quinta-feira, 5 de maio de 2016

"O Carisma na Época dos Juízes"


        O ciclo da apostasia e libertação:
                    a atuação episódica do Espírito Santo. 

          O livro de Juízes representa um dos textos mais fascinantes e, ao mesmo tempo, mais perturbadores de toda a Bíblia hebraica. Ambientado no período que se estende aproximadamente entre a morte de Josué e o surgimento da monarquia (c. 1200–1020 a.C.), o livro descreve um mundo de fragmentação tribal, violência endêmica, sincretismo religioso e um tipo peculiar de liderança carismática que não se encaixa em nenhuma das categorias políticas convencionais.

          O título “juízes” (shofetim) é, em certa medida, enganoso para o leitor moderno, pois evoca a figura de magistrados ou árbitros jurídicos. Na realidade, os shofetim do livro são, em sua maioria, líderes militares carismáticos que recebem o Espírito de Deus para uma missão específica de libertação nacional. O termo hebraico deriva da raiz shaphat, que significa “governar”, “julgar” e “administrar justiça”. Isto é uma gama semântica muito mais ampla do que o simples exercício judicial.

          O horizonte teológico do livro é determinado pela chamada “fórmula deuteronomista” ou “esquema do ciclo”, que estrutura toda a narrativa e revela a visão do autor sobre a história: Israel vive um ciclo recorrente de apostasia, opressão, clamor e libertação. Esse ciclo não é apenas um recurso narrativo literário; é uma interpretação teológica profunda do relacionamento entre YHWH e seu povo.

          A fórmula do ciclo

A estrutura cíclica do livro de Juízes foi identificada pelos estudiosos como uma das contribuições mais características da redação deuteronomista. O ciclo, em sua forma completa, apresenta os seguintes elementos: (1) Israel abandona YHWH e serve a outros deuses (apostasia); (2) a ira de YHWH se acende e ele entrega Israel nas mãos de um opressor estrangeiro (opressão); (3) Israel clama a YHWH (clamor); (4) YHWH suscita um juiz que liberta Israel (libertação/salvação); (5) a terra descansa enquanto o juiz vive; (6) o juiz morre e Israel volta a apostasiar (recomeço do ciclo). Esse esquema aparece, em sua forma mais explícita, em Juízes 2:11-19, que funciona como introdução programática para toda a seção dos juízes: “Os israelitas praticaram o que era mau perante o Senhor e serviram aos Baais […] Então o Senhor levantou juízes que os livravam das mãos dos que os saqueavam. Mas também não obedeceram aos seus juízes, porque se prostituíam após outros deuses” (Juízes 2:11, 16-17). A dinâmica do ciclo está clara: o fracasso moral de Israel não é o fim da história, porque a graça de YHWH é maior que a reincidência humana.

          O ciclo do livro de Juízes deve ser compreendido não como um “eterno retorno” pagão, mas como uma narrativa que aponta para a necessidade de uma liderança mais estável e de uma transformação mais profunda do coração de Israel. É uma necessidade que prefigura, teologicamente, a esperança messiânica.

          A atuação do Espírito Santo nos Juízes

          Um dos aspectos mais significativos do livro de Juízes, especialmente para a pneumatologia bíblica, é a descrição da atuação do Espírito de Deus (Ruah YHWH) sobre os juízes. Essa atuação é caracteristicamente episódica — o Espírito “vem sobre” (tsalach) ou “reveste” (labash) o juiz para uma missão específica, sem que isso implique necessariamente uma transformação moral permanente do indivíduo.

          Os exemplos mais notáveis dessa atuação pneumatológica são: Otoniel, sobre quem “o Espírito do Senhor desceu, e ele julgou Israel” (Juízes 3:10); Gideão, sobre quem “o Espírito do Senhor revestiu” (Juízes 6:34); Jefté, sobre quem “o Espírito do Senhor veio” (Juízes 11:29); e, de forma mais dramática, Sansão, sobre quem “o Espírito do Senhor irrompe” (Juízes 14:6, 19; 15:14) em momentos de ação extraordinária.

          A pneumatologia do livro de Juízes é, portanto, marcadamente funcional e carismática. O Espírito não é descrito aqui como uma presença santificante permanente, mas como uma força capacitadora que equipa o escolhido de Deus para uma tarefa específica. Essa teologia do Espírito contrasta, mas também complementa, a visão posterior dos profetas, que anseiam por uma efusão universal e permanente do Espírito (Isaías 44:3; Ezequiel 36:26-27; Joel 2:28-29).

          O carisma dos juízes deve ser compreendido em seu contexto histórico: numa época em que Israel não possuía estruturas institucionais permanentes de liderança, o Espírito de Deus era o princípio organizador que suscitava líderes ad hoc em resposta às crises históricas. A comparação com as figuras dos “homens de Deus” e dos “profetas carismáticos” da tradição profética primitiva é inevitável.

          Os juízes e suas figuras

          O livro apresenta uma galeria variada de juízes, desde figuras relativamente simples (Otoniel, Shamgar) até personagens de uma complexidade psicológica e moral impressionante (Gideão, Jefté, Sansão). Essa diversidade não é acidental; ela serve aos propósitos teológicos do autor, que deseja demonstrar que YHWH pode usar instrumentos humanos imperfeitos para seus propósitos soberanos. Gideão (Juízes 6–8) é talvez o mais teologicamente rico dos juízes. Sua narrativa começa com uma teofania na qual o anjo do Senhor o chama de “herói poderoso” quando ele está escondido a debulhar trigo (Juízes 6:11-12). Esta é uma ironia literária que aponta para a onisciência divina, que enxerga o potencial onde o ser humano vê apenas fraqueza. Sua estratégia de guerra (trezentos homens com tochas, cântaros e trombetas) é deliberadamente absurda do ponto de vista militar, precisamente para que a vitória não possa ser atribuída à força humana (Juízes 7). O lema da campanha de Gideão — “A espada do Senhor e de Gideão!” (Juízes 7:18) — encapsula a teologia do livro: a vitória pertence ao Senhor, e o instrumento humano é secundário.

          A decadência de Gideão, porém, é igualmente instrutiva. Após a vitória, ele fabrica um éfode que se torna objeto de idolatria (Juízes 8:24-27), e seu filho Abimeleque, nascido de uma concubina siquemita, perpetra um massacre e instala uma espécie de monarquia local abortada (Juízes 9). O autor sugere que a vitória carismática não garante fidelidade moral, e que o carisma sem caráter é potencialmente destrutivo.

          Débora (Juízes 4–5) é uma figura singular: profetisa, juíza e líder militar, ela é a única que o texto descreve como exercendo a função de julgar Israel de forma permanente e institucionalizada (Juízes 4:4-5). Seu cântico em Juízes 5, um dos textos poéticos mais antigos da Bíblia, é uma celebração da soberania de YHWH sobre os poderes cósmicos e históricos. A vitória sobre Sísera é atribuída ao Senhor que “combateu desde os céus” (Juízes 5:20), e o protagonismo feminino de Jael, que mata Sísera com uma estaca de tenda, aponta para uma concepção surpreendentemente inclusiva da agência divina na história.

          Sansão: o paradoxo do carisma sem consagração

          Sansão (Juízes 13–16) representa o caso mais paradoxal de toda a galeria dos juízes. Dedicado a Deus como nazireu desde antes do nascimento (Juízes 13:2-7), dotado de força sobrenatural pelo Espírito de YHWH, ele é ao mesmo tempo o juiz mais poderoso e o mais moralmente comprometido. Sua vida é uma série de violações dos votos naziréus (contato com cadáveres, consumo de mel retirado de uma carcaça, relação com mulheres filistéias), e sua derrota final é obra de sua própria fraqueza diante de Dalila.

          A narrativa de Sansão levanta questões pneumatológicas profundas: como o Espírito de Deus pode repousar sobre alguém moralmente comprometido? A resposta do texto é desconcertante: o Espírito age soberanamente, mesmo através de vasos impuros, para os propósitos divinos. Isso não é uma relativização da ética; é uma afirmação da soberania de Deus, que não é limitada pela fragilidade humana.

          O desfecho de Sansão (Juízes 16:28-30) é, paradoxalmente, o seu momento de maior grandeza espiritual: cego, humilhado e encorrentado, ele ora pela última vez e YHWH responde, concedendo-lhe força suficiente para derrubar o templo de Dagom e matar mais filisteus em sua morte do que em toda a sua vida. A oração de Sansão (“Lembra-te de mim, ó Senhor Deus”) ecoa os grandes clamores penitenciais da Bíblia e aponta para uma graça que ultrapassa o mérito.

          Implicações pneumatológicas para a teologia contemporânea

          A pneumatologia episódica do livro de Juízes tem implicações importantes para a teologia contemporânea, especialmente para as tradições carismáticas e pentecostais que valorizam os dons do Espírito. O livro de Juízes demonstra que: (1) o Espírito de Deus pode equipar para a missão independentemente da perfeição moral do instrumento; (2) a atuação soberana do Espírito não substitui a necessidade de obediência e caráter; (3) o carisma isolado, sem a transformação do coração, é instável e potencialmente destrutivo; (4) o clamor sincero diante de Deus, mesmo tardio e imperfeito, pode restaurar a comunhão rompida.

          A comparação com a teologia do Espírito nos Profetas é iluminadora: enquanto em Juízes o Espírito vem episodicamente para capacitar para a ação, Ezequiel 36:26-27 e Joel 2:28-29 anunciam uma nova era em que o Espírito transformará o coração de forma permanente e será derramado sobre toda a carne. O Pentecostes de Atos 2 representa o cumprimento dessa promessa, e a pneumatologia neotestamentária marca uma descontinuidade significativa em relação ao padrão de Juízes, embora a soberania do Espírito permaneça como constante teológica.

          Conclusão

          Nesta aula, examinamos a estrutura cíclica do livro de Juízes e sua teologia do Espírito. O ciclo de apostasia, opressão, clamor e libertação não é apenas um padrão histórico recorrente; é uma declaração teológica sobre a fidelidade de YHWH, que nunca abandona seu povo mesmo em sua infidelidade. A pneumatologia episódica dos juízes — com seu caráter funcional e carismático — é um capítulo fundamental da revelação progressiva sobre o Espírito de Deus, que encontrará sua plenitude na promessa profética e no cumprimento pentecostal.

          Desafios socioculturais e o perigo do sincretismo religioso

          A entrada de Israel em Canaã não representou apenas uma conquista militar e um estabelecimento político; foi, acima de tudo, uma imersão profunda num ambiente cultural e religioso radicalmente diferente daquele formado no deserto sob a liderança de Moisés. A Canaã do final da Idade do Bronze Tardio e início do Ferro I era um mosaico de cidades-estados, culturas agrícolas sedentarizadas, práticas religiosas politeístas sofisticadas e estruturas sociais complexas. Para Israel, que chegava como um conglomerado de tribos semi-nômades, forjadas pela experiência do Êxodo e por quarenta anos de caminhada no deserto, o encontro com esse ambiente representava o maior desafio de sua identidade religiosa.

          O livro de Juízes é, em grande medida, o registro dramático desse encontro. A apostasia recorrente de Israel [“os israelitas praticaram o que era mau perante o Senhor e serviram aos Baais” (Juízes 2:11)] não era mera rebeldia intelectual ou moral; era o resultado de um processo de aculturação religiosa que a Bíblia denomina sincretismo: a mistura dos elementos da fé iahvista com as práticas e crenças das religiões cananéias.

          A religião cananeia

          Para compreender o sincretismo que o livro de Juízes denuncia, é necessário conhecer o ambiente religioso cananeu. As descobertas arqueológicas em Ras Shamra (Ugarit), na Síria, desde 1929, revolucionaram nosso conhecimento da religião cananeia: os textos ugaríticos revelaram um panteão politeísta encabeçado por El, o “pai dos deuses”, e seu filho Baal, o deus da tempestade, da chuva e da fertilidade.

          O sistema religioso cananeu era fundamentalmente ligado ao ciclo agrícola: Baal controlava as chuvas e, portanto, a colheita. Sua consorte Ashera, representada por postes sagrados (asherot), era a deusa da fertilidade e do mar. Anat, deusa da guerra, completava o círculo das divindades mais proeminentes. Os rituais de culto cananeu incluíam sacrifícios animais, festas sazonais ligadas ao plantio e à colheita, e, segundo os textos bíblicos e possivelmente algumas evidências arqueológicas, práticas de prostituição sagrada e sacrifícios de crianças.

          Para um povo recém-chegado que precisava aprender a agricultura sedentária, a tentação de adotar as práticas religiosas dos povos da terra era imensamente prática: se Baal era o deus que enviava a chuva e garantia a colheita, não era prudente agradá-lo? Essa lógica utilitária (não uma apostasia filosófica, mas uma acomodação pragmática) estava na raiz do sincretismo israelita.

          A sedução do culto a Baal para os israelitas era dupla: por um lado, oferecia uma religião que parecia mais adaptada ao novo modo de vida agrícola; por outro, eliminava as exigências éticas e exclusivistas do iahvismo, com suas demandas de obediência à Torá e de aliança a um único Deus.

          O sincretismo em Juízes

          O livro de Juízes documenta múltiplas formas de sincretismo religioso. A expressão mais comum é a do culto aos Baais e às Astartés (Juízes 2:13; 3:7; 10:6), que representam respectivamente as divindades masculinas e femininas do panteão cananeu. A pluralização (“os Baais”) indica que não se tratava de um único culto unificado, mas de uma constelação de práticas locais, cada uma com seu próprio santuário (bamah, “lugar alto”) e sua própria divindade tutelar.

          O episódio de Gideão é ilustrativo: antes de ser chamado por Deus, seu próprio pai, Joás, mantinha um altar a Baal e um poste sagrado à Ashera (Juízes 6:25). A primeira tarefa de Gideão é destruir esse altar e cortar o poste, uma ação que provoca a ira dos habitantes da cidade, mas é afirmada pelo próprio Joás como necessária (Juízes 6:31). O sincretismo havia penetrado tão profundamente na estrutura social de Israel que o culto a Baal era praticado dentro das próprias famílias.

          O episódio de Micas em Juízes 17–18 é ainda mais revelador: um israelita fabrica uma imagem de madeira coberta de prata e instala um santuário em sua própria casa, contratando um levita como sacerdote particular. O texto é perturbador precisamente porque Micas mistura elementos genuinamente iahvistas (a contratação de um levita, o uso do nome do Senhor) com práticas idolátricas (a fabricação de imagens, o éfode e os terafins). Esta é a essência do sincretismo: não a substituição completa de YHWH por Baal, mas a dissolução das fronteiras que definem a exclusividade da aliança.

          A estrutura social de Canaã e seus desafios para a identidade de Israel

          Além dos desafios religiosos, o ambiente cananeu apresentava à Israel desafios de natureza socioeconômica e política. As cidades-estados cananéias operavam com base num sistema tributário-redistributivo em que uma elite urbana controlava a produção agrícola dos camponeses periféricos. Esse sistema era legitimado religiosamente pelos cultos locais, que associavam a prosperidade material ao favor das divindades.

          Israel, como confederação tribal, representava uma alternativa política e religiosa a esse modelo. A tradição do Êxodo (libertação da escravidão egípcia, que era o sistema tributário mais desenvolvido do Oriente Próximo antigo) fornecia a Israel uma memória fundante de emancipação. YHWH era o Deus que liberta os oprimidos, não o que legitima a opressão.

          A apostasia de Israel em Juízes não pode ser compreendida apenas como uma questão de infidelidade religiosa individual; ela tem uma dimensão estrutural, ligada à pressão dos sistemas socioeconômicos cananeus sobre as comunidades tribais israelitas. A assimilação cultural era também assimilação econômica e a assimilação econômica abria portas para a assimilação religiosa.

          O perigo do sincretismo

          A denúncia do sincretismo no livro de Juízes não é uma questão de tribalismo religioso ou de intolerância cultural. Ela tem raízes profundas na teologia da aliança. O primeiro mandamento do Decálogo (“Não terás outros deuses diante de mim” – Êxodo 20:3) e o Shemá de Deuteronômio 6.4 (“Ouve, ó Israel: o Senhor nosso Deus é o único Senhor”) estabelecem a unicidade de YHWH como fundamento de toda a ética e de toda a vida social de Israel.

          A exclusividade de YHWH não é capricho divino; é uma afirmação sobre a natureza da realidade. O politeísmo cananeu dispersava a lealdade religiosa entre múltiplas divindades com esferas de competência distintas: Baal para a chuva, El para a sabedoria, Anat para a guerra. O iahvismo afirma que há apenas um Deus, e que esse Deus é soberano sobre todas as esferas da existência: a natureza, a história, a ética, a política e o cosmos. O sincretismo, portanto, não apenas corrompe a prática religiosa; ele corrói a visão de mundo que fundamenta a identidade covenantal de Israel.

          O sincretismo é teologicamente impossível porque os deuses de Canaã não são apenas outros deuses; eles representam uma visão de mundo radicalmente incompatível com a revelação de YHWH. Misturar os dois sistemas não produz uma síntese; produz uma corrupção de ambos. A história de Juízes demonstra esse ponto repetidamente: toda vez que Israel abraça o sincretismo, não apenas perde sua identidade religiosa, mas também sua coesão social, sua capacidade militar e sua esperança histórica.

          A questão dos matrimônios mistos e da identidade de aliança

          Um dos vetores do sincretismo que o livro de Juízes documenta é o dos matrimônios mistos com os povos cananeus. Deuteronômio 7:3-4 havia proibido explicitamente tais uniões: “Não te aparentarás com eles; não darás tua filha a seu filho, nem tomarás sua filha para teu filho, porque desviaria teu filho de me seguir.” A justificativa é explicitamente religiosa: o cônjuge pagão seria um vetor de idolatria. O caso de Sansão é paradigmático: suas três relações com mulheres filistéias [a noiva de Timna (Juízes 14), a prostituta de Gaza (Juízes 16:1) e Dalila (Juízes 16:4)] são apresentadas como fatores de sua ruína. Não se trata de um preconceito étnico primitivo; a narrativa aponta para a incompatibilidade de visões de mundo e de sistemas de lealdade. Dalila não o trai por maldade gratuita, mas porque sua lealdade pertence a Dagom e às autoridades filistéias, não ao Deus de Israel.

           O problema dos matrimônios mistos em Juízes não deve ser lido anacronicamente como racismo bíblico. A proibição dos casamentos mistos em Israel não era baseada em raça, mas em religião. Raabe, a prostituta cananeia, foi plenamente integrada em Israel porque abraçou a fé em YHWH. Rute, a moabita, tornou-se ancestral de Davi porque disse: "Teu povo será o meu povo, e o teu Deus, o meu Deus." (Rute 1:16). O critério era a lealdade de aliança, não a etnia.

          A narrativa de Juízes como advertência perene

          O livro de Juízes termina de forma deliberadamente sombria. Os dois últimos episódios, o santuário de Micas e a migração da tribo de Dã (Juízes 17–18) e o horripilante crime de Gibeá e a guerra civil que se seguiu (Juízes 19–21), não apresentam nenhum juiz, nenhuma libertação e nenhuma esperança imediata. O refrão que ecoa ao longo desses capítulos finais é lapidar: “Naquele tempo, não havia rei em Israel; cada um fazia o que bem lhe parecia” (Juízes 17:6; 21:25). Esse refrão é frequentemente interpretado como uma propaganda pró-monarquista, preparando o terreno para os livros de Samuel. Mas sua dimensão teológica vai além da política: “cada um fazia o que bem lhe parecia” é uma descrição de uma sociedade que perdeu seu centro moral e de aliança com Deus. Sem a Torah de YHWH como norma, sem a memória do Êxodo como identidade, sem a exclusividade de YHWH como visão de mundo, Israel dissolve-se em anarquia e violência. O sincretismo religioso e a fragmentação social são duas faces da mesma moeda.

          O livro de Juízes, em sua forma final, é um testemunho profético: ele não é uma defesa da monarquia nem uma nostalgia do período tribal, mas uma chamada ao arrependimento e à renovação da aliança. O problema de Israel não é político, é espiritual. E a solução não está em um rei humano, mas no reinado de YHWH sobre um povo renovado pelo seu Espírito.

          Implicações para a teologia e a missão contemporâneas

          A análise do sincretismo no livro de Juízes tem implicações profundas para a teologia e a prática missionária contemporâneas. A Igreja, em qualquer época e cultura, enfrenta tensões análogas àquelas de Israel em Canaã: como testemunhar o Evangelho numa cultura que tem seus próprios sistemas de valores, suas próprias espiritualidades e suas próprias exigências de lealdade? A resposta bíblica não é o isolamento cultural (Israel não foi chamado a construir guetos no deserto) nem a assimilação irrestrita.

          É a inculturação criteriosa: a capacidade de encarnar a mensagem do Evangelho nas formas culturais de cada povo, sem comprometer o núcleo da fé. O critério é sempre a aliança: o que pertence à cultura pode ser santificado; o que exige lealdade a outros senhores deve ser recusado.

          A figura de Débora, profetisa, juíza, líder militar numa cultura patriarcal, é um exemplo de como o Espírito de Deus pode trabalhar de formas inesperadas, subvertendo as categorias culturais convencionais a serviço dos propósitos divinos. A Igreja que permanece atenta ao movimento do Espírito, como as gerações de Juízes que, em seus momentos de clamor, experimentaram a irrupção da graça de YHWH, pode encontrar, mesmo nos períodos mais sombrios da história, a esperança da libertação que vem do alto.

          Conclusão

          Nesta aula, examinamos o ambiente sociocultural de Canaã e os desafios que ele representava para a identidade religiosa de Israel. O sincretismo (a mistura da fé iahvista com as práticas das religiões cananéias) é diagnosticado pelo livro de Juízes como o pecado fundamental que desestrutura Israel moral, social e politicamente. A exclusividade de YHWH não é intolerância tribal; é a afirmação de que há apenas uma realidade última, um único Senhor da história, diante do qual toda lealdade parcial é traição à aliança. O livro de Juízes, em sua perturbadora honestidade, permanece como advertência perene para toda comunidade de fé que existe na interface entre o Evangelho e a cultura.

          Conteúdo Bônus

          O livro de Juízes nos confronta com uma teologia da graça operando em meio ao caos absoluto. Como vimos na aula, o ciclo de apostasia, opressão, clamor e libertação não é apenas uma convenção literária; é a radiografia do coração humano inclinado ao sincretismo. Para aprofundar seu entendimento sobre a atuação carismática do Espírito de Deus e a desconstrução da figura clássica do “magistrado”, selecionamos recomendações essenciais de estudo independente.

          - Indicação de Leitura (Aprofundamento Exegético e Contextual)
           Obra: Juízes e Rute: Comentário Exegético, de Daniel I. Block (Editora Vida Nova). 
Por que explorar este material? O texto da nossa aula aponta que o termo shofetim (juízes) é enganoso para o leitor moderno. Daniel I. Block, um dos maiores especialistas em Antigo Testamento da atualidade, destrincha o hebraico e o contexto cultural para mostrar exatamente como operavam esses líderes tribais e militares. Em sua introdução, ele aprofunda a raiz shaphat, demonstrando como esses líderes atuavam como “salvadores” em tempos de crise, muitas vezes possuindo falhas morais gravíssimas. Esta obra ajudará você a entender como o autor bíblico utilizou essas histórias de “violência endêmica” para evidenciar a falência moral de Israel e preparar o terreno para a monarquia.

          - Indicação de Recurso Audiovisual (Análise Narrativa e Estrutural)
          Obra: Vídeo “Juízes || Bible Project Português ||” do canal BibleProject - Português (Disponível no YouTube e no site oficial). 
Por que explorar este material? Nossa aula apresentou os seis passos da “fórmula do ciclo” deuteronomista. A animação gráfica do BibleProject oferece uma chave hermenêutica visual importantíssima: o vídeo demonstra que esse ciclo histórico não é um círculo fechado, mas sim uma espiral descendente. A cada nova volta, com cada novo juiz suscitado, a nação se encontra em um estado de corrupção moral ainda pior do que o anterior, tornando-se indistinguível dos próprios cananeus. Essa ferramenta audiovisual ajudará a fixar a macroestrutura teológica do livro de forma clara e inesquecível.

          Referência Bibliográfica
          BAKER, David W.; ARNOLD, Bill T. (Org.). Faces do Antigo Testamento: um exame das pesquisas mais recentes. Rio de Janeiro: CPAD, 2007.
          DONNER, Herbert. História de Israel e dos povos vizinhos: dos primórdios até a formação do estado. 6. ed. São Leopoldo: Sinodal/EST, 2011. v. 1.
          DONNER, Herbert. História de Israel e dos povos vizinhos: da época da divisão do reino até Alexandre Magno. 5. ed. São Leopoldo: Sinodal/EST, 2011. v. 2.
          LASOR, William Sanford; HUBBARD, David Allan; BUSH, Frederic Wm. Introdução ao Antigo Testamento. 2. ed. São Paulo: Vida Nova, 1999.
          NAKANOSE, S. et al. Uma história de Israel: leitura crítica da Bíblia e arqueologia. São Paulo: Paulus, 2011.
          PEETZ, Melanie. O Israel bíblico: história, arqueologia, geografia. Petrópolis: Vozes, 2016.
          SKA, Jean-Louis. Antigo Testamento, 1: introdução. São Paulo: Loyola, 2017.
          SKA, Jean-Louis. Antigo Testamento, 2: temas e leituras. São Paulo: Loyola, 2017.
          SKA, Jean-Louis. O canteiro do Pentateuco: problemas de composição e de interpretação: aspectos literários e teológicos. São Paulo: Paulus, 2016.
          WALTKE, Bruce K. Teologia do Antigo Testamento: uma abordagem exegética, canônica e temática. São Paulo: Vida Nova, 2010.
          WALTON, John H. O pensamento do Antigo Oriente Próximo e o Antigo Testamento: introdução ao mundo conceitual da Bíblia hebraica. São Paulo: Vida Nova, 2010.
          WALTON, John H.; MATTHEWS, Victor H.; CHAVALAS, Mark W. Comentário histórico-cultural da Bíblia: Antigo Testamento. Belo Horizonte: Editora Vida, 2003.

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