
quarta-feira, 2 de agosto de 2017
"05 letras preciosas"
cada letra do nome de Jesus uma história para nossas crianças:
05 Letras Preciosas
Hoje vou contar para vocês a História de Alguém muito especial, nosso melhor amigo que até em seu nome pode nos falar sobre seu grande amor por nós.
Com:
#CriançasparaJesus
#vamosfalarsobreJesus
#ReidosReis.
"Eclesiastes e Cantares"
Eclesiastes e Cantares:
A Vida Diante da Eternidade e o Amor como Dádiva Divina
O estudo dos Livros Poéticos se complementam de maneira singular: Eclesiastes e Cantares de Salomão. Eclesiastes, escrito sob o prisma da vida “debaixo do sol”, conduz o leitor por uma jornada de desilusão radical com as promessas do mundo — riqueza, prazer, poder, sabedoria — para desembocar em uma única conclusão: tudo é vaidade sem Deus. Cantares, por sua vez, celebra o amor entre homem e mulher como dádiva sagrada, elevando o relacionamento humano à categoria de parábola do amor divino pela humanidade.
Juntos, esses dois livros formam uma teologia da existência humana: Eclesiastes expõe a futilidade da vida horizontal — aquela que não alcança o Eterno — enquanto Cantares revela que o amor, quando vivido na pureza e na entrega, aponta verticalmente para o amor de Cristo por sua Igreja. Não há vida com sentido sem o Eterno; e não há relação humana verdadeira sem o amor que vem de Deus.
Eclesiastes: a vida “debaixo do sol” e a necessidade do eterno
1 — O Livro de Eclesiastes: Introdução, Estrutura e Tema
1.1 Identidade, nome e contexto histórico
O livro do Eclesiastes é uma das obras mais singulares da literatura bíblica — e, por isso mesmo, uma das mais mal compreendidas. Seu nome deriva do grego ekklêsiastês, equivalente ao hebraico Qohelet (ou Coheleth), que tem sua raiz na palavra qal, significando “chamar, convidar, reunir a congregação”. O Qohelet é, portanto, o Pregador — aquele que chama o povo a ouvir uma mensagem que tem para lhe entregar. Eclesiastes é o equivalente grego desse nome; em nossa língua significa “pregador”, o que chama o povo a ouvir a mensagem que tem para lhe entregar.
O livro é uma amostra judaica de uma tradição literária largamente atestada no Antigo Oriente, conhecida como “literatura sapiencial”. Segundo a opinião dos antigos, Salomão escreveu Eclesiastes em idade avançada (11:9; 12:1), em Jerusalém. Seu propósito foi remover o escândalo que dera a todo o povo e advertir especialmente os jovens contra as loucuras e os pecados que ele próprio havia cometido (Eclesiastes 7:27-29). Eclesiastes é um livro para todas as épocas, porque reflete os problemas, as experiências e as observações de uma pessoa que vive no mundo real, seja nos anos a.C. ou d.C.
A expressão-chave do livro é “debaixo do sol” — que aparece 29 vezes e delimita o horizonte de observação do Pregador: a vida humana no plano horizontal, que não alcança a perspectiva do Eterno. O tema central é articulado logo em 1:1-11 — “vaidade” (hebel) — o termo ocorre 37 vezes. Na origem hebraica, hebel significa sopro — aquilo que é insignificante, transitório e de valor efêmero. Para Eclesiastes, tudo o que não tem valor eterno não tem valor real.
1.2 O propósito apologético e o valor teológico de Eclesiastes
O propósito de Eclesiastes era convencer os homens da inutilidade de qualquer ponto de vista sobre o mundo que não se levante acima do horizonte do próprio homem. Pronuncia o veredicto de “vaidade de vaidades” sobre qualquer filosofia de vida que considera o mundo criado, ou o prazer humano, como uma finalidade em si mesmo. Considerar a felicidade pessoal como sendo o sumo bem da vida é pura estultícia, levando-se em conta o valor preeminente de Deus em contraste com Seu universo criado.
Os argumentos do livro estão na perspectiva do viver “debaixo do sol”. Para quem está “em Cristo”, o viver atinge outra dimensão — acima do sol, nas regiões celestiais em Cristo. O livro tem como propósito analisar a falsa felicidade que muitos buscam nas dimensões materiais, porém não destrói os valores sociais nem os prazeres legítimos; antes, dá-lhes o real valor, buscando viver em conformidade com Deus.
Eclesiastes desafia seus leitores a viver no mundo como ele realmente é, em vez de viver em um mundo de falsas esperanças. Eclesiastes não deve ser considerado pessimista ou cínico, mas é francamente realista. De forma especial, Eclesiastes faz o leitor confrontar-se com o significado amplo e terrível da morte — para nos levar, pela necessidade da ressurreição, a Cristo.
1.3 Estrutura literária do livro
O livro de Eclesiastes apresenta uma estrutura de cinco grandes blocos temáticos: o Primeiro Discurso (1:1—2:26) trata da Vaidade da Sabedoria Humana — a inutilidade final da sabedoria, do gozo e da riqueza; o Segundo Discurso (3:1—5:20) aborda as Leis que Governam a Vida — o tempo, a morte, a política e a religião; o Terceiro Discurso (6:1—8:17) demonstra que Não Há Satisfação nos Bens e Tesouros da Terra; o Quarto Discurso (9:1—12:8) afirma que Deus tratará das injustiças desta vida e que a morte é inevitável; e a Conclusão (12:9-14) apresenta A Vida à Luz da Eternidade — teme a Deus e guarda os Seus mandamentos.
2 — A Vida “Debaixo do Sol”: A Crítica do Pregador à Existência Horizontal
2.1 A vaidade da sabedoria e do conhecimento (1:12-18)
Eclesiastes começa onde toda geração recomeça: pela tentativa de encontrar sentido na sabedoria e no conhecimento. O Pregador não é um ignorante que despreza o saber — é um dos homens mais cultos de sua época. Mas a conclusão é demolidora: a educação e a sede intelectual são incapazes de satisfazer nossas necessidades mais intensas. A tarefa do intelectual, a busca pela compreensão da vida, é em si um esforço sem esperanças.
O provérbio em 1:15 esclarece: “Aquilo que é torto não se pode endireitar”; ninguém pode resolver um problema insolúvel. “O que falta não se pode calcular”; ninguém pode somar quantias desconhecidas. Não podemos entender a vida porque o problema é muito complexo e há muitas coisas que não conhecemos. Apenas aquele que é lá de cima (João 8:23) pode atender às nossas necessidades mais extremas.
2.2 A vaidade do prazer e da riqueza (2:1-26)
Eclesiastes discute se o prazer e o luxo podem dar sentido à vida. Salomão experimentou o prazer, mas sempre guiado por sua mente — em outras palavras, ele não se corrompeu, antes manteve controle sobre si mesmo. Não só os prazeres ilícitos o desapontaram, mas até atividades moralmente aceitáveis e coisas feitas com moderação fizeram-no sentir-se vazio.
Em 2:18-26, o livro expõe a loucura de uma vida dedicada ao acúmulo de dinheiro. Muitas pessoas dedicam-se ao trabalho incessante sob a justificativa de que estão fazendo isso para seus filhos. Mas isso não é desculpa para perder a sua própria vida. Os filhos podem muito bem desperdiçar simplesmente tudo o que seus pais acumularam com muito esforço (2:18-19). Levar a vida com satisfação é melhor do que ficar tentando aumentar o saldo da conta bancária.
2.3 O tempo, a morte e a eternidade plantada no coração (3:1-22)
A passagem mais famosa de Eclesiastes — “Tudo tem o seu tempo determinado” (3:1-8) — não é um consolo fatalista, mas uma demonstração da complexidade do governo de Deus sobre a existência. Nossa existência neste mundo é uma mistura de alegria e dor, harmonia e conflito, vida e morte. Cada um deles tem o seu momento adequado e nós, como criaturas temporais, devemos nos conformar com as limitações do tempo que fazem parte do ciclo da vida.
Eclesiastes 3:11 afirma que Deus “pôs a eternidade no coração” do ser humano. Ansiar pela eternidade é algo que se encontra plantado dentro de nós (3:11). Não conseguimos nem estar satisfeitos com o que somos nem entender o propósito de Deus em tudo isso. Conseguimos apenas aceitar com humildade o que somos neste mundo e confessar nossa fé em que o caminho de Deus é correto (3:11-14). O vazio que nenhuma riqueza, prazer ou sabedoria humana consegue preencher tem nome: é o espaço deixado por Deus para que apenas Ele possa habitá-lo.
2.4 Da amizade, da política e da religião (4:1—7:29)
Ao longo dos capítulos centrais, Eclesiastes percorre as principais esferas da vida humana, aplicando o mesmo critério: o que resiste à prova do tempo e da morte? A amizade genuína (4:9-12) é um dos poucos tesouros que proporciona satisfação real e duradoura. Um amigo é um conforto na necessidade e uma ajuda nas dificuldades. A religião verdadeira (5:1-7) reconhece nossas limitações quanto à capacidade de compreender a Deus e quanto à habilidade de agradar a ele com nossos feitos. A atitude de temor a Deus que Eclesiastes recomenda (5:7) é dependência da graça de Deus.
Quanto à riqueza (5:10—6:9): onde os ricos estão envolvidos, o suficiente nunca é suficiente (5:10; 6:7). O trabalhador tem mais paz e dorme melhor do que o homem abastado (5:12). Quanto à sabedoria (7:11-14): o sábio entende que tanto a prosperidade quanto a adversidade vêm da mão de Deus e aceita a ambas. A sabedoria não desaparece nos tempos difíceis, ao contrário das riquezas.
2.5 A morte, a injustiça e a soberania de Deus (8:1—12:8)
Nos últimos blocos temáticos, Eclesiastes confronta diretamente a morte — não como tema filosófico abstrato, mas como realidade que nivela poderosos e impotentes. O fato de parecer que eles com frequência ficam impunes agrava a situação (8:9-15). Mas isso não deve levar o leitor ao cinismo. Ao contrário, deve suscitar uma fé mais profunda no fato de que só Deus conhece o fim desde o princípio e só Ele pode finalmente colocar as coisas em ordem.
O conselho prático de Eclesiastes para viver diante da morte é surpreendentemente positivo: “Goza a vida com a mulher que amas” (9:9); “Tudo o que a tua mão encontrar para fazer, faze-o com todo o teu vigor” (9:10). A consciência da morte não produz paralisia — produz urgência de viver com plenitude, gratidão e entrega. A juventude deve ser aproveitada para buscar a Deus antes que cheguem os dias difíceis da velhice (11:9—12:7).
3 — A Conclusão de Eclesiastes: A Vida à Luz da Eternidade
3.1 O chamado ao Eterno (12:9-14)
O livro termina em quatro subdivisões. O versículo 8 reafirma o tema de 1:2. Os versículos 9-10 descrevem a obra de Salomão. Os versículos 11-12 apresentam uma última palavra sobre a sabedoria. E os versículos 13-14 concluem com o chamado definitivo do livro: “Tudo está ouvido; a suma de tudo é: teme a Deus e guarda os seus mandamentos; porque isso é o todo do homem. Porque Deus há de trazer a julgamento toda obra e tudo o que está encoberto, quer seja bom, quer seja mau” (Eclesiastes 12:13-14).
A verdadeira sabedoria vem de Deus, o único Pastor, e é digna de ser adquirida. A procura da riqueza, do conhecimento e do poder político é, em última análise, insatisfatória e leva ao julgamento divino. A vida é curta e cheia de mistérios. Todas as nossas tentativas de tornar a vida significativa falham. A resposta sábia, portanto, é apegar-se a Deus e à sua graça.
BOX DE INTERAÇÃO
Reflexão Teológica
- Eclesiastes 3:11 afirma que Deus “pôs a eternidade no coração” do ser humano. Como esse versículo explica o fracasso de todas as tentativas humanas de encontrar sentido definitivo fora de Deus — seja na riqueza, na sabedoria, no prazer ou no poder? De que maneira a vida “debaixo do sol” descrita por Eclesiastes ressoa com a experiência contemporânea de pessoas que buscam felicidade nas realizações materiais ou intelectuais, e como o cristão pode usar esse livro como ponto de contato com essa realidade?
Atividade Acadêmica
Leia Eclesiastes 1:1-11 e 12:9-14 e, para cada texto:
- Identifique o papel da “vaidade” (hebel) no capítulo 1 e compare com a “conclusão” do capítulo 12. O que muda na perspectiva do autor entre o início e o fim do livro?
- Analise como a expressão “debaixo do sol” delimita o horizonte de observação do Pregador. O que acontece com a conclusão do livro quando esse horizonte é expandido para incluir a eternidade?
- Relacione Eclesiastes 12:13-14 com o Novo Testamento: como a vinda de Cristo responde à pergunta existencial central de Eclesiastes sobre o sentido da vida diante da morte inevitável?
Cantares de Salomão: amor e família — a visão bíblica do relacionamento e da vida
4 — Cantares de Salomão: Introdução, Título e Canonicidade
4.1 O lugar único de Cantares no cânon
O Antigo Testamento registra sete grandes cânticos de louvor: o cântico de Moisés e Miriã após a redenção do Egito (Êxodo 15); o cântico de Israel sobre os poços no deserto (Números 21:17); o último cântico de Moisés (Deuteronômio 32); o cântico de vitória de Débora e Baraque (Juízes 5); o cântico de louvor de Ana (I Samuel 2); o cântico de Davi (I Samuel 22); e o Cântico dos Cânticos, ou Cantares de Salomão. Quão variadas obras são exaltadas nesses cânticos de louvor: salvação, alegria, libertação, juízo, vitória e outras graças. Mas algo falta nos primeiros seis cânticos, e a isso é dedicado o sétimo, o cântico mais longo e encantador: o amor. Cantares é o cântico do amor do Antigo Testamento.
4.2 Título, significado do nome e canonicidade
Os hebreus deram ao livro o nome de “Cântico dos Cânticos” referindo-se às primeiras palavras do livro, que enfatizam a importância de serem eles os “melhores cânticos” de Salomão. Em português, o título é “Cantares de Salomão”. Seu nome hebraico é shirhashirim, que significa “Cântico dos Cânticos”. Entende-se que esse sobrepujasse os 1.005 cânticos compostos por Salomão (I Reis 4:32). Era o cântico excelente. O livro descreve o amor e o matrimônio de Salomão (chamado de “o amado”) com uma jovem do interior do país (chamada de “Sulamita”).
Cantares de Salomão é um dos livros mais controvertidos da Bíblia. Através dos anos, tem sido discutido e debatido, e alguns chegam a duvidar de sua canonicidade. No entanto, os judeus reverenciavam-no muito; cantavam porções dele durante as festividades da Páscoa (a primeira e a mais importante de todas as festas judaicas anuais), como referência alegórica ao Êxodo, quando Deus desposou Israel. No AT, Israel é chamado “esposa de Deus” (Jeremias 3:1-20; Ezequiel 16 e 23; Isaías 50:1; 54:4-5; Oséias 1-3).
5 — As Escolas de Interpretação e a Mensagem Central
5.1 As três principais abordagens interpretativas
A riqueza — e a complexidade — de Cantares é demonstrada pelas diversas escolas de interpretação que o livro gerou ao longo da história. Três abordagens principais se destacam: A alegoria interpreta tudo simbolicamente, salientando somente a união espiritual entre Deus e Israel ou Cristo e a Igreja. Está presente desde a interpretação judaica do livro na Festa da Páscoa e foi adotada por muitos Pais da Igreja, que o leram como alegoria do amor de Cristo pela Igreja.
A interpretação literal ou naturalista interpreta o livro simplesmente como uma história de amor matrimonial — celebração do amor entre homem e mulher como criação sagrada de Deus. Trata-se de poesia oriental antiga, com plena licença literária para suas imagens e metáforas.
A tipologia interpreta o livro como um autêntico romance de amor matrimonial para levar o leitor a pensar na comunhão com Deus, na intimidade de Cristo e a Igreja. Combina as duas abordagens anteriores: o amor humano descrito é real e sagrado, mas aponta tipologicamente para o amor de Cristo pela Igreja.
5.2 A mensagem central do livro
O professor Baxter bem resumiu a mensagem central de Cantares: é a presença oculta de Cristo e da Igreja nos Cantares de Salomão que dá ao poema sua beleza mais profunda e seu significado mais secreto. Isso o tornou precioso para o círculo íntimo dos que amam o Senhor. A mensagem central: tal é a união entre Cristo e Seu povo remido, quando percebida em seus sentidos mais profundos e ternos, que só pode ser expressa sob a figura de uma união conjugal em termos ideais.
Três versos de Cantares celebram uma possessão mútua no ato de amor: “O meu amado é meu e eu sou dele” (2:16) — "Ele nos amou primeiro" (Jeremias 31:3; Oséias 11:4); “Eu sou do meu amado e o meu amado é meu” (6:3); “Eu sou do meu amado e ele me tem afeição” (7:10). Esses três versos constroem progressivamente o retrato de uma relação de amor que amadurece em posse mútua crescente. O amor mais sublime dessa união só pode ser expresso — e mesmo assim imperfeitamente — pela mais sagrada das relações humanas, o casamento. Cristo é o noivo e nós somos a noiva.
6 — A Estrutura de Cantares: Os Sete Idílios
Para o leitor de hoje, Cantares, a princípio, parece não ter nenhuma estrutura. O livro não segue os padrões modernos de organização hierárquica dos assuntos. Uma leitura cuidadosa, porém, mostra que Cantares avança com cuidado por um grupo de assuntos selecionados. O livro encaixa-se com perfeição na forma literária dos idílios com as sete cenas, reminiscências e coros parentéticos. Os idílios são figuras de cenas rurais agrupadas para contar uma história. Suas cenas são muitas vezes interrompidas por coros parentéticos relacionados não com a cena próxima, mas com o tema geral, enfatizando-o.
O Idílio 1 (1:1—2:7) é uma Recapitulação do casamento real: o séquito da noiva chega ao palácio; os amantes trocam mútuos elogios. O Idílio 2 (2:8—3:5) traz Reminiscências do noivado por parte da esposa: a noiva recorda o inesquecível dia de primavera quando seu amante real foi pela primeira vez à sua casa. O Idílio 3 (3:6—5:1) apresenta as Lembranças do dia do noivado: o rei Salomão surge em toda sua magnificência e derrama seu amor perante Sulamita, com proposta de casamento e elogios à sua beleza. O Idílio 4 (5:2—6:3) é a Descrição do sonho perturbador da esposa: ela sonha que seu amado procura-a de noite e ela hesita; o sonho termina com final feliz. O Idílio 5 (6:4—7:10) é a Meditação do rei a respeito da esposa: composição apaixonada em que o rei reflete sobre a beleza da noiva. O Idílio 6 (7:11—8:4) mostra A esposa desejando ver seu velho lar: em meio aos esplendores do palácio, ela anseia por ver de novo sua casa nos campos do Monte Líbano. O Idílio 7 (8:5-14) é a Renovação do amor no Líbano: o casal régio chega ao lugar em que se encontraram pela primeira vez.
7 — Amor e Família: A Visão Bíblica do Relacionamento
7.1 O amor como dádiva sagrada e a pureza como fundamento
A mensagem básica de Cantares é a pureza e o caráter sagrado do amor e do casamento — mensagem muito necessária em nossos dias de casamentos desfeitos e de divórcios fáceis. O livro pinta a beleza de um amor puro entre um homem e uma mulher, que amadurece e se transforma em uma devoção mútua. Cantares afirma com toda a autoridade das Escrituras que o amor conjugal não é uma concessão divina, mas uma criação sagrada. O amor físico entre cônjuges, quando vivido dentro da aliança do casamento, é celebrado por Deus — não apenas tolerado.
A análise analógica do livro revela três fases do relacionamento: de 1:2 a 3:5, o namoro tem como sentido literal a Apresentação e como símbolo o Estandarte (2:4); de 3:6 a 5:1, o casamento tem como sentido espiritual a União e como símbolo a Coroa (3:11); de 5:2 a 8:14, a vida conjugal representa a Comunhão e tem como símbolo o Selo (8:6). Essa progressão não é acidental — ela comunica que o amor verdadeiro amadurece em compromisso crescente.
7.2 O casamento como parábola do amor divino
O livro de Cantares é uma parábola sobre o amor divino, que é o pano de fundo e a fonte de todo o verdadeiro amor humano. Várias ilustrações são usadas nas Escrituras para expressar os diversos aspectos dessa admirável união entre Cristo e sua Igreja: Cristo é a cabeça, e nós somos o corpo — uma união viva. Cristo é o fundamento, e nós somos o edifício — uma união duradoura. Cristo é a videira, e nós somos os ramos — uma união frutífera. Cristo é o primogênito, e nós somos Seus irmãos — uma união de co-herança.
Mas o significado mais sublime dessa união só pode ser expresso — e mesmo assim imperfeitamente — pela mais sagrada das relações humanas, o casamento. Cristo é o noivo e nós somos a noiva; pois, no sentido mais verdadeiro, nossa união com Ele é uma união de amor. Esse é o esplêndido significado que constitui o cerne dos Cantares de Salomão.
7.3 Cantares e a família contemporânea
A mensagem de Cantares para a família contemporânea é ao mesmo tempo simples e profunda: o amor humano — quando fundado em Deus, cultivado na pureza e expresso no compromisso da aliança matrimonial — não é fraqueza nem sentimentalismo. É a forma mais próxima que o ser humano tem de experimentar e comunicar o amor divino. Cinco “raposas” (2:15) ameaçam esse amor: o egoísmo, que arruína o amor; o pensamento ansioso, que arruína a paz; as palavras duras, que desfazem a gentileza; a dúvida, que arruína a fé; e o amor ao prazer, que arruína a temperança.
Cantares não é ingênuo sobre as dificuldades do amor — mas afirma que o amor que se ancora em Deus tem recursos para superar cada uma dessas ameaças. O livro é a resposta bíblica definitiva à falsa espiritualidade que enxerga o corpo e a sexualidade como inerentemente inferiores ao espiritual, bem como ao hedonismo que reduz o amor à satisfação do desejo.
8 — Eclesiastes e Cantares em Diálogo: A Completude da Visão Bíblica
Eclesiastes e Cantares parecem, à primeira vista, livros opostos: um é sombrio e analítico; o outro é luminoso e celebrativo. Mas essa aparente oposição revela uma complementaridade teológica profunda. Eclesiastes expõe o vazio da vida sem Deus — demonstra que nenhuma realização humana é suficiente para preencher o espaço da eternidade que Deus plantou no coração humano. Cantares celebra o que Deus deu para preencher esse vazio horizontalmente: o amor humano como parábola do divino — a relação entre marido e mulher como a imagem mais vívida que o ser humano tem do relacionamento com Deus.
Juntos, os dois livros ensinam: a vida tem sentido somente quando orientada ao Eterno (Eclesiastes), e o amor humano autêntico é um dos caminhos pelos quais esse Eterno se revela e se aproxima da criatura (Cantares). Sem Deus, tudo é vaidade — inclusive o amor, quando despojado de seu fundamento divino. Com Deus, até as realidades mais simples — o amor de um homem e uma mulher — se tornam janelas para a eternidade.
BOX DE INTERAÇÃO
Reflexão Teológica
- Cantares afirma que “o amor é tão forte como a morte” (8:6) e que suas labaredas são labaredas do próprio Senhor. Como esse versículo posiciona o amor humano em relação ao amor divino? De que maneira a celebração do amor conjugal em Cantares — incluindo sua dimensão física e emocional — desafia tanto o puritanismo que enxerga o corpo como inferior ao espírito quanto o hedonismo que reduz o amor à satisfação do desejo? O que a visão bíblica de amor em Cantares tem a dizer à família contemporânea diante da crise do casamento e das relações afetivas?
Atividade Acadêmica
Leia Cantares 2:8-17 e 8:5-7 e, para cada texto:
- Identifique as imagens literárias usadas para descrever o amor e analise o que cada imagem comunica sobre a natureza do relacionamento entre os amantes.
- Analise Cantares 8:6-7 como declaração teológica sobre o amor: quais atributos do amor são afirmados nesses versículos e como eles se relacionam com a compreensão bíblica do amor divino (ágape) no Novo Testamento?
- Integre os dois textos: como a jornada de Cantares — do namoro (cap. 2) à maturidade e renovação do amor (cap. 8) — oferece um modelo bíblico de relacionamento conjugal que vai além do romantismo inicial e inclui compromisso, fidelidade e profundidade espiritual?
Conteúdo Bônus
Vaidade e Amor: Eclesiastes e Cantares como Encerramento do Curso e da Existência Humana.
Ha uma elegância teologica na escolha de Eclesiastes e Cantares para encerrar os Livros Poeticos. Eclesiastes comeca com a palavra mais pesada da literatura bíblica — ‘vaidade de vaidades, tudo e vaidade’ — e Cantares comeca com o desejo mais singelo e mais profundo do ser humano: ‘Que me beije com os beijos de sua boca.’
Um é o diagnostico da existência sem âncora no Eterno; o outro e a celebração do que o Eterno deu para que a existência humana não seja apenas vazia. Juntos, eles formam uma teologia da experiência humana que é simultâneamente realista e celebrativa — capaz de olhar sem ilusões para o vazio que a vida sem Deus produz, e capaz de celebrar com toda a intensidade poética o amor que Deus deu como janela para Ele mesmo.
Eclesiastes e, acima de tudo, um livro de honestidade intelectual. O Pregador não começa com uma premissa de fé e deriva conclusões — ele observa, experimenta, questiona e conclui. Ele tentou a sabedoria, o prazer, a riqueza e o trabalho. E concluiu que todos são hebel — sopro, vapor, o que dura um instante e se dissolve. Mas essa honestidade não é niilismo; é apologética. Ela afirma que o vazio que persiste após cada conquista não é acidental — e evidência de que Deus ‘pôs a eternidade no coração’ do ser humano (3.11). O espaço que não pode ser preenchido pelo finito foi projetado para ser preenchido pelo Infinito. Eclesiastes é a demonstração experimental — conduzida pelo homem mais rico, mais sábio e mais experiente de sua época — de que nenhuma experiência ‘debaixo do sol’ é suficiente. E o argumento mais honesto para a necessidade de Deus que o Antigo Testamento contém.
Cantares é a resposta — não a refutação — de Eclesiastes. Ele não diz que o amor humano é o substituto perfeito para Deus; ele diz que o amor humano, quando vivido na pureza e no compromisso da aliança matrimonial, é uma das formas pelas quais Deus se revela e se aproxima da criatura. O título superlativo — ‘Cântico dos Cânticos’ — indica que o amor e o tema mais elevado que Salomão já tocou em seus 1.005 cânticos. É a declaração progressiva que percorre o livro — ‘O meu amado é meu e eu sou dele’ (2.16), ‘Eu sou do meu amado e o meu amado é meu’ (6.3), ‘Eu sou do meu amado e ele me tem afeição’ (7.10) — é a descricao de um amor que amadurece em posse mútua crescente. Essa progressão tipifica o que o amor de Cristo pela Igreja é: inicialmente oferta unilateral, progressivamente correspondida, e finalmente consumada em união perfeita.
‘O amor e tao forte como a morte’ (8.6). Essa e a declaracão mais ousada de Cantares — e, junto com a conclusão de Eclesiastes, a mais teologicamente densa dos dois livros. Eclesiastes afirma que tudo o que não tem valor eterno não tem valor real. Cantares afirma que o amor — esse amor que é tão forte quanto a morte, cujas labaredas são labaredas do próprio Senhor — tem valor eterno. Ele não é hebel. Ele não e sopro. Ele dura. E o estudante que chegou ao final desta disciplina — percorrendo a Gênesis e o Exodus, os Patriarcas e Moisés, os Salmos e a Sabedoria — compreende agora o que o currículo inteiro afirmou desde o início: tudo aponta para um Deus que criou, que redimiu, que legislou, que habitou, que sofreu, que prometeu e que ama. E esse amor — que Cantares celebra em linguagem poética e que toda a revelação bíblica confirma em linguagem histórica e teológica — é a resposta definitiva ao clamor de Eclesiastes por algo que resista ao sopro do tempo.
Referencia Bibliografica
BAXTER, J. Sidlow. Examinai as Escrituras. Vol. 3. Sao Paulo: Edicoes Vida Nova, 1993.
DAVIDSON, F. (editor). O Novo Comentario da Biblia. Ed. Vida Nova, 2000. Ed. em 1 volume.
ELLISEN, Stanley A. Conheca Melhor o Antigo Testamento. Sao Paulo: Editora Vida, 1997.
INSTITUTO BIBLICO BETEL BRASILEIRO. Sintese dos Livros Poeticos: O Livro do Eclesiastes. Sao Paulo: Betel Brasileiro, [s.d.].
INSTITUTO BIBLICO BETEL BRASILEIRO. Sintese dos Livros Poeticos: Cantares de Salomao. Sao Paulo: Betel Brasileiro, [s.d.].
MESQUITA, Antonio Neves de. Estudo no Livro de Eclesiastes e Cantares de Salomao. JUERP, 1980. 2. ed.
WALTON, John H.; MATTHEWS, Victor H.; CHAVALAS, Mark W. Comentario historico-cultural da Biblia: Antigo Testamento. Belo Horizonte: Editora Vida, 2003.










