.
O pregador precisa ouvir a Palavra e o mundo
Aqui Stott continua sendo um mestre necessário. Seu princípio da dupla escuta — ouvir a Palavra e ouvir o mundo — aparece como disciplina indispensável à missão e ao discipulado cristãos. Ele insistia que devemos escutar a Palavra com humilde reverência e o mundo com alerta crítico, buscando compreender como o evangelho se relaciona com os dilemas, medos e frustrações modernos sem comprometer sua verdade (STOTT, em análise histórica).
Isso tem implicações diretas para a era digital:
- o pregador precisa entender como as pessoas pensam hoje,
- o que as redes lhes ensinaram sobre verdade e identidade,
- o que o ambiente digital fez com sua paciência,
- como a ansiedade pública afetou a escuta,
- e quais narrativas culturais estão moldando sua imaginação.
Mas ele não ouve tudo isso para submeter o evangelho ao algoritmo. Ouve para pregar com maior precisão missionária.
A forma do sermão pode precisar de ajustes, o centro não
Em contextos digitais, o pregador pode precisar:
- introduzir melhor,
- dividir com mais clareza,
- construir progressão mais perceptível,
- usar linguagem mais limpa,
- evitar desvios longos,
- escolher ilustrações mais bem calibradas,
- e ser mais rigoroso com tempo e foco.
Tudo isso é adaptação legítima. O que não pode mudar é:
- a centralidade da Escritura,
- a necessidade da exposição,
- a gravidade do pecado,
- a suficiência de Cristo,
- a chamada ao arrependimento,
- e a dependência do Espírito Santo.
Keller afirma que a boa pregação em contexto contemporâneo precisa identificar as narrativas culturais predominantes para desconstruí-las e responder a elas com o evangelho, não simplesmente ignorá-las (KELLER, 2017). Isso exige sermões mais atentos à cultura, mas não menos bíblicos.
O púlpito não deve competir com a rede, mas oferecer o que a rede não dá
Talvez essa seja uma das frases mais úteis desta aula. O pregador perde quando tenta competir com a rede social no terreno da rede social. Ela sempre será mais rápida, mais visual, mais incessante, mais instantânea. O púlpito não foi feito para vencer o feed em velocidade. Foi feito para oferecer profundidade, presença, verdade encarnada, exposição paciente e encontro comunitário diante de Deus.
A rede social oferece:
- reação,
- fluxo,
- exposição,
- fragmento,
- performance,
- velocidade.
O púlpito, em seu melhor, oferece:
- peso,
- escuta,
- explicação,
- encontro,
- verdade,
- chamada à obediência.
Por isso, a pregação na era digital não deve se tornar menos sermão. Precisa tornar-se melhor sermão.
A igreja precisa aprender a resistir liturgicamente à dispersão
Há também uma tarefa eclesial aqui. Stott dizia que os cristãos não deveriam apenas criticar a mídia, mas penetrar seu mundo construtivamente e, ao mesmo tempo, responder com disciplina e discernimento aos seus efeitos formativos (STOTT, 2003). Isso sugere que a igreja não deve apenas ajustar a pregação, mas formar hábitos de atenção santos.
Isso inclui:
- valorizar o momento da Palavra,
- ensinar escuta reverente,
- disciplinar o uso distraído de dispositivos no culto,
- cultivar leitura bíblica mais profunda,
- e resistir à mentalidade de consumo rápido da mensagem.
Em certo sentido, a liturgia inteira pode funcionar como resistência pedagógica à dispersão digital.
Corpo, alma e espírito na pregação da era digital
Como eixo formativo da disciplina, esta aula também pode ser lida a partir da integração entre corpo, alma e espírito.
Corpo
O corpo do ouvinte foi treinado por telas: olhos rápidos, atenção fragmentada, inquietação, busca constante por novidade. O corpo do pregador, por sua vez, precisa aprender a comunicar com clareza, ritmo e presença num ambiente cultural de dispersão.
Alma
A alma contemporânea está marcada por comparação, velocidade, ansiedade, sobrecarga informacional, autocentralidade e desejo de validação. O pregador precisa levar isso a sério. Também sua própria alma está em risco: ele pode passar a medir o ministério por alcance, cliques, repercussão e circulação digital.
Espírito
No espírito, permanece a verdade maior: o poder da pregação não está no meio, mas no Deus que fala por sua Palavra. O Espírito Santo continua sendo capaz de abrir o coração do ouvinte em meio a uma cultura saturada de ruídos. Isso não nos torna ingênuos; torna-nos esperançosos.
Síntese da aula
A pregação na era digital enfrenta ouvintes moldados por mídia, internet e redes sociais, em um ambiente de atenção fragmentada, individualismo intensificado e expectativas comunicacionais alteradas. Esse cenário exige do pregador consciência cultural, dupla escuta, maior intencionalidade na forma e mais clareza no desenvolvimento da mensagem. Contudo, a resposta cristã não está nem na negação reativa do mundo digital nem na imitação servil de sua lógica. Está em pregar a mesma Palavra eterna com discernimento contemporâneo, sem perder o centro do evangelho.
Em frase breve: na era digital, o púlpito serve melhor quando não tenta parecer uma rede social, mas quando oferece, com fidelidade e profundidade, aquilo que nenhuma rede consegue entregar.
Diagnóstico da Pregação Atual: chega de despreparo
Nem todo púlpito em crise parece estar em crise. Às vezes o auditório cresce, a agenda segue cheia, a igreja canta com vigor, o sermão arranca alguns “améns”, e ainda assim algo está doente. O problema não é sempre a ausência de fala, mas a ausência de peso. Não é sempre o silêncio do pregador, mas a fragilidade do que ele entrega. Há púlpitos que continuam funcionando e, no entanto, já não alimentam como deveriam. Parecem vivos, mas perderam densidade. Falam muito, marcam pouco. Tocam a superfície, raramente o centro.
Jilton Moraes percebe isso com agudeza quando, na introdução de Homilética: do ouvinte à prática, afirma que vivemos um tempo em que o relativismo religioso enfraqueceu terrivelmente a pregação; pouco se fala da cruz, muito se fala das bênçãos, sermões éticos entram em desuso e “o povo está com fome da Palavra de Deus”, exigindo com urgência que a Palavra da verdade volte a ser explanada fielmente. Essa não é uma observação periférica. É um diagnóstico. E, como todo diagnóstico sério, ele precisa ser encarado sem vaidade e sem pressa de defesa.
O prefácio de Homilética: do púlpito ao ouvinte vai na mesma direção ao dizer que pesa sobre o proclamador do evangelho a responsabilidade de se preparar adequadamente para desincumbir-se da melhor maneira possível da sua tarefa ministerial. Em outras palavras: uma parte importante da crise do púlpito não está apenas “lá fora”, na cultura, nas redes, na distração dos ouvintes. Está também no próprio pregador, quando sobe sem o preparo, a reverência, a disciplina e a seriedade que a tarefa exige.
É por isso que esta aula precisa ser franca. Ela não foi pensada para bajular o ministério da pregação, mas para purificá-lo. O tema aqui não é apenas apontar defeitos da pregação contemporânea. É ouvir o clamor por excelência e dizer, com caridade e coragem: chega de despreparo.
O primeiro sintoma da crise: confundir movimento com maturidade
Uma das ilusões mais perigosas do nosso tempo é supor que atividade intensa seja prova de saúde.
Na igreja, isso pode acontecer de muitas formas:
- muitos cultos,
- muita fala,
- muito conteúdo circulando,
- muitas mensagens online,
- muitos pregadores disponíveis,
- muita repercussão,
- e pouco alimento sólido.
Jilton registra, com lucidez, a reação entusiasmada de jovens cristãos diante da previsão de crescimento evangélico no Brasil, e então desloca o foco da quantidade para a qualidade, lembrando a pergunta de Jesus sobre se o Filho do Homem encontraria fé na terra e insistindo que não basta celebrar crescimento numérico; é preciso buscar qualidade, discipulado, cruz e frutos dignos de nova vida.
Essa passagem é muito importante para a nossa aula porque mostra que o diagnóstico da pregação atual não pode ser feito apenas com base em volume de atividade. Uma igreja pode crescer e empobrecer. Um púlpito pode produzir entusiasmo e ainda assim falhar em formar discípulos. O despreparo nem sempre impede o movimento; muitas vezes, ele só impede a profundidade.
O despreparo não é apenas falta de técnica; é falha de vocação
Quando dizemos “chega de despreparo”, seria fácil reduzir isso a um chamado por melhor oratória, melhores divisões, melhores introduções. Tudo isso importa, mas o problema é mais fundo. O despreparo começa antes da técnica. Começa quando o pregador não sente mais o peso da tarefa.
O prefácio de Homilética: do púlpito ao ouvinte insiste que a pregação da Palavra é uma das áreas mais importantes no preparo de quem é chamado por Deus e que, para não envergonharmos Aquele que nos comissionou, devemos nos preparar adequadamente e manejar bem a Palavra da verdade. Aqui o preparo aparece não como luxo, mas como dever ministerial.
Isso significa que o despreparo não é simples desorganização eventual. Ele é, em muitos casos, uma falha de consciência vocacional. O pregador sobe ao púlpito como se estivesse lidando com qualquer discurso, qualquer aula, qualquer apresentação. Mas o púlpito não é território neutro. É lugar de Palavra santa entregue a pessoas famintas. Por isso, improviso crônico, negligência intelectual, pobreza exegética e ausência de zelo não podem ser tratados como detalhes secundários.
O povo está com fome da Palavra, não de improviso religioso
Jilton escreve com força: “O povo está com fome da Palavra de Deus. Urge que essa Palavra da Verdade que transforma e liberta volte a ser explanada fielmente”. Esta frase precisa ser ouvida de novo. Porque ela muda a maneira de olhar o auditório. O povo não precisa apenas de eventos, slogans espirituais, frases bem embaladas ou falas energizadas. Precisa de pão.
Essa percepção conversa de modo interessante com Timothy Keller, que argumenta que a pregação expositiva deve ser a dieta principal da comunidade cristã porque comunica, ao longo do tempo, a convicção de que toda a Escritura é Palavra de Deus e precisa ser ouvida em sua integridade.
Embora Keller esteja discutindo primariamente o método expositivo, o princípio serve aqui com força: o despreparo do púlpito quase sempre aparece quando ele deixa de tratar a Escritura como alimento e passa a tratá-la como pretexto.
Um púlpito despreparado troca:
- o texto por impressões,
- a pesquisa por improviso,
- a reverência por desenvoltura,
- a cruz por triunfalismo,
- e a formação do povo por estímulo momentâneo.
Quando a cruz some, o púlpito adoece
Na introdução já citada, Jilton faz um diagnóstico particularmente doloroso: “Pouco se fala da cruz; a ênfase é no trono. As aflições não existem, só bênçãos, e, em termos comportamentais, tudo parece liberado.” Essa formulação é preciosa porque mostra que o problema da pregação atual não é apenas de forma; é também de conteúdo e ênfase.
O púlpito se enfraquece quando:
- a cruz vira detalhe,
- o discipulado perde custo,
- o arrependimento desaparece,
- os sermões éticos entram em desuso,
- e o evangelho se transforma em promessa de vantagem sem chamado à morte do eu.
Isso não é apenas “uma linha teológica diferente”. É empobrecimento homilético com consequências espirituais sérias. Jilton chama atenção exatamente para isso ao dizer que muitas vantagens são oferecidas como recompensa por seguir Jesus, quando, na verdade, o resumo do seu convite é um chamado a negarmo-nos, tomarmos a cruz e o seguirmos.
O despreparo do púlpito pode se manifestar, portanto, não só na fala mal construída, mas também na coragem mal distribuída. Há pregadores tecnicamente organizados que, ainda assim, se mostram despreparados para anunciar o evangelho inteiro.
A pregação atual precisa de uma nova reforma de seriedade
A linguagem de Jilton aqui é deliberadamente forte: “Precisamos com urgência de uma nova Reforma.” Ele não usa essa expressão para produzir efeito histórico bonito, mas porque enxerga um descompasso grave entre a dignidade da pregação e a leveza com que ela pode ser tratada.
A necessidade dessa reforma aparece em pelo menos quatro áreas.
Reforma do conteúdo
Voltar à centralidade da Palavra, da cruz, do discipulado, do arrependimento e da nova vida.
Reforma do preparo
Recusar o improviso contínuo, o sermão de segunda mão, a superficialidade de gabinete e a ausência de estudo sério.
Reforma do caráter
Combater exibicionismo, vaidade, preguiça intelectual e desonestidade no manejo da mensagem.
Reforma da consciência pastoral
Lembrar que o povo não precisa apenas ser impressionado, mas alimentado e conduzido à prática.
Essa reforma não será feita por técnicas isoladas. Ela exige novo temor diante do púlpito.
Excelência não é performance, é responsabilidade
Quando se fala em excelência, alguns imaginam logo um pregador eloquente, seguro, refinado, impactante. Mas esse imaginário é pobre demais. A excelência do púlpito começa muito antes da performance pública. Ela nasce de responsabilidade.
O prefácio de Homilética: do púlpito ao ouvinte fala de “manejar corretamente a palavra da verdade” e de apresentar-se como obreiro aprovado, sem do que se envergonhar. Essa é uma definição muito mais bíblica de excelência. Não se trata primeiro de impressionar pela forma, mas de não envergonhar o Senhor da mensagem pela negligência no preparo.
Há excelente pregação em voz simples e esboço sóbrio. E há pregação medíocre em voz brilhante e estrutura vistosa. A excelência que o púlpito clama não é cenográfica. É moral, teológica, espiritual e homilética.
O pregador despreparado quase sempre está mais perto de si do que da Palavra
Existe uma relação profunda entre despreparo e autocentralidade. O pregador que não se demora diante da Escritura tenderá a subir ao púlpito com:
- suas ideias,
- suas impressões,
- suas frases prontas,
- suas urgências,
- seus maneirismos,
- e sua necessidade de preencher o tempo.
Já o pregador preparado sobe menos cheio de si e mais cheio do texto.
Por isso, o clamor por excelência é, no fundo, também um clamor por descentralização do pregador. Menos opinião, mais Palavra. Menos pressa, mais manejo correto. Menos plataforma, mais altar. Menos brilho pessoal, mais densidade bíblica.
O despreparo fere a igreja
Talvez seja importante lembrar que o problema aqui não é apenas a reputação do pregador. O púlpito despreparado não é defeito privado. É dano comunitário.
Quando a igreja recebe semana após semana:
- mensagens rasas,
- aplicações frouxas,
- textos mal tratados,
- cruz pouco anunciada,
- ou discipulado mal explicado,
ela vai sendo formada por essa pobreza. O prejuízo não é instantâneo apenas; é cumulativo. A igreja passa a:
- ouvir menos profundamente,
- pensar menos biblicamente,
- discernir menos,
- suportar menos densidade,
- e desejar mais estímulo do que alimento.
É por isso que o clamor por excelência não nasce de perfeccionismo acadêmico. Nasce de amor ao povo de Deus.
Diagnóstico sem desespero, mas com urgência
Há um risco ao tratar desse tema: cair num tom apenas amargo, como se nada prestasse e todo púlpito estivesse corrompido. Isso não seria justo nem saudável. A própria bibliografia que você reuniu demonstra o contrário: há pregadores sérios, igrejas famintas, mestres fiéis e obras comprometidas com restaurar a dignidade da pregação.
Mas também seria desonesto amenizar demais. Jilton fala em “urgência”. Fala em fome da Palavra. Fala em necessidade de nova Reforma. Fala em enfraquecimento terrível da pregação. Portanto, o tom adequado desta aula não é desespero, mas urgência esperançosa. O púlpito pode ser restaurado, mas não sem arrependimento, disciplina e renovação do temor.
Corpo, alma e espírito no clamor por excelência
Como eixo formativo da disciplina, esta aula também pode ser relida a partir da integração entre corpo, alma e espírito.
Corpo
O despreparo aparece no concreto: ausência de rotina de estudo, esboços frágeis, falta de revisão, desorganização, improviso, voz sem cuidado, entrega descuidada. A excelência também aparece concretamente: trabalho, disciplina, repetição, dedicação.
Alma
Na alma, o problema muitas vezes é orgulho, preguiça, autossuficiência, ansiedade por resultados rápidos ou acomodação. A excelência pede humildade para estudar, ouvir correção, rever o próprio sermão e admitir limitações.
Espírito
No espírito, tudo volta ao temor do Senhor. O pregador excelente não é o mais exibido, mas o mais consciente de que serve algo sagrado. O clamor por excelência é, no fundo, um clamor por reverência.
Síntese da aula
O diagnóstico da pregação atual exige coragem para reconhecer que nem sempre o movimento visível do púlpito corresponde à sua saúde real. Há sinais de empobrecimento quando a cruz desaparece, o discipulado perde custo, os sermões éticos rareiam e o preparo é tratado com leveza. Contra isso, levanta-se o clamor por excelência: não excelência performática, mas responsabilidade diante da Palavra, do povo e do Deus que chama pregadores a manejarem corretamente a verdade.
Em frase breve: chega de despreparo significa, antes de tudo, voltar a tremer diante da dignidade do púlpito.
O milagre da pregação: a dependência da unção e a busca pela perfeição técnica
Há duas tentações antigas no púlpito. A primeira diz: basta técnica. A segunda responde: basta unção. As duas parecem rivais, mas, na prática, muitas vezes se parecem mais do que imaginamos. Ambas tentam simplificar o mistério da pregação. Ambas querem uma resposta fácil para uma tarefa que Deus não tornou fácil. E ambas, quando aceitas sem discernimento, empobrecem o pregador.
John Stott formula um equilíbrio precioso ao afirmar que a perícia, por si mesma, não basta: o pregador deve viver sua mensagem, permitir que o Espírito Santo opere por meio dele e crer que a pregação no poder do Espírito transforma vidas (STOTT, 2003, p. 9). Já Martyn Lloyd-Jones, na formulação célebre retomada por Stott, disse que pregação é “lógica pegando fogo”, “teologia em chamas” e “teologia extravasando de um homem em fogo” (STOTT, 2003, p. 304).
Poucas imagens são tão úteis para esta aula quanto essa. Lógica sem fogo pode se tornar frieza bem organizada. Fogo sem lógica pode se tornar fervor sem direção. A grande tarefa do pregador cristão é não escolher entre verdade e paixão, entre preparo e dependência, entre técnica e unção.
É aprender a servir a Palavra com o melhor da disciplina humana e com a mais profunda consciência de que o resultado final pertence a Deus.
A pregação tem algo de oficina e algo de altar
Talvez a melhor maneira de começar seja esta: a pregação cristã acontece entre a oficina e o altar.
Na oficina, o pregador estuda, organiza, delimita, interpreta, estrutura, escolhe palavras, revê transições, decide o tom, cuida da clareza. Na oficina, não há espaço para romantização da preguiça. Jilton Moraes lembra, no prefácio de Homilética: do púlpito ao ouvinte, que pesa sobre o proclamador do evangelho a responsabilidade de preparar-se adequadamente para se desincumbir da melhor maneira possível de sua tarefa ministerial (MORAES, 2008, p. 8).
Mas há também o altar. E no altar o pregador se lembra de que, mesmo após todo preparo possível, há algo que ele não produz. Carl Trueman, ao analisar Lloyd-Jones, faz uma distinção muito útil: quanto aos aspectos técnicos da construção e da transmissão do sermão, o pregador é agente; quanto ao impacto final da mensagem, Deus é o agente (FORREST et al., 2020, p. 350).
Essa distinção é de enorme valor pastoral. Ela impede duas ilusões:
- a de que o pregador pode fabricar transformação apenas com método,
- e a de que ele pode apelar ao milagre para justificar negligência.
A técnica é necessária, mas não é salvadora
A palavra técnica às vezes assusta gente piedosa, como se cheirasse a artificialidade. Mas isso é um mal-entendido. Técnica, no sentido mais simples, é o conjunto de meios que ajuda o pregador a servir melhor a mensagem. É estrutura, clareza, seleção, voz, progressão, domínio do texto, economia verbal, adequação da forma. Sem isso, a fidelidade pode até existir como intenção, mas raramente chegará inteira ao ouvinte.
Stott observa, ainda no prefácio de Eu creio na pregação, que o pregador precisa manter um pé na Bíblia e outro no mundo contemporâneo, e que os capítulos sobre estudo e preparo estão cheios de sabedoria prática. Mas ele logo acrescenta: “a perícia por si mesma não basta” (STOTT, 2003, p. 9).
Essa frase é importante justamente porque preserva a técnica em seu devido lugar. Ela é necessária, mas não última.
O mesmo vale para Haddon Robinson, cuja visão da pregação expositiva parte do estudo histórico, gramatical e literário do texto e da submissão da ideia do sermão à ideia da passagem. Toda essa arquitetura técnica importa profundamente. Mas nem Robinson, nem Stott, nem Lloyd-Jones a tratariam como suficiente em si mesma.
Em linguagem mais simples: a técnica prepara o leito do rio. Mas não produz a água.
A unção não substitui o preparo; ela o atravessa
Aqui precisamos andar com cuidado. A palavra unção pode ser usada de forma vaga, triunfalista ou até teologicamente confusa. Carl Trueman, ao comentar Lloyd-Jones, chega a apontar problemas na forma como o tema foi por ele desenvolvido em certos aspectos. Ainda assim, reconhece que a intenção geral era boa: enfatizar a urgência existencial da pregação e o desejo de ver impacto real em vidas transformadas (FORREST et al., 2020, p. 350).
Isso nos ajuda muito. Mesmo quando discutimos nuances da doutrina da unção, podemos afirmar com segurança que a pregação cristã não é mero fenômeno técnico. Ela pede presença de Deus, dependência do Espírito, calor santo, convicção viva, urgência espiritual. Stott, comentando Lloyd-Jones, diz que a verdade e a paixão são ingredientes essenciais da pregação cristã (STOTT, 2003, p. 304).
A unção, então, não aparece como desculpa para desorganização, mas como a dimensão espiritual sem a qual a pregação se torna correta demais para ser viva. Ela não é licença para o improviso irresponsável. É o fogo que atravessa a lenha bem arrumada.
“Lógica em chamas”: uma das melhores fórmulas já dadas ao púlpito
Martyn Lloyd-Jones descreveu a pregação como “lógica em chamas”. O próprio Stott reconhece que ele colocou o dedo sobre uma questão crucial ao unir luz e fogo, verdade e paixão (STOTT, 2003, p. 304).
Essa expressão é brilhante porque impede duas caricaturas da pregação.
Sem lógica, o fogo se espalha mal
Há calor, há intensidade, há energia, mas falta percurso. O pregador pode até emocionar por instantes, porém não sustenta convicção profunda. O auditório sente, mas não compreende o bastante. A chama sobe, porém não ilumina.
Sem fogo, a lógica esfria
Há organização, precisão, talvez até elegância argumentativa. Mas falta vida. Falta o senso de urgência, de encontro com Deus, de verdade que arde. O auditório entende, mas não é alcançado em profundidade. A estrutura está montada, mas a casa não aquece.
Lloyd-Jones, na leitura de Trueman, queria exatamente evitar essas duas reduções. Para ele, a pregação precisava ser estruturada, argumentativa, teologicamente coerente e, ao mesmo tempo, marcada por confronto, urgência e impacto (FORREST et al., 2020, p. 350).
Talvez poucas frases resumam tão bem esta aula quanto esta: o sermão cristão precisa ser claro o suficiente para iluminar e vivo o suficiente para incendiar.
O milagre da pregação não está no sermão em si, mas no que Deus faz com ele
Há um ponto que precisa ser dito com toda clareza: o milagre da pregação não é o pregador conseguir falar bem. Também não é a mensagem sair exatamente como planejada. O milagre da pregação acontece quando Deus pega um sermão verdadeiramente humano — estudado, estruturado, limitado, verbalmente entregue por um vaso de barro — e o usa para abrir olhos, quebrantar corações, consolar aflitos, despertar fé, corrigir rotas, iluminar consciências e transformar vidas.
Trueman ajuda muito ao distinguir entre o ato técnico de construir e transmitir e o impacto do sermão, que pertence propriamente à ação divina (FORREST et al., 2020, p. 350). Essa afirmação alivia e pesa ao mesmo tempo. Alivia, porque o pregador não precisa salvar a igreja com a própria habilidade. Pesa, porque ele não pode usar essa verdade para relaxar o preparo.
A dependência correta do Espírito não enfraquece a disciplina. Purifica-a.
O perigo das alternativas falsas
Talvez um dos maiores males do púlpito seja tratar preparo e poder como alternativas. Stott rejeita exatamente isso ao dizer que a perícia, sozinha, não basta, e ao mesmo tempo pressupor que estudo e preparo são partes reais da tarefa do pregador (STOTT, 2003, p. 9).
As alternativas falsas costumam aparecer assim:
“Ou preparo, ou unção”
Como se estudar muito esfriasse o pregador, ou como se o fogo espiritual dispensasse estrutura.
“Ou técnica, ou espontaneidade”
Como se todo sermão bem construído fosse artificial, ou como se toda espontaneidade fosse sinal de vida.
“Ou excelência, ou humildade”
Como se buscar fazer o melhor possível significasse cair em exibicionismo.
Nada disso se sustenta. O pregador humilde busca excelência porque sabe a dignidade da tarefa. E o pregador excelente permanece humilde porque sabe que não controla o fruto.
A perfeição técnica não é perfeccionismo; é mordomia
A expressão “busca pela perfeição técnica” precisa ser bem compreendida. Não significa obsessão neurótica, nem busca de impecabilidade performática. Significa levar tão a sério a tarefa de pregar que o pregador se recusa a tratá-la de maneira relaxada.
Jilton, desde o primeiro volume da série, insiste no manejo correto da Palavra e no dever de apresentar-se como obreiro aprovado. O prefácio de Homilética: do púlpito ao ouvinte repete que pesa sobre o pregador a responsabilidade de preparar-se adequadamente (MORAES, 2008, p. 8).
Isso significa que a busca pela excelência técnica inclui:
- estudar melhor,
- organizar melhor,
- revisar melhor,
- ouvir melhor,
- pregar com mais clareza,
- aparar excessos,
- trabalhar transições,
- amadurecer o vocabulário,
- cuidar da voz, do tempo e da estrutura,
- e permanecer aprendendo.
Não é perfeccionismo. É mordomia. O pregador não busca excelência para parecer mais brilhante, mas para servir melhor.
O pregador precisa ser, ele mesmo, tocado pelo que prega
Há uma frase belíssima no prefácio de Stott: o pregador deve viver sua mensagem, e, por sua humildade e paixão, permitir que o Espírito Santo opere por meio dele (STOTT, 2003, p. 9). Isso recoloca tudo em ordem.
A unção não é uma espécie de energia mística colada ao sermão do lado de fora. Ela se relaciona também com a autenticidade do pregador diante da verdade que anuncia. Não se trata de perfeição moral absoluta, mas de realidade espiritual. O pregador não pode tratar o texto como engenheiro frio de um artefato verbal. Ele precisa ser, ele mesmo, lido pela Palavra.
É aqui que a técnica encontra sua temperatura correta. Quando o pregador foi primeiro aquecido pela verdade, sua organização não fica mecânica. Sua estrutura não soa morta. Sua clareza não se torna secura. A forma deixa de ser casca e vira condução viva.
Corpo, alma e espírito no milagre da pregação
Como eixo formativo da disciplina, esta aula também pode ser lida a partir da integração entre corpo, alma e espírito.
Corpo
O corpo entra no trabalho, na revisão, na voz, no fôlego, na entrega, na regularidade, na resistência e no aperfeiçoamento dos meios técnicos. O pregador precisa preparar-se concretamente.
Alma
A alma é testada em sua relação com orgulho, ansiedade, insegurança e desejo de reconhecimento. Também é nela que a paixão santa, a convicção e o zelo precisam habitar. Uma técnica excelente com alma fria produz sermões corretos e inertes.
Espírito
No espírito, tudo culmina. O pregador sabe que, por melhor que tenha trabalhado, ainda depende do agir de Deus. A unção não substitui a oficina, mas nenhum trabalho de oficina produz, por si só, o milagre da pregação. Só o Espírito faz da verdade bem anunciada uma verdade eficazmente aplicada.
Síntese da aula
O milagre da pregação acontece quando a Palavra fielmente estudada, estruturada e proclamada é tomada por Deus para produzir impacto real em vidas humanas. Por isso, técnica e unção não devem ser tratadas como alternativas. A técnica é necessária como expressão de responsabilidade e mordomia; a unção é indispensável como manifestação da dependência do Espírito e da vida da verdade no pregador. O púlpito excelente não escolhe entre fogo e forma, mas busca a difícil e bela união entre ambos.
Em frase breve: a pregação atinge sua grandeza quando a oficina humana trabalha com todo o rigor possível e, ainda assim, se ajoelha diante do fogo que só Deus pode acender.
Conteúdo bônus
1. O sermão impresso e a alma encolhida
A imagem é simples e dura. Um pregador entra no gabinete pressionado pelo tempo, cansado, talvez inseguro. Abre a internet, encontra um sermão bonito, bem amarrado, com boas ilustrações e aplicações convincentes. Imprime. Sobe ao púlpito. Prega. As pessoas até se emocionam.
Mas algo ficou para trás no caminho. O pregador não lutou com o texto, não amadureceu a mensagem, não carregou aquela verdade no secreto, não cresceu por meio dela. Entregou palavras prontas, mas perdeu a chance de ser, ele mesmo, moldado por aquilo que proclamava.
Talvez seja por isso que o plágio faça tão mal. Ele não rouba só de alguém. Rouba também do próprio pregador a graça formativa do trabalho honesto diante da Palavra.
2. Entre o feed e o fogo
Imagine duas cenas. Na primeira, alguém passa o dedo pela tela e consome, em menos de um minuto, dez opiniões, três indignações, quatro piadas, duas notícias e um devocional com música ao fundo. Na segunda, essa mesma pessoa senta-se diante da Palavra exposta, escuta um texto, acompanha um argumento, é confrontada, consolada e chamada a responder diante de Deus.
As duas experiências são radicalmente diferentes. Uma treina o reflexo. A outra pode, pela graça, formar o coração.
Talvez por isso a pregação, na era digital, tenha se tornado ainda mais necessária. Não porque o mundo digital seja incapaz de qualquer bem, mas porque o feed não substitui o fogo. A correnteza de conteúdos não substitui a voz de Deus ouvida na exposição fiel da Escritura.
3. A fome da mesa e a pressa do cozinheiro
Imagine uma família que chega à mesa com fome de verdade. Não fome de enfeite, nem de aroma apenas, nem de pratos bem fotografados. Fome de comida. Agora imagine que quem deveria cozinhar decide improvisar, reaproveitar qualquer coisa, servir apressadamente algo mal preparado e ainda esperar gratidão pelo simples fato de ter colocado algo sobre a mesa.
É difícil não perceber a injustiça da cena. E talvez ela diga mais sobre o púlpito do que gostaríamos de admitir.
O povo de Deus chega com fome da Palavra. Jilton o disse com todas as letras. O clamor por excelência nasce exatamente aqui: não do desejo de requinte, mas da urgência de alimento digno. O problema nunca foi a mesa estar simples. O problema é a refeição ser tratada sem amor.
4. A lenha e o fogo
Um velho pastor dizia a seus alunos: “Vocês não podem fabricar fogo do céu. Mas podem, pelo menos, parar de subir ao púlpito com a lenha molhada.”
A frase é simples e profunda. A lenha molhada é o sermão descuidado, o esboço frouxo, a exegese apressada, a estrutura mal pensada, a alma fria, a pressa irreverente. O fogo não é produzido pela lenha, mas também não se pode tratar a lenha de qualquer maneira e depois culpar a ausência de chama.
Talvez o melhor resumo desta aula esteja aí. O pregador não controla o fogo. Mas deve arrumar a lenha com temor, amor e honestidade. E, depois disso, pedir a Deus que faça o que nenhum método jamais fará sozinho.
Referências
MORAES, Jilton. Homilética: do púlpito ao ouvinte. São Paulo: Editora Vida, 2008.
ROBINSON, Haddon W.; LARSON, Craig Brian (org.). A arte e o ofício da pregação bíblica. São Paulo: Shedd, 2009.
