sábado, 15 de outubro de 2016

"Tipos de Salmos e Experiência com Deus"


Tipos de Salmos e Experiência com Deus:

Lamento, Clamor e Esperança Messiânica

 Módulo 14 aprofunda o estudo do Saltério a partir de dois de seus mais significativos tipos sálmicos: os Salmos de Lamento e os Salmos Messiânicos. Esses dois gêneros não são independentes entre si — eles se interpenetram em alguns dos textos mais densamente teológicos do Saltério, como o Salmo 22, que começa com o clamor do abandono e termina com a proclamação universal da soberania do Rei ungido.

Os Salmos de Lamento constituem o gênero mais numeroso do Saltério — aproximadamente um terço dos 150 salmos pode ser classificado nessa categoria. Sua presença massiva no cânon sagrado é uma declaração teológica: Deus não apenas tolera o sofrimento humano; Ele o acolhe como matéria de oração, transformando-o em diálogo com o Divino. O lamento não é a ausência de fé — é uma de suas expressões mais corajosas.

Os Salmos Messiânicos, por sua vez, constituem a coluna vertebral da esperança de Israel e o fundamento do qual o Novo Testamento frequentemente cita ao apresentar Jesus como o Ungido prometido. De Salmo 2 a Salmo 110, esses textos descrevem com precisão surpreendente aspectos da pessoa, do ministério, do sofrimento e da glória do Messias, séculos antes de sua vinda. Para o estudante de Teologia, compreender esses salmos é compreender como a revelação bíblica funciona como um organismo coeso — cada parte apontando para e sendo iluminada pelas demais.

Grande parte do material de referência utilizado neste módulo provém dos Esboços Bíblicos de Salmos de C.H. Spurgeon, pregador e expositor do século XIX cujos comentários aos Salmos permanecem como uma das contribuições mais ricas da tradição evangélica à exegese sálmica.

Salmos de lamento: clamor e intervenção divina no sofrimento

1 — O gênero do lamento: definição e teologia

1.1 O que é um Salmo de Lamento?

O Salmo de Lamento é aquele em que o salmista expressa diante de Deus sofrimento intenso — físico, emocional, espiritual ou social — e clama por intervenção divina. Esse gênero se divide em dois subtipos: o lamento individual, em que um salmista fala em sua própria pessoa (Sl 3, 6, 13, 22, 31, 38, 51, 88, 130, 143), e o lamento coletivo, em que a comunidade ou nação lamenta uma situação de calamidade compartilhada (Sl 44, 60, 74, 79, 80, 83, 85).

A estrutura típica do Salmo de Lamento individual segue um padrão reconhecível, embora com variações: invocação de Deus, descrição do sofrimento, clamor por ajuda, expressão de confiança, e — frequentemente, mas não sempre — louvor antecipado ou voto de ação de graças. Esse arco não é linear nem obrigatório; alguns salmos transitam rapidamente entre a queixa e a confiança; outros, como o Salmo 88, permanecem na escuridão sem resolução visível.

Waltke observa que os Salmos de Lamento são teologicamente revolucionários em comparação com a literatura religiosa do Antigo Oriente Próximo. Em contextos pagãos, o lamento diante da divindade precisava ser cuidadosamente mediado por rituais e sacrifícios para não provocar a ira divina. Nos Salmos, o salmista se dirige a Deus diretamente, com franqueza e às vezes com acusação, porque sua relação com YHWH é pessoal e de aliança. A coragem do lamento pressupõe intimidade com Deus.

1.2 A estrutura teológica do lamento: da queixa à confiança

O movimento interno mais característico dos Salmos de Lamento é a transição da queixa para a confiança. Esse movimento não é produzido por mudança de circunstância — as circunstâncias frequentemente permanecem as mesmas ao longo do salmo. Ele é produzido por uma reorientação da perspectiva: o salmista deixa de olhar apenas para o problema e passa a olhar para Deus.

Spurgeon, nos Esboços Bíblicos de Salmos, descreve essa dinâmica ao comentar o Salmo 6, o primeiro dos sete Salmos Penitenciais: o salmo “logo se divide em duas partes. Primeiro, há o apelo do salmista em sua forte aflição, o que vai do primeiro ao final do sétimo versículo. Então a seguir, do oitavo versículo até o fim, tem-se um tema bem diferente. O salmista mudou o tom. Deixou a tonalidade menor, e vai para acordes mais sublimes. Ele afina a tonalidade para o alto tom da confiança, e declara que Deus ouviu sua oração, e já o livrou de todas as suas dificuldades.”

Essa transição — da tonalidade menor para acordes mais sublimes — é o coração da espiritualidade do lamento. O salmista não suprime sua dor; ele a leva a Deus. E no ato de levá-la a Deus, algo se transforma — não necessariamente a situação, mas a perspectiva do salmista sobre ela. Esse é o milagre espiritual que os Salmos de Lamento ensinam: Deus está na escuridão do sofrimento, e a fé que clama é fé que alcança.

2 — Salmos de Lamento em detalhe

2.1 Salmo 6: o lamento do corpo e da alma

O Salmo 6 é o primeiro dos sete Salmos Penitenciais da tradição cristã (Sl 6, 32, 38, 51, 102, 130, 143). Spurgeon o apresenta como um “salmo de almas aflitas”, observando que Davi “está doente tanto no corpo quanto na mente, porque ele ofendeu a Deus.” A conexão entre o sofrimento físico e o estado espiritual é característica da visão bíblica integrada do ser humano — corpo e alma não são compartimentos separados, e o lamento genuíno alcança ambos.

A abertura do salmo é um dos apelos mais diretos do Saltério: “Ó Senhor Deus, não me repreendas quando estiveres irado! Não me castigues no teu furor. Tem compaixão de mim, pois me sinto fraco” (Sl 6.1-2). Spurgeon identifica nos versículos iniciais “os males mais a serem temidos: a ira e o desprazer férvido de Deus”, e os “meios de se evitar esses males: humilhação, confissão, mudança de comportamento, fé no Senhor.”

A resolução do Salmo 6 ocorre sem que as circunstâncias externas sejam descritas como mudadas: “O Senhor me ouviu quando choro; ele me escuta quando peço ajuda e atende as minhas orações” (Sl 6.8-9). A certeza da audição divina é suficiente para transformar o lamento em declaração de vitória. Essa é a lógica do lamento bíblico: não a eliminação do sofrimento, mas a certeza da presença e da atenção de Deus dentro do sofrimento.

2.2 Salmo 10: o clamor dos oprimidos

O Salmo 10 é chamado por Spurgeon de “O Grito dos Oprimidos”. Sem título próprio no original hebraico, ele possivelmente formava um par com o Salmo 9 — estruturado como um só poema acróstico. O tema predominante é a opressão dos maus sobre os fracos e a aparente ausência de Deus: “Por que, Senhor, te pões tão longe? Por que te escondes em tempos de angústia?” (Sl 10.1).

Spurgeon observa que, para a Igreja em tempos de perseguição e para santos individuais que sofrem sob a mão do poderoso soberbo, o Salmo 10 “oferece linguagem adequada tanto para a oração de súplica como para a de louvor.” Essa dupla função do lamento — como súplica e, paradoxalmente, como louvor — é uma das chaves da teologia sálmica: o clamor que se dirige a Deus é em si mesmo um ato de fé, pois pressupõe que Deus existe, que Ele ouve e que Ele pode e quer intervir.

A resolução do Salmo 10, nos versículos 14-18, não é uma negação da dificuldade descrita, mas uma afirmação de que Deus vê, que Ele se recorda dos humilhados e que o julgamento final pertence a Ele. Esse movimento — do clamor pela ausência divina para a certeza da soberania divina — é o arco espiritual que o lamento percorre.

2.3 Salmo 51: o lamento como confissão e transformação

O Salmo 51 — composto por Davi após o pecado com Bate-Seba e o assassinato de Urias — é o Salmo Penitencial por excelência e um dos textos mais profundos do Saltério sobre a natureza do arrependimento genuíno. Spurgeon o apresenta com o subtítulo característico: um “salmo de David, quando Nathan, o profeta, veio até ele, depois que ele tinha ido para Bathsheba.”

A estrutura do Salmo 51 é pedagogicamente rica. Ele começa com o pedido de misericórdia fundamentado não no mérito do salmista, mas na bondade de Deus: “Compadece-te de mim, ó Deus, segundo a tua benignidade; e, segundo a multidão das tuas misericórdias, apaga as minhas transgressões” (Sl 51.1). A confissão que se segue é total e sem reservas: “Pois eu conheço as minhas transgressões, e o meu pecado está sempre diante de mim” (Sl 51.3).

O coração do salmo é o pedido de transformação interior: “Cria em mim um coração puro e renova em mim um espírito firme. Não me expulses da tua presença, nem tires de mim o teu santo Espírito” (Sl 51.10-11). Essa é uma das poucas referências explícitas ao Espírito Santo no Saltério, e ela é profundamente significativa: Davi não pede apenas perdão dos atos, mas renovação da fonte — o coração. Ele sabe que a mudança de comportamento permanente requer mudança interior, e que essa mudança é obra de Deus, não esforço humano.

O clímax teológico do salmo aparece no versículo 17: “O sacrifício aceitável a Deus é o espírito quebrantado; o coração quebrantado e contrito, ó Deus, não desprezarás.” Spurgeon comenta sobre a sequência reveladora do versículo 23 do Salmo 50 — que funciona como paralelo — articulando: “A salvação é a obra de Deus. A evidência da salvação é santidade de coração e vida. O efeito dessa evidência é louvor. A tendência desse louvor é glorificar a Deus.” O lamento, quando genuíno, conduz ao louvor — não porque o sofrimento desaparece, mas porque a graça de Deus é encontrada dentro dele.

2.4 Salmo 88: o lamento sem resolução visível

O Salmo 88 é singular no Saltério: é o único salmo de lamento que termina sem retorno ao louvor, sem expressão de confiança, sem anúncio de libertação. Seu último versículo — “as trevas são meu mais íntimo amigo” — é a expressão mais sombria de todo o livro. Houve tentações históricas de “corrigir” esse salmo, mas o cânon o preservou exatamente como está.

A presença do Salmo 88 no Saltério é uma declaração teológica corajosa: há momentos na experiência humana em que a fé não produz alívio imediato, em que as trevas permanecem, em que Deus parece ausente. O Salmo 88 não normaliza esse estado — ele o reconhece como uma possibilidade real da vida espiritual. E ao reconhecê-lo dentro do cânon sagrado, afirma que mesmo esse estado pode ser levado a Deus em forma de oração.

Waltke observa que o Salmo 88 deve ser lido à luz de toda a estrutura do Saltério: ele não é a última palavra sobre a experiência de Deus, mas uma das vozes dentro de um coral que inclui também o Salmo 23 (“O Senhor é o meu pastor”) e o Salmo 103 (“Bendize, ó minha alma, ao Senhor”). O Saltério preserva a escuridão sem negar a luz — e preserva a luz sem negar a escuridão. Essa honestidade é o que o torna um guia espiritual para a totalidade da experiência humana.

Salmos messiânicos e a esperança no rei que virá

3 — Os Salmos Messiânicos: definição e hermenêutica
3.1 O que é um Salmo Messiânico?

Um Salmo Messiânico é aquele que se refere, direta ou tipologicamente, ao Messias prometido — o Ungido de YHWH que Israel aguardava e que o Novo Testamento identifica com Jesus de Nazaré. A identificação desses salmos não é arbitrária; ela é fundamentada na própria interpretação que Jesus e os apóstolos fizeram do Saltério. Lucas 24.44 registra que Jesus, após a ressurreição, disse a seus discípulos: “Era necessário que se cumprisse tudo o que de mim está escrito na Lei de Moisés, nos Profetas e nos Salmos.”

Nos esboços do livro dos Salmos pesquisados, identificamos duas perspectivas hermenêuticas para a leitura dos Salmos de Davi: “literal e alegórico.” Davi escreve a partir de suas próprias circunstâncias históricas — a perseguição de Saul, as guerras, os pecados, os triunfos — mas o Espírito Santo utiliza essas experiências como molde para antecipar experiências do Messias vindouro. Essa dupla leitura — o sentido davídico imediato e o sentido messiânico mais profundo — é o que os teólogos chamam de “sentido pleno” (sensus plenior) da Escritura.

Os principais Salmos identificados pela tradição cristã como messiânicos incluem: Salmo 2 (o Rei ungido e as nações), Salmo 22 (o sofrimento e a glória do Ungido), Salmo 45 (o Rei-Noivo), Salmo 69 (a humilhação e a perseguição do servo), Salmo 72 (o reino universal de paz e justiça), Salmo 89 (o pacto davídico e sua restauração) e Salmo 110 (o Rei-Sacerdote). Walton e colaboradores ressaltam que o Novo Testamento cita o Saltério mais do que qualquer outro livro do Antigo Testamento, e que os Salmos Messiânicos são a espinha dorsal dessa citação.

4 — Salmos Messiânicos em detalhe

4.1 Salmo 2: o Rei ungido diante das nações

O Salmo 2 é o primeiro dos Salmos Messiânicos e funciona como uma declaração programática da soberania do Rei ungido sobre toda a oposição humana e espiritual. Podemos dividir o salmo 2 em quatro estrofes de três versículos cada: “Nos versículos 1, 2, 3, as nações rugem; de 4 a 6, o Senhor nos céus caçoa deles; de 7 a 9, o Filho proclama o decreto; e de 10 ao final, aconselha-se os reis a concederem obediência ao ungido do Senhor.”

A afirmação central do Salmo 2 é a instalação do Rei em Sião: “Eu mesmo consagrei o meu Rei no meu santo monte Sião” (Sl 2.6). E o decreto divino que o Filho proclama é adotivo e universal: “Tu és meu Filho; hoje te gerei. Pede-me, e eu te darei as nações como herança e os confins da terra como tua propriedade” (Sl 2.7-8). O Novo Testamento aplica esse decreto à ressurreição de Cristo (At 13.33), ao seu batismo (Mt 3.17) e à sua exaltação celestial (Hb 1.5).

O Salmo 2 também demonstra que a esperança messiânica não é passiva ou puramente contemplativa — ela tem implicações éticas imediatas para as nações: “Sede sábios, ó reis; deixai-vos corrigir, ó juízes da terra. Servi ao Senhor com temor” (Sl 2.10-11). O Messias não é apenas objeto de esperança futura; Sua soberania já exerce uma reivindicação sobre o presente. O clamor do lamento e a proclamação da soberania messiânica coexistem no Saltério porque coexistem na realidade: o Rei já reina, mesmo quando a experiência presente parece negar isso.

4.2 Salmo 22: lamento e glória messiânica num único poema

O Salmo 22 é o texto mais impressionante do Saltério pela forma como integra lamento e messianismo numa única composição. Ele começa com o clamor que Jesus repetirá na cruz: “Deus meu, Deus meu, por que me abandonaste?” (Sl 22.1; Mt 27.46) e termina com uma proclamação universal da soberania divina que abrange gerações ainda não nascidas.

Podemos apresentar o Salmo 22 como “um retrato quádruplo”: versículos 1-3, as nações rugem; 4-6, o Senhor nos céus; 7-9, o Filho proclama o decreto; 10 ao final, aconselha-se os reis. Mas mais significativa do que a estrutura é a densidade das correspondências entre o salmo e a paixão de Cristo, detalhadas com precisão:

Versículo 1 — “Deus meu, Deus meu, por que me abandonaste?” — citado por Jesus na cruz (Mt 27.46; Mc 15.34).
Versículo 8 — “Confiou no Senhor; que o livre! Que o salve, se nele se compraz!” — parafraseado pelos que passavam pela cruz (Mt 27.43).
Versículos 16-17 — “Cercaram-me cães […] traspassaram-me as mãos e os pés. Posso contar todos os meus ossos” — descrição do crucificado séculos antes da invenção da crucificação como método de execução romana.
Versículo 18 — “Repartem entre si as minhas vestes e sobre a minha túnica lançam sortes” — cumprido literalmente pelos soldados romanos (Jo 19.23-24).

O material de referência de Spurgeon comenta: “Davi o mantém em dois planos, literal e alegórico. Se lemos o salmo inteiro, primeiro com o olho literal de Davi, o sentido é óbvio, e se situa acima de qualquer disputa com a história sagrada. […] Depois de considerarmos com atenção os assuntos separadamente, se os considerarmos juntos, contemplaremos a beleza e majestade plena deste charmosíssimo poema. Perceberemos os dois sentidos muito distintos um do outro, mas que agem em perfeita harmonia.”

A segunda metade do Salmo 22 (vs. 22-31) é uma explosão de louvor e esperança escatológica: “Todas as extremidades da terra se lembrarão e se voltarão para o Senhor; todas as famílias das nações se prostrarão diante de ti” (Sl 22.27). Do abandono na cruz ao domínio universal: esse é o arco do Salmo 22, e é o arco da própria história da redenção. O sofrimento do Ungido não é a última palavra; é o caminho para a glória que abençoará todas as nações.

4.3 Salmo 45: o Rei-Noivo e o amor eterno
O Salmo 45 é chamado no material de referência de “Epitalâmio para o Noivo Celeste e sua esposa eleita” — um hino nupcial que, lido literalmente, celebra um casamento real, mas cujo sentido espiritual aponta para Cristo e sua Igreja. Spurgeon comenta: “Olhos espirituais bem enfocados veem aqui só Jesus, ou, se Salomão estiver presente, deve ser como sombra anuviada de transeunte.”

O versículo 6 do Salmo 45 é um dos textos mais explicitamente cristológicos de todo o Antigo Testamento: “O teu trono, ó Deus, é eterno e perpétuo; cetro de equidade é o cetro do teu reino.” A Epístola aos Hebreus cita esse versículo diretamente, aplicando-o ao Filho: “Mas ao Filho: O teu trono, ó Deus, é para todo o sempre” (Hb 1.8). O salmista dirige-se ao Rei com o título “Ó Deus” — uma afirmação da divindade do Ungido que o Novo Testamento recolhe e afirma sem hesitação.

O material de referência identifica no Salmo 45 a “vitória do Messias prenunciada e desejada” (versículos 3-5), o “amor e o ódio de Cristo” (versículo 7) e “o aroma de suas vestes — de sangue e batalha, mas de perfume doce” (versículo 8) — imagens que comunicam a dupla natureza do ministério do Rei: sofrimento e fragrância, batalha e amor. Essa combinação é precisamente o que a narrativa dos Evangelhos revela em Cristo.

4.4 Salmo 110: o Rei-Sacerdote — o mais citado no Novo Testamento

O Salmo 110 é o salmo mais citado em todo o Novo Testamento — pelo menos dezoito vezes, em contextos que vão dos Evangelhos às Epístolas. Sua abertura é um dos textos mais enigmáticos e teologicamente densos do Saltério: “Disse o Senhor ao meu Senhor: Assenta-te à minha direita, até que eu ponha os teus inimigos por escabelo dos teus pés” (Sl 110.1).

Jesus mesmo utilizou esse versículo para desconcertar os fariseus, perguntando como Davi podia chamar seu descendente de “meu Senhor” (Mt 22.41-46). A pergunta implica que o Messias não é apenas filho humano de Davi, mas Senhor divino — preexistente a Davi e superior a ele em natureza. A Epístola aos Hebreus desenvolve extensivamente o versículo 4 do mesmo salmo — “Tu és sacerdote para sempre, segundo a ordem de Melquisedeque” (Sl 110.4; Hb 5.6; 6.20; 7.17) — para fundamentar a superioridade do sacerdócio eterno de Cristo sobre o sacerdócio levítico temporário.

Walton e colaboradores ressaltam que o Salmo 110 era lido no contexto do Antigo Oriente Próximo como um oráculo real de entronização — o Rei sendo instalado por decreto divino. No contexto bíblico, porém, ele transcende qualquer entronização humana: o Rei aqui instalado é simultaneamente Sacerdote eterno, assentado à direita de Deus, esperando que seus inimigos sejam postos por escabelo de seus pés. Esse texto é a mais alta afirmação da soberania messiânica no Saltério — e sua frequência de citação no Novo Testamento reflete exatamente esse peso teológico.

5 — A integração entre lamento e esperança messiânica

5.1 O Salmo 22 como modelo da trajetória espiritual cristã

A sequência interna do Salmo 22 — do abandono ao triunfo, do sofrimento à proclamação universal — é o modelo mais perfeito do Saltério para a trajetória espiritual do crente. Não é coincidência que esse seja também o salmo da paixão de Cristo: a experiência de Jesus na cruz é o cumprimento do que o salmista viveu tipicamente e descreveu profeticamente.

Para o crente que vive à luz da ressurreição, o Salmo 22 oferece uma estrutura interpretativa para o sofrimento: o abandono experienciado no versículo 1 não é a realidade final; a soberania proclamada nos versículos 27-31 é. O lamento é o ponto de partida, não o destino. E o destino — a proclamação da soberania do Rei ungido sobre todas as nações — é garantido não pela circunstância, mas pelo caráter imutável do Deus que instalou Seu Rei em Sião.

5.2 A esperança messiânica como fundamento do lamento
Um aspecto frequentemente negligenciado na teologia do lamento é que os Salmos de Lamento só podem ser orados por alguém que acredita que Deus existe, que Ele ouve e que Ele pode intervir. Em outras palavras, o lamento pressupõe esperança — esperança de que a situação presente não é a última palavra, de que há um Deus soberano que governa a história e que pode reverter o que parece irreversível.

Os Salmos Messiânicos fornecem o fundamento mais sólido para essa esperança: eles revelam que Deus já anunciou, com séculos de antecedência, como a história terminará. O Rei ungido reinará. Os inimigos serão postos por escabelo. Todas as nações se prostrarão. A geração ainda não nascida ouvirá o que o Senhor fez. Esse é o horizonte dentro do qual o lamento é pronunciado — e é por isso que o lamento pode coexistir com a fé.

Waltke sintetiza essa relação de forma precisa: os Salmos de Lamento não contradizem os Salmos Messiânicos; eles os pressupõem. O salmista pode clamar pela intervenção de Deus precisamente porque sabe que Deus tem um plano redentor que se cumprirá. A esperança messiânica não elimina o sofrimento presente; ela lhe dá contexto e significado. E o lamento não contradiz a esperança; ele é a expressão mais honesta de alguém que espera num Deus fiel a despeito das aparências presentes. 

BOX DE INTERAÇÃO

Reflexão Teológica

- O Salmo 6 descreve a transição da “tonalidade menor” do sofrimento para os “acordes mais sublimes” da confiança — sem que as circunstâncias externas sejam descritas como mudadas. O que produz essa transição no salmista? Como a prática do lamento bíblico — levar o sofrimento integral a Deus, sem minimizá-lo nem escondê-lo — pode transformar a forma como uma comunidade de fé pastoral e ministerialmente lida com o sofrimento humano?

- O Salmo 22 começa com o clamor do abandono (“Deus meu, Deus meu, por que me abandonaste?”) e termina com a proclamação da soberania universal do Ungido. Jesus repetiu esse clamor na cruz — e ressuscitou. Como a trajetória do Salmo 22 — do abandono ao triunfo — molda a compreensão cristã do sofrimento à luz da ressurreição? De que forma os Salmos Messiânicos fornecem a base teológica para que o lamento seja pronunciado com fé, e não com desespero?

Atividade Acadêmica

Leia os Salmos 22 e 110 na íntegra, e para cada um:
- Identifique os elementos de lamento e os elementos de esperança ou triunfo, mapeando o arco espiritual do salmo.
- Liste as citações ou alusões ao salmo encontradas no Novo Testamento, indicando o contexto em que são utilizadas.
- Analise como a interpretação messiânica desses salmos — feita por Jesus e pelos apóstolos — ilumina tanto o sentido original davídico quanto o cumprimento em Cristo.

Conteúdo Bônus

Do Abandono ao Triunfo: O Salmo 22 e a Gramática do Sofrimento Redentor

Existe um salmo que começa na cruz e termina na consumação. Davi o escreveu a partir de sua própria experiência de abandono — perseguido, cercado, desesperado — e o Espírito Santo o depositou nesse texto com uma densidade de detalhes que só seriam plenamente compreendidos séculos depois, quando um homem na cruz de madeira romana pronunciaria as mesmas palavras inaugurais: ‘Deus meu, Deus meu, por que me abandonaste?’ O Salmo 22 não é apenas um salmo davídico que Jesus citou na hora da morte. É o arco completo da história da redenção condensado em 31 versículos: da escuridão do abandono à proclamação que alcança gerações ainda não nascidas. É, de todos os textos do Saltério, o que mais profundamente integra lamento e esperança messiânica — e o que mais claramente demonstra que esses dois polos não se excluem, mas se pressupõem.

O lamento bíblico, conforme os Salmos o constroem, não é a ausência de fé. É uma de suas expressões mais corajosas. Waltke observa que só se pode lamar a alguém com quem se tem um relacionamento real — o lamento pressupõe intimidade, não desespero sem saída. O salmista do Salmo 6 muda da tonalidade menor para acordes mais sublimes — não porque as circunstâncias mudaram durante o poema, mas porque sua perspectiva sobre Deus mudou. O salmista do Salmo 51, após o pecado mais grave de sua vida, não busca ritual que cubra o dano; ele pede um coração novo, um espírito firme, a presença do Espírito Santo preservada. E o salmista do Salmo 88 — o único que termina na escuridão sem resolução visível — é preservado no cânon sagrado como testemunho de que há momentos em que a fé não é acompanhada de alívio, e ainda assim permanece fé. A variedade dos Salmos de Lamento não é desordem teológica; é precisão pastoral — ela cobre a totalidade da experiência humana, sem excluir ninguém.

Os Salmos Messiânicos, por sua vez, são o horizonte dentro do qual o lamento é possível. Sabe-se que Deus tem um plano — que o Rei será instalado em Sião apesar da conspiração das nações (Sl 2), que o Ungido passará do abandono ao domínio universal (Sl 22), que o Sacerdote eterno está assentado à direita de Deus esperando que seus inimigos sejam postos por escabelo de seus pés (Sl 110). Esse horizonte não elimina o sofrimento presente; ele lhe dá contexto e significado. O crente que conhece o Salmo 110 pode também orar o Salmo 88 sem desespero — porque sabe que a escuridão presente não é a realidade final. A esperança messiânica não torna o lamento desnecessário; ela torna o lamento suportável. Ela diz: clama, porque há alguém que ouve; sofre, porque há um plano que redime; aguenta a escuridão, porque já foi anunciada a luz.

O Salmo 22 é, em última análise, um espelho do Evangelho. Da mesma forma que a teologia cristã proclama que a morte de Cristo não foi o fim, mas o caminho para a ressurreição e a soberania universal, o Salmo 22 proclama que o abandono do versículo 1 não é o fim, mas o ponto de partida para a proclamação do versículo 27: ‘Todas as extremidades da terra se lembrarão e se voltarão para o Senhor.’ Spurgeon observa que o salmo deve ser lido nos dois planos — literal e alegórico — simultaneamente: eles não se excluem, mas ‘agem em perfeita harmonia.’ O estudante de teologia que compreende esse princípio compreendeu algo fundamental sobre como a revelação bíblica funciona: como um organismo vivo, onde cada parte ilumina as demais, onde o sofrimento e a glória coabitam o mesmo poema, e onde o lamento mais sombrio é orado dentro de um horizonte de esperança que o Deus soberano já anunciou e cumprirá.

Referência Bibliográfica
SPURGEON, C.H. Esbocos Biblicos de Salmos. Vols. 7-31; 32-55; 56-79; 80-103; 104-125; 125-129. [S.l.: s.n., s.d.]
WALTKE, Bruce K. Teologia do Antigo Testamento: uma abordagem exegetica, canonica e tematica. Sao Paulo: Vida Nova, 2010.
WALTON, John H. O pensamento do Antigo Oriente Proximo e o Antigo Testamento: introducao ao mundo conceitual da Biblia hebraica. Sao Paulo: Vida Nova, 2010.
WALTON, John H.; MATTHEWS, Victor H.; CHAVALAS, Mark W. Comentario historico-cultural da Biblia: Antigo Testamento. Belo Horizonte: Editora Vida, 2003.




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